Buch lesen: "Versos de Bulhão Pato"

Schriftart:

Raimundo António de Bulhão Pato

Versos de Bulhão Pato


Publicado pela Editora Good Press, 2022

goodpress@okpublishing.info

EAN 4064066408114

Índice de conteúdo

A HELENA

I

A CONVALESCENTE NO OUTONO

II

FELIZ DE AMOR!

III

VAES PARTIR!

IV

A JULIA

(Da Paquita)

V

IMPROVISO

VI

A UM RETRATO

VII

QUIEN NO AMA, NO VIVE

VIII

AMANHÃ!

ANJO CAÍDO

X

PIEDADE!

XI

BELLEZA E MORTE

XII

ORAÇÃO DA MANHÃ

Á filha do meu amigo Magalhães Coutinho

XIII

CARIDADE

Á Ex. ma Sr. a Viscondessa d'Asseca

XIV

BELLA SEM CORAÇÃO

XV

PERDOASTE!

XVI

TRES RETRATOS

(Num album)

XVII

ADEUS

XVIII

A VISÃO DO BAILE

XIX

RECEIOS

XX

LEMBRAS-TE?

XXI

POIS SER PALLIDA É DEFEITO?

XXII

DEVER

XXIII

Á morte da Ex. ma Sr. a D. M. Henriqueta de Campos Valdez

XXIV

PARISINA

A Pedro Jacome Corrêa

PARISINA

Imitação

XXV

A VALSA

XXVI

RECORDAÇÕES

XXVII

SÊ FELIZ

XXVIII

A FOLHA DESBOTADA

XXIX

NUM ALBUM

XXX

ONDE SE ENCONTRA A VENTURA?

XXXI

QUEM DIRÁ?

XXXII

UM BRINDE

(Improviso)

XXXIII

AQUELLE DIA!

XXXIV

PARA RECITAR AO PIANO

(Primeira)

XXXV

(Segunda)

XXXVI

(Terceira)

XXXVII

CIUMES DO PASSADO

XXXVIII

NUM ALBUM

(Improviso)

XXXIX

AMOR E DUVIDA

XL

NUM ALBUM

XLI

SE CORAS NÃO CONTO.

XLII

ANJO E VIRGEM.

XLIII

A M. ME LOTTI

Na noite em que cedeu o producto do seu beneficio a favor de um asylo de infancia desvallida.

XLIV

PRIMAVERA

XLV

VOLTAS

(Improviso)

XLVI

LELIA

XLVII

HYMNO DA INFANCIA DESVALIDA

XLVIII

GRATIDÃO E SAUDADE

(Recitada no Theatro)

XLIX

Diante do tumulo de Salvador Corrêa de Sá (Visconde d'Asseca) e de sua filha.

L

CANÇÃO DOS PIRATAS

(Traduzido do Corsario de Byron)

LI

NUM ALBUM

Onde o meu amigo e joven poeta, D. Thomaz de Mello, tinha escripto uns versos.

LII

Á memoria da Ex. ma Sr. D. Maria Gertrudes Manuel da Cunha.

A HELENA

Índice de conteúdo

Lembras-te, Helena, o dia em que deixámos

O teu saudoso valle, e lentamente

Pela elevada encosta caminhámos?

O sol do estio ardente,

Já não brilhava nos frondosos ramos

Do arvoredo virente.


Chegára o fim do outono: a natureza,

Sem ter os mimos da estação festiva,

Nem aquelle esplendor e gentileza

Que tem na quadra estiva,

Na languida tristeza,

Na luz branda e serena

D'aquelle ameno dia,

Que immensa poesia,

E que saudade respirava, Helena!


Subindo pelo monte,

Chegámos ao casal onde habitava

A tua protegida,

Aquella pobre anciã que se agarrava

Aos restos d'esta vida!

Assim que te avistou, ergueu a fronte

Curvada ao peso de tão longa edade,

Sorrindo nesse instante

Com tal vida, que a luz da mocidade

Parecia alegrar o seu semblante!


Estendeste-lhe a mão, entre as mãos d'ella,

Grosseiras pelo habito constante

Do trabalho da terra,

Queimadas pelo vento sibilante,

E pelo sol da serra,

Produzia essa mão graciosa e bella,

Effeito similhante

Ao que por entre o mato

Produziria a rosa de Benguela,

A flor mais alva e de mais fino trato!


Vinte annos tu contavas nesse dia;

A fiel servidora,

Era a primeira vez que não podia

Deixar a casa ao despontar da aurora,

E cheia de alegria

Caminhar para o valle como outr'ora,

Depôr uma lembrança em teu regaço,

E unir-te ao coração num meigo abraço!


Tu, na força da vida,

Circundada de luz e formosura,

Foste levar á pobre desvalida

Os dons do lar paterno;

Alegrar com teu riso de ternura

Aquelle frio inverno!


Ao ver-te com teus braços,

Nos seus braços senis entrelaçados,

A ventura nos olhos encantados,

A inspiração na fronte deslumbrante,

Afigurou-me então o pensamento

Ver um anjo descido dos espaços,

D'aspecto fulgurante,

Enviado por Deus nesse momento,

Para animar os derradeiros dias

De quem cançado do lidar constante

Abre o seio na morte ás alegrias!


As lagrimas de gosto,

Corriam cristalinas

No rosto d'ella e no teu bello rosto!

Como orvalhos do ceo aquelles prantos,

Um brilhava na hera das ruinas,

Outro na flor de festivaes encantos,

Na rosa das campinas!


Quando voltaste a mim illuminava

O teu semblante uma alegria infinda.

Depois quizeste ainda

Ir visitar a ermida que ficava

No apice do monte:

Firmaste-te ao meu braço, e caminhámos.

No esplendido horisonte

Já declinava o sol quando chegámos.


Era singelo, mas sublime o quadro!

Em roda o mato agreste;

No meio a pobre ermida; ao lado d'ella

Um secular cypreste,

E sobre a cruz do adro

Pendente uma capella

De algumas tristes, desbotadas flores,

Talvez emblema de profundas dores!


Oh! como tu, suspensa

Num extasi ideal de sentimento,

Expandias o livre pensamento

Pela amplidão immensa!

Como depois descendo das alturas

Aonde te arrojára a phantazia,

Parece que a tua alma me trazia

Occulto premio de immortaes venturas!


Tanto expressava o teu olhar profundo,

Que o ceo, a terra, o mar, quanto rodeia

O homem neste mundo,

Jámais me trouxe a idéa

Do suppremo poder da Providencia

Com tamanha eloquencia!


O sol quasi no termo

Com um brando reflexo,

Cingia a cruz do ermo

Em amoroso amplexo!

O rei da creação, o astro orgulhoso,

Que enche a terra de luz,

Tambem vinha prostrar-se saudoso

Aos pés da humilde cruz!


Era solemne e santo

Naquell'hora supprema o teu aspecto!

Nos labios a oração, no rosto o pranto,

As mãos cruzadas sobre o seio inquieto,

Os olhos postos na amplidão do espaço,

E em derredor da frente

Um luminoso traço

A inundarte de luz resplandecente!

..................................


Branda a tarde expirou! D'aquelle dia,

E de outros dias de íntimas venturas,

De immensa poesia,

Nasceram essas paginas obscuras,

Que hoje a teus pés deponho,

Como saudoso emblema,

Do tempo em que sorrira

O nosso bello sonho!

Terias um poema,

Se tão gratas memorias

Podessem ser cantadas numa lyra

Votada a eternas glorias!


Emfim: se um pensamento,

Se uma singela idéa onde transpire

O perfume de vivo sentimento,

Nestas folhas traçar a minha penna...

A estrophe, o canto que o leitor admire,

Seja o teu nome, Helena!

6 de Junho de 1862.

I

Índice de conteúdo

A CONVALESCENTE NO OUTONO

Índice de conteúdo

Revive teu rosto pallido

Á chamma do meu amor;

De novo com mais ardor

Pula em teu seio, querida,

O sangue, o prazer, a vida.


O sopro que na existencia

D'esta luz nos illumina,

Não se ha de extinguir jámais;

Oh! provém da mesma essencia,

Da mesma porção divina,

Com que a mão da Providencia

Torna as almas immortais!

Firma teu braço ao meu braço,

Vem commigo respirar

Este ar vivo e salutar.


Não sentes na luz do ceo,

E no perfume saudoso

Do bosque espesso e formoso,

Que o doce outono volveu?

As folhas que pelo chão

Crestadas dispersa o vento,

Não desprendem um lamento

Que intristece o coração!?


E a voz d'essa ave amorosa,

Que alem na balsa murmura,

Melancolico modilho,

Não parece a voz saudosa

Da mãe que adormenta o filho

Entre os braços com ternura?


D'aquelle pobre casal,

O fumo que vae subindo

Em ondulante espiral,

Não diz que em volta do lar

Se reune a pobre gente,

Que já de perto pressente,

O frio inverno chegar?


Não vês que ha tanta tristeza

Na voz que se eleva a Deus

Agora da natureza!

Oh! mas como aos olhos teus,

E como ao meu coração

É grata a melancolia

D'esta languida estação!


Toda a explendida poesia

Do ceo, da terra, e das flores,

Quando mil cansões de amores

Improvisa o rouxinol,

Alegrando o mez de maio

Desde os clarões do arreból

Até que em doce desmaio

Nas aguas se occulte o sol,

Terá, sim, tem mais frescura,

Mais vida e mais esplendor,

Mas não tem tanta ternura,

Nem respira tanto amor!


Paremos aqui, descansa

Um momento neste abrigo;

O sopro da aragem mansa

Anda em roda a murmurar,

E um raio de sol amigo,

A teus pés se vem prostrar

...........................

Oh! que noites de amargura!

Que horas lentas de agonia!

Que instantes naquelle dia,

Quando tu sem voz, sem gesto,

Suspensa num fio a vida...

Emfim te julguei perdida!


Chegára a noite; uma estrella,

Uma só, não transluzia

No ceo triste e carregado;

Oppresso e desalentado,

O coração me batia.


Pouco a pouco no horisonte

Foi rompendo a nevoa densa;

Era a vida, a luz, o dia,

Aquella alegria immensa,

Que no murmurar da fonte,

No perfume da campina,

Na brisa e na voz divina

Do amoroso rouxinol,

Seduz, arrebata, inspira,

Quando acorda a terra em canticos,

Aos raios vivos do sol!


«Pois tudo se anima agora,

Tudo nasce com a aurora,

Tudo é vida e tudo é luz;

Só nesta face adorada,

Inerte, fria, gelada,

Nem um só clarão reluz!»


Ouviu Deus naquelle instante

A minha supplica ardente;

Em teu lívido semblante

Vi despontar docemente

Um reflexo semelhante

Ao que o sol derrama á tarde

Sobre as nuvens do ponente.


Prostrei-me a rogar então;

E essa estrella de bonança,

Essa casta divindade,

Risonha irmã do infortunio,

Companheira da saudade,

Que o mundo chama—Esperança—

Senti-a no coração!


Com aquelle sol explendido

Que rompêra a nevoa densa,

E com a alegria immensa

Do mar, da terra, e dos ceos,

Quiz de novo a Providencia

Que eu visse nos olhos teus

O mundo, a luz, a existencia!


Agora pois, neste instante,

Agora, que lá distante,

O sino da pobre ermida

Dá signal do fim do dia,

Co' a prece da Ave-Maria, Ergâ-mos, ambos querida, Graças mil a Deus piedoso, Por te haver tornado á vida!

Setembro de 1854.

II

Índice de conteúdo

FELIZ DE AMOR!

Índice de conteúdo

Não sabes que ao ver-te triste,

E pensativa a meu lado,

O rosto na mão firmado.

E os olhos postos no chão,

Calado, ancioso, anhelante,

Quero ler no teu semblante

A causa da dôr constante

Que te opprime o coração?


Pois não basta o meu amor

Para te dar a ventura?

Responde: quando a luz pura

Do sol vem beijar a flor,

Não lhe accende mais a côr?

Não lhe dá mais formosura?


Agora, quando se inflamma

Em teu peito aquella chamma,

Á qual tudo se illumina

De viva, encantada luz,

Dize: é quando, minha vida,

Pallida, triste, abatida,

A tua fronte se inclina,

E melancolica sombra,

De mal contida amargura

Nos teus olhos se traduz?!


Certeza de que és amada

Com quanto poder na terra

Em peito de homem se encerra,

Tem-la em tua alma gravada!

Então de fundo desgosto

Porque vem nuvem pesada

Carregar teu bello rosto?


Pois se ao vívido calor

Do sol a rosa fulgura

E redobra aroma e côr,

Não te ha de dar a ventura

A chamma do meu amor?!

Maio de 1859.

III

Índice de conteúdo

VAES PARTIR!

Índice de conteúdo

Vaes partir! cada instante que passa

Aproxima o adeus derradeiro,

Para mim neste mundo o primeiro,

Que teus olhos proferem aos meus!

Vaes partir! nessas morbidas palpebras,

Treme agora uma lagrima anciosa,

Já deslisa na face formosa,

Já teus labios me dizem adeus!


Vaes partir! contemplar esses campos,

Que o sol vivo de abril illumina,

Ver as relvas da alegre campina

Já cobertas agora de flor.

Escutar as estrophes sentidas

Que de tarde improvisam as aves,

Recordar os instantes suaves

De outros dias de encanto, e de amor.


Vaes partir! vaes tornar aos logares

Testemunhas de um ceo de delicias,

Que em suaves risonhas caricias,

Para nós neste mundo brilhou!

Cada flor, cada tronco viçoso,

Cada espaço de relva florída

Vae lembrar-te uma scena da vida,

Um momento feliz que passou!


Quando for aos clarões da alvorada

O perfume das plantas mais brando,

Quando as aves voarem em bando,

E cantarem ditosas no val;

Quando as aguas correrem mais vivas,

Pelo verde declivio do monte,

Quando as rosas erguerem a fronte

Animadas de um sopro vital...


Que saudade! ai que funda saudade

Has de ter d'esse tempo encantado,

Em que bella e feliz a meu lado

Viste as pompas da terra e dos ceos!

Quando a aurora era a pura alegria,

Uma vaga saudade o sol posto,

Quando meigo sorria teu rosto

Se eu fitava meus olhos nos teus!


.................................


Vaes partir! cada instante que passa

Aproxima o adeus derradeiro,

Para mim neste mundo o primeiro

Que teus olhos proferem aos meus!

Vaes partir! nessas morbidas palpebras,

Treme agora uma lagrima anciosa,

Já deslisa na face formosa,

Já teus labios me dizem adeus!

Abril de 1855.

IV

Índice de conteúdo

A JULIA

Índice de conteúdo

(Da Paquita)

Índice de conteúdo

Naquella deserta ermida,

Que alveja na serrania,

Deu signal, Julia querida,

O sino da Ave-Maria. Este som tão conhecido Da nossa innocente infancia, Como agora vem sentido Trazer-me viva á lembrança, Toda essa doce fragrancia D'aquelle existir d'então! Ai! lembrança não, saudade! Saudade Julia, tão funda... Mas tão grata, que me innunda De ventura o coração. Espera... se neste instante Mandasse á terra o Senhor, Anjo de meigo semblante, E aos dias d'aquella edade Nos tornasse o seu amor... Oh! responde-me, querida, Se quanto depois na vida De bello nos ha passado, Não devera ser trocado Por esses dias em flor?! Que lá vão! lembras-te ainda? Tu risonha doidejavas, Por entre as moitas de flores Como ellas fragrante e linda. Quando o som pausado e lento D'Ave-Maria escutavas, Então naquelle momento Aos pés da Cruz te prostravas!... Que fronte de anjo era a tua Vista ao reflexo amoroso Dos frouxos raios da lua! Uma tarde, ao pôr do sol, No recosto pedregoso Do monte nos encontrámos; Lembras-te! essa hora bateu, Porem nós mal a escutámos! Os olhos, tu perturbada, Baixavas, e no semblante Não sei que luz te brilhava, Eu sei que naquelle instante O prazer me enlouqueceu. Oh! fatal loucura aquella! Tinha-me ali tão perdido, Que, sem mais ver, delirante Nos braços te arrebatei. Não sei por onde vagava, Nem quanto, nem como andei; Só me lembra que a ventura Ali real me fallava, E que aos incertos lampejos Das estrellas desmaiadas, Impremi ardentes beijos Nas tuas faces rosadas! Foi breve aquelle delirio; Ao menos breve o julguei; E quando, outra vez á vida De sobressalto voltei, Desbotada como um lyrio Pelos vendavaes batido, Nos meus braços te encontrei!

Setembro de 1851

Genres und Tags

Altersbeschränkung:
0+
Veröffentlichungsdatum auf Litres:
16 Januar 2025
Umfang:
80 S. 1 Illustration
ISBN:
4064066408114
Verleger:
Rechteinhaber:
Bookwire
Download-Format:

Ähnliche Bücher