Buch lesen: "A esposa do Siciliano"

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Editado por Harlequin Ibérica.

Uma divisão de HarperCollins Ibérica, S.A.

Núñez de Balboa, 56

28001 Madrid

© 2002 Kate Walker

© 2019 Harlequin Ibérica, uma divisão de HarperCollins Ibérica, S.A.

A esposa do siciliano, n.º 691 - setembro 2020

Título original: The Sicilian’s Wife

Publicado originalmente por Harlequin Enterprises, Ltd.

Reservados todos os direitos de acordo com a legislação em vigor, incluindo os de reprodução, total ou parcial. Esta edição foi publicada com a autorização de Harlequin Books S.A.

Esta é uma obra de ficção. Nomes, carateres, lugares e situações são produto da imaginação do autor ou são utilizados ficticiamente, e qualquer semelhança com pessoas, vivas ou mortas, estabelecimentos de negócios (comerciais), feitos ou situações são pura coincidência.

® Harlequin, Sabrina e logótipo Harlequin são marcas registadas propriedades de Harlequin Enterprises Limited.

® e ™ são marcas registadas por Harlequin Enterprises Limited e suas filiais, utilizadas com licença. As marcas em que aparece ® estão registadas na Oficina Española de Patentes y Marcas e noutros países.

Imagem de portada utilizada com a permissão de Harlequin Enterprises Limited. Todos os direitos estão reservados.

I.S.B.N.: 978-84-1348-546-1

Conversão ebook: MT Color & Diseño, S.L.

Sumário

Créditos

Capítulo 1

Capítulo 2

Capítulo 3

Capítulo 4

Capítulo 5

Capítulo 6

Capítulo 7

Capítulo 8

Capítulo 9

Capítulo 10

Capítulo 11

Capítulo 12

Capítulo 13

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Capítulo 1

Pensava dizer-lho essa noite.

As palavras estavam claras na cabeça de Cesare. Tinha tomado uma resolução após muito tempo: seis longos anos. Demasiado tempo. A espera acabara com a sua paciência, levando-o por vezes ao limite. Mas nessa noite a espera chegara ao fim. Nessa noite, Megan seria sua.

O som da campainha da porta sobressaltou-o. Tentou acalmar-se porque não queria parecer um polícia com uma ordem judicial; ele era o futuro amante que esperara mais do que podia aguentar pela mulher desejada.

– Senhor Santorino!

A voz da governanta parecia soar confusa. E tinha motivos para isso. Apesar de o convidarem com frequência por ser um colega e um amigo, normalmente, as suas visitas eram previamente marcadas. Por isso, é que não era normal chegar ali daquela maneira.

– Não estávamos à sua espera. O senhor Ellis não nos disse…

– Não… – interrompeu-a, erguendo a mão. – Ele não sabia. Não lhe disse que vinha a Inglaterra, nem que ia passar por aqui.

– Mas…

A senhora Moore recuou um passo, pensando que devia convidá-lo a entrar, mas hesitou.

– Lamento, mas o senhor Ellis não está em casa, foi visitar uns familiares à Escócia. Só cá está a menina Megan.

– Ah! A Megan está cá!

Adorou o tom com o qual falara: de forma desinteressada e com um pouco de surpresa. Assim, ninguém pensaria que a sua visita tinha sido calculada. Que tinha viajado até Inglaterra sabendo que Tom estaria de viagem e que a sua única filha estaria sozinha em casa.

– Então, quer dizer, que já regressou da universidade?

– Sim. Já terminou o curso. Regressou no fim-de-semana… surpreendentemente sozinha.

– Surpreendentemente?

Não. Aquela pergunta era demasiado incisiva, mostrava demasiado interesse.

– Sim, pensei que traria o namorado.

Então, a governanta apercebeu-se de que deixar o amigo do seu patrão na rua não era o mais apropriado.

– Quer entrar, senhor? – convidou, dando um passo para trás. – Tenho a certeza de que a menina Megan vai adorar cumprimentá-lo.

Cesare duvidou que a jovem adorasse vê-lo. A forma como se tinham separado da última vez, numa festa do seu pai em Nova Iorque, dava-lhe poucas esperanças. Mas quando decidiu fazer-lhe aquela visita, tinha a certeza de que superaria qualquer resistência inicial; contudo, a menção de um namorado era uma complicação inesperada, algo que devia ter previsto.

– Vou-lhe dizer que está aqui.

– Não!

«Idiota!», repreendeu-se a si mesmo ao perceber que quase se desmascarara. Aquele «não» tinha sido demasiado rápido, com um sotaque italiano demasiado forte.

Com rapidez, desenhou um sorriso no rosto e fixou o olhar no rosto da empregada. Era um gesto calculado com o qual já conseguira derreter os corações mais duros. E nesse momento, obteve o efeito desejado.

– Não me anuncie. Gostaria de lhe fazer uma surpresa.

– Claro. Ela está na biblioteca.

A senhora Moore assinalou-lhe com uma mão o fundo do vestíbulo.

– Decerto que vai ficar feliz por vê-lo. Na minha opinião, acho que está um pouco deprimida… demasiado pálida e magra para o meu gosto.

Ele fez um esforço por conter a sua impaciência. Seria possível que aquela mulher nunca mais desaparecesse dali?

Por fim, a governanta dirigiu-se até à cozinha. Mas precisamente quando ele ia começar a andar, ela virou-se.

– Deseja tomar um café ou um sumo?

– Não, obrigado. Chamo-a se necessitarmos de alguma coisa.

Utilizou o tom que aplicava aos empregados mais difíceis. Um tom duro que exigia obediência instantânea… e cujos resultados eram sempre positivos. Dessa vez também funcionou. A empregada assentiu e, depois, afastou-se a passo ligeiro, com os saltos dos sapatos a ressoar pelo corredor.

«Até que enfim!», pensou.

Cesare deixou escapar um suspiro de alívio e passou as mãos pelo cabelo negro, cor-de-azeitona. Parecia que a empregada tinha descoberto as suas intenções, a razão pela qual se encontrava ali nessa noite, erguendo-se como a guardiã moral da filha da casa, a defensora da honra de Megan, perante a pressão de um homem com muita experiência.

A sua linda boca adoptou uma curvatura cínica ao fechar a porta com bastante sigilo. Não queria que Megan desse pela sua presença. Queria apanhá-la desprevenida. E não era a sua honra que queria roubar. Era o seu coração.

Megan ouviu a campainha, mas decidiu ignorá-la. Se fosse algo importante, a senhora Moore chamá-la-ia. Senão, ela encarregar-se-ia do que quer que fosse. Desde que fora para a universidade que a governanta sabia muito mais sobre as coisas do seu pai do que ela mesma. Além disso, não estava com humor para receber ninguém.

«O que é que eu vou fazer?», interrogou-se.

Com um suspiro, afastou o cabelo acobreado e apoiou os cotovelos sobre a mesa, escondendo o rosto entre as mãos. Tinha um livro aberto à sua frente. Pretendia lê-lo, mas tratava-se de uma mera desculpa, pois os seus olhos, verdes como a relva, estavam inundados de lágrimas.

«O que é que eu vou fazer?», voltou a pensar.

Era uma pergunta que repetia constantemente para si mesma sem encontrar resposta.

– Megan?

A figura que viu junto à porta, alta, escura e devastadora, deixou-a petrificada, incapaz de acreditar naquilo que estava a ver.

– Cesare?

O seu coração deu um salto tremendo. Cesare Santorino era a última pessoa que esperava ver nessa noite. Era a última pessoa que desejava ver.

Mas isso não impediu que as suas estúpidas emoções começassem a funcionar a toda a velocidade.

Houvera um tempo em que adorara ver cada centímetro daquele homem moreno, alto e magro. Sonhara perder-se nos seus braços e afogar-se naquele profundo olhar de bronze. A imagem das suas feições cravara-se-lhe na memória de tal forma que, durante muitas noites, a última coisa em que pensara antes de adormecer era naqueles pómulos pronunciados, naquela mandíbula angulosa e na devastadora curva da sua boca sensual.

– O que é que estás aqui a fazer?

Para seu desgosto, a sua voz ia e vinha como se fosse uma rádio mal sintonizada. Era assim que ela se sentia.

Mas não era por ele.

Os seus sentimentos por Cesare já estavam superados desde há muitos meses, desde aquela desastrosa festa em Nova Iorque onde ele a humilhara. Antes disso, teria beijado o chão que Cesare pisava; mas naquela noite, ele arrancou-lhe a sua devoção e orgulho, espezinhando-os com os lindos sapatos feitos à medida.

– Se vieste falar com o meu pai, lamento informar-te que ele…

– Eu sei – interrompeu-a com o sobrolho ligeiramente franzido. – Vim ver-te a ti.

– A mim?

Aquele gesto e o tom da sua voz colocaram-lhe os nervos à flor da pele. De repente, apercebeu-se das marcas que as lágrimas tinham deixado no seu rosto, pelo que as limpou rapidamente.

– O que é que queres de mim?

Levantou-se e afastou-se da luz directa da janela até uma zona mais escura do quarto.

– Nunca pensei que quisesses voltar a falar comigo.

– Porque não? – perguntou ele, com um tom de humor que a fez ferver de fúria.

– Deixaste bem claro que não querias perder tempo comigo.

O seu sorriso lento e sexy provocava-lhe terríveis sensações, afectando-lhe a postura.

– Oh, Megan, cara, não estavas em condições de passar o tempo com ninguém.

– Mas eu apenas bebi uma ou duas taças de champanhe!

Aquilo que não podia admitir era que não tinha sido a bebida espumosa que a embriagara, mas o impacto da presença de Cesare, elegante e distinta.

– Ou três ou quatro… – continuou ele. – E o problema era que estavas diabolicamente atraente naquele estado. Imaginas a doçura e a sedução que transmitias com aquele vestido?

– Doçura e…? – repetiu Megan, totalmente desconcertada.

Ele teria realmente dito aquilo que ela ouvira? Teria realmente utilizado as palavras «doçura» e «sedução» para descrever o seu estado? Apesar da tristeza, aquelas palavras despertaram algo nela. Algo que julgava morto há muito tempo. Algo que ainda perdurava no seu coração.

– Estás a gozar comigo!

– Em absoluto.

Cesare abanou a cabeça, movendo-se por fim, atravessando o quarto como um felino.

– Fiz aquilo que julguei ser melhor para manter as mãos afastadas de ti.

A única coisa que saiu da boca de Megan foi uma espécie de desabafo pouco feminino que indicava achar aquele comentário cínico.

– Oh, claro! Foi tão difícil conter-te que me afastaste como se eu tivesse a peste! Depois… ignoraste-me durante o resto da noite.

Megan pestanejou, confusa, enquanto Cesare negava com a cabeça.

– Não – adiantou com firmeza. – Era impossível ignorar-te, por muito que tentasse. Nunca consegui ignorar-te. Desde a primeira vez que apareceste na minha vida, quando eras uma linda menina de treze anos, que não consigo afastar os olhos de ti.

Se ela estivesse numa sala, os seus olhos dirigiam-se apenas para uma direcção. Era como uma faísca, tão brilhante que, por vezes, o cegava. E o pior de tudo era que nunca o admitira.

Até àquele momento.

E agora, Megan era muito mais adorável. A beleza que já se previa aquando adolescente, tornara-se realidade na mulher que tinha diante de si. Possuía o cabelo acobreado e os olhos verdes mais lindos que jamais vira em toda a sua vida. Era alta e esbelta, com umas curvas perfeitas que declaravam a sua feminilidade. Tinha a pele suave como a de um pêssego e Cesare até sentia dores nos dedos de tanta necessidade que tinha em tocá-la.

Mas fizera uma promessa ao pai dela e jurara-lhe que esperaria até Megan completar os vinte e dois anos.

– Estás a gozar!

– Não gozo com este tipo de coisas.

– Cesare…

Megan abanou a cabeça, desconcertada. Aquilo não podia estar a acontecer. Nada daquilo que ele dissera podia ser verdade. E o pior de tudo, a maior ironia de todas: aquelas palavras eram aquilo com que sempre sonhara, mesmo sabendo que se tratava de um sonho impossível.

Estivera loucamente apaixonada por aquele homem desde a sua adolescência. Mas era oito anos mais velho do que ela; um homem de negócios sofisticado e cosmopolita. Dono de uma multinacional enorme na qual a empresa do seu pai era um minúsculo componente.

– Pára de gozar comigo.

– O que é que te leva a pensar que estou a gozar contigo?

Ao olhar para o seu rosto moreno e indecifrável, quase podia acreditar que estava a dizer a verdade. Não existia nem um brilho de humor naqueles olhos abrasadores, nem rasto de um sorriso na sua boca sensual.

– Mas tens…

– Não, cara. Estou a dizer-te a verdade.

– Não pode ser.

Toda a força desapareceu das suas pernas e deixou-se cair na cadeira mais próxima.

– Não acredito.

– Acredita.

Oh, aquilo era o pior que lhe podia acontecer!

Cesare inclinou-se sobre ela com as mãos apoiadas nos braços da cadeira, aprisionando-a. Entreolharam-se, mas Megan sentiu que os olhos dele a queimavam como lava de um vulcão. Estava tão perto que o seu aroma a intoxicava. O coração batia a toda a velocidade e sentia dificuldade em respirar.

– Não me faças isto, Cesare. O que é que se passa? É um novo jogo divertido? Diverte-te atormentar-me, mentir-me? Porque…

– Que tal se te dissesse que agora não te estou a mentir, mas que já te menti?

– Já?

Parecia que, com cada palavra que dizia, a situação se tornava mais e mais estranha. Era como se o Cesare Santorino que ela conhecia tivesse desaparecido, sendo substituído por uma pessoa totalmente diferente.

– Quando?

Sentiu a boca seca e dificuldade em falar.

– Quando te disse que não me interessavas. Quando agi como se me aborrecesses. Quando…

– Não…! Chega…! Não, não, não!

Megan tapou os ouvidos com as mãos e depois cobriu o rosto.

– Chega! – murmurou atrás das mãos. – Isto não é justo…

No ano anterior, quando cumpriu vinte e um anos, teria adorado ouvir aquelas palavras. Durante as festas e até durante aquela festa horrível de Nova Iorque, o seu coração teria saltado de júbilo. Mas agora… era demasiado tarde.

Naquela altura, não podia sonhar com nada melhor. Mas agora, era o pior que lhe podia acontecer. Porque se aquilo que Cesare dizia era verdade, deixaria de sê-lo assim que ele descobrisse que…

– Chega! – repetiu com mais energia.

– Mi dispiace… Lamento.

Agira demasiado rápido, pensou Cesare. Mas depois de a ver, após seis meses, perdera todo o controle. Andava há seis longos anos a controlar-se e já não aguentava mais.

– Perdoa-me, Megan…

O seu tom continha tanta emoção que ela afastou as mãos do rosto para o contemplar.

– Tens razão – disse, enquanto se erguia. – Nunca devia ter brincado com isto.

Era o que ela tinha pensado! Viu-o ir até à outra extremidade do quarto. Megan sabia que nenhuma daquelas declarações podia ser verdade.

Ainda assim, sentia-se muito magoada. Muitíssimo. Sobretudo, depois do que acontecera com Gary; a maneira como este se comportara e as consequências dos seus actos.

– Não importa – conseguiu ela dizer. – Agora que já te divertiste, por favor, deixa-me sozinha.

– Divertir-me? Achas que me estou a divertir? Que ando a brincar contigo?

Ela ergueu o queixo.

– Que mais é que podias estar a fazer?

– La venta! – disparou Cesare. – Estou a dizer-te a verdade!

Aquilo era demasiado! Estava a levar a brincadeira demasiado longe e Megan não se encontrava em condições de suportar aquela nova forma de tortura.

– Não me faças isto! – gritou com dor.

– O que é que se passa? – perguntou ele, emocionado. Megan apenas conseguia negar com a cabeça; estava muda e sentia-se abatida. Então, Cesare aproximou-se dela e, com uma mão, ergueu-lhe a cara para que o olhasse nos olhos. Estava a chorar. As lágrimas corriam abertamente e iam cair por sobre o queixo.

– Carina, porque é que estás a chorar? Meggie… – sem pensar, da sua boca escapou o diminutivo que ela usara aquando a sua infância. – Diz-me o que se passa.

Foi o diminutivo que lhe arrasou com as forças que ainda lhe restavam. Senão a tivesse chamado de «Meggie»… daquela maneira. Senão tivesse utilizado aquele nome tão familiar que só as pessoas mais queridas utilizavam, talvez, então, conseguisse resistir.

Mas proferira-o com um tom e uma expressão tão doce que a transportara até outra época. Um tempo no qual era sempre Verão, o sol brilhava no céu e parecia que nada podia correr mal.

Um tempo no qual ela sonhava com um futuro feliz… com o dia em que aquele homem a amasse.

Foi então que soube. Soube que lhe ia contar toda a história.

Capítulo 2

– Meggie, conta-me tudo – dessa vez, não pronunciou o seu nome com tanta doçura; a sua indecisão estava a fazê-lo perder a paciência. – Qual é o problema? Preciso de saber.

Megan continuou muda, incapaz de dizer uma palavra. A expressão severa do seu rosto recordou-lhe o Cesare que ela conhecia, o homem que temera na adolescência. Naquela época, era muito fácil para ele deixá-la muda, temerosa, com a cara vermelha, incapaz de responder a qualquer pergunta.

E, naquele momento, Cesare estava a ter o mesmo efeito sobre ela.

– Megan…

Dessa vez, o seu tom era como uma advertência que piorou a situação. Megan apenas conseguia abanar a cabeça, incapaz de encontrar as palavras para lhe responder.

– É o teu pai? Estás preocupada com os problemas que ele tem na empresa?

– Ele contou-te? – inquiriu, surpreendida.

– Claro que me contou. Acima de tudo, sou amigo dele.

– E pediu-te que o ajudasses…? Vais ajudá-lo?

Estava a começar a recuperar um pouco de força nas pernas e parecia que o seu cérebro voltara a funcionar. Se Cesare estava disposto a ajudar o seu pai, ajudá-lo a sair da quase inevitável falência, então, uma das suas preocupações deixava de existir.

– Vais ajudá-lo?

Mas foi o rosto masculino que lhe deu a resposta. Distanciou-se dela mentalmente, antes de o fazer fisicamente.

– Não – respondeu com suavidade.

– Não? – repetiu ela, incapaz de acreditar no que estava a ouvir. – Negaste-lhe ajuda? Não posso acreditar…

– Acredita – interrompeu-a bruscamente, infeliz com o rumo que a conversa estava a levar. – O teu pai falou-me dos seus problemas. Infelizmente…

– É uma desgraça, mas parece que não tens nada a ver com isso – adiantou ela com tal cinismo que o fez pestanejar. – Tens dinheiro para o ajudar. O valor que ele precisa não é nada comparado com a tua fortuna.

Megan levantou-se e dirigiu-se até ele, desesperada. A fúria que sentia dentro de si provocava-lhe um diferente brilho nos olhos verdes.

– Claro que tenho dinheiro para o ajudar.

– Que grande amigo que tu és!

Cesare suspirou, impaciente.

– Meggie… – disse com toda a calma. – Não teria sido de grande ajuda. O teu pai sabe disso.

– Mas eu não! Vais ter que me explicar. E pára de me tratar por Meggie. Podias fazê-lo quando eu era miúda, mas já não sou nenhuma criança. Sou uma mulher com vinte e dois anos de idade e com uma carreira. Cresci muito ultimamente.

– Não tenho a menor dúvida.

Cesare olhou-a dos pés à cabeça com os seus olhos escuros. Desde as calças de ganga justas à t-shirt, detendo-se provocantemente na curva dos seus seios. Sem querer, Megan pensou nas mudanças que sentira no seu corpo durante as últimas semanas.

– Chamo-me Megan e agradecia que te lembrasses disso.

– Claro – respondeu ele com um sorriso.

– Estás a gozar comigo?!

– Não me atreveria – retorquiu, sério.

A mudança de humor na sua voz e o brilho nos seus olhos, atingiram-lhe o coração.

Aquele homem era demasiado atraente! Estava furiosa porque, naquele instante, não queria encontrar nada atraente nele.

Especialmente naquele momento.

Mas quando Cesare sorria daquela maneira…

Megan apressou-se a recompor-se, repreendendo-se a si mesma. Aqueles eram pensamentos muito perigosos e debilitavam-na quando o que mais necessitava era ser forte.

– Talvez o meu pai entenda, mas eu não. Podes explicar-me?

«Não», respondeu Cesare para si mesmo. Não lhe podia explicar porque o prometera a Tom Ellis. Aquele homem conseguia ser estupidamente orgulhoso. Não aceitava a ajuda de um amigo para salvar a empresa, mas se fosse o seu futuro genro…

– Se a Meggie se casar contigo – dissera, – então, aceito o teu dinheiro. Nesse caso, seria um assunto de família. De outra forma, não pode ser.

Tom pedira-lhe que não comentasse sobre aquele assunto com a filha, mas a sua lealdade para com o amigo viu-se perturbada devido aos sentimentos que nutria pela mulher que tinha à sua frente.

Saberia ela o dano que lhe provocava ao olhá-lo daquela maneira?

Mas o pior de tudo era a maneira instintiva, quase básica, com a qual o seu corpo reagia na presença de Megan. Tinha cada sentido em alerta e o pulso batia com toda a força. Desde que entrara no quarto que tivera que lutar contra o impulso de a agarrar e beijar, devorando-a com a boca.

Mas agir devido àquele impulso teria sido a coisa mais estúpida que podia fazer. Provavelmente, Megan teria saído do quarto a correr.

– Cesare… – disse ela num tom severo. – Explica-te!

– O teu pai está numa situação um pouco complicada – adiantou cuidadosamente. – O estado do mercado acaba de destruir o valor dos investimentos que ele fez e a empresa está a ter problemas.

– Então, porque é que não o ajudas?

– Porque não estou no mundo dos negócios para comprar empresas arruinadas!

Ao ver o rosto dela, arrependeu-se imediatamente da desculpa que escolheu.

– Não é um bom negócio, Megan.

Apesar de o fazer pelo seu amigo se este o deixasse.

– Ah! E os negócios vêm sempre em primeiro lugar, não é? – perguntou ela com amargura.

– Não teria chegado aonde estou senão fosse assim.

– Não… claro. Mas agora que estás onde estás, parece que perdeste todo o sentido da amizade. Costumavas ser uma pessoa melhor, Cesare.

– Não ia servir de nada, Megan.

Cesare já não aguentava mais aquela situação.

– O teu pai caiu muito e ele sabe disso. Não pode dar-se ao luxo de contrair outro empréstimo, já deve demasiado.

– Está… está assim tão mal? Estás a dizer-me que o meu pai está arruinado?

Não precisava de lhe confirmar, pois podia ver-se-lhe na cara.

– Oh, não!

Sentiu as pernas a tremer, estas ameaçavam não aguentar o seu peso: com um movimento ágil, Cesare tomou-a nos braços e apertou-a contra o seu corpo.

– Está tudo bem, carina – disse ele com a voz rouca e sedosa. – Estás a salvo, não vais cair.

«A salvo», repetiu Megan para si, um pouco zonza. Sim, por fim, sentia-se a salvo. Pela primeira vez naquelas desgraçadas seis semanas, não se sentia sozinha e perdida. Era como se a força de Cesare lhe chegasse através dos seus braços.

O calor daquele corpo e o aroma a limpo, a mescla de ambos, envolveram-na, fazendo-a desejar inspirar com mais força. Então, sentiu a necessidade imperiosa de se apoiar nele; a sua cabeça estava demasiado pesada para a suportar. Por fim, cedeu ao impulso e reclinou-se sobre o seu ombro, sobre o osso duro e o músculo firme.

– Oh, Cesare… – suspirou, abandonando-se àquele momento de debilidade.

– Megan…

A sua voz soou inesperadamente áspera.

O coração dela palpitou ao som da sua respiração.

Megan voltou a suspirar, acomodando-se melhor, virando a cabeça de forma a que a boca ficou perto da pele suave e bronzeada dele.

– Megan…

Dessa vez, havia uma nota de advertência, mas ela estava demasiado cómoda, demasiado descontraída para pensar nisso. Pela primeira vez desde que regressara a Londres, sentia-se realmente bem. Como se agora estivesse onde queria realmente estar. No lugar que lhe era predestinado.

Sentiu o coração de Cesare acelerar-se e o seu próprio pulso também, assim como a respiração, até se transformar num som rouco.

– Cesare…

Tentou falar, mas o calor que sentia dentro de si provocara-lhe uma secura na garganta. Tinha os lábios secos e humedeceu-os com a língua. Cesare não ficou imune a esse movimento.

As pálpebras pesavam-lhe tanto que nem conseguia abrir os olhos. Quando o conseguiu, a força escura do olhar dele aprisionou-a. Não queria mover-se.

Esperou, com paciência aparente, mas a ferver por dentro. Esperou, sabendo que aquele era o momento pelo qual ansiara durante toda a vida, com o qual sempre sonhara.

– Megan… – voltou ele a dizer; a sua voz era espessa e áspera que nem parecia pertencer ao homem controlado e sofisticado que ela conhecia. – Acho que vou ter de te beijar.

– Eu sei…

– Lamento se… Sabes?

– Sim.

Megan assentiu, consciente do suave roçar da sua camisa e do calor da sua pele através do tecido.

– Eu sei e sabes uma coisa? – a sua boca curvou-se com um sorriso cheio de picardia. – Vou ter que te deixar…

As palavras eram suaves e, rapidamente, ele as afogou com os lábios. Acariciou-lhe as costas e depois a cabeça. Foi o beijo mais apaixonado e selvagem que lhe tinham dado durante toda a sua vida. Ficou sem alento, a sua cabeça rodopiava e o coração de tanto bater mais parecia querer sair do peito.

Megan rodeou-o com os braços e entrelaçou os dedos no cabelo cor-de-azeitona. Quando Cesare tentou separar-se, ela impediu-o. Sentiu o corpo a arder, com um calor primitivo e pagão, e não apenas devido ao efeito da sua firmeza dura e quente contra ela. Estava a arder de prazer, de apetite sensual, de necessidade. Moveu as mãos pelas costas dele abaixo, sentindo que era incapaz de o tocar o suficiente de uma só vez.

– Madre di Dio! – murmurou ele, contra os seus lábios, conseguindo separar-se para respirar. – Oh, Megan, Megan…!

– Adoro ouvir o meu nome com sotaque italiano – respondeu ela sem alento, a tremer. – Soa a algo exótico e especial, mais sensual que Megan Ellis, tão simples e vulgar…

– Não! Nunca utilizes essas palavras junto ao teu nome. Tu não és nada simples e, muito menos, vulgar.

Megan olhou-o surpreendida. Esperava encontrar um brilho de humor nos seus olhos, mas não encontrou. Em vez disso, reparou numa luz bastante diferente. O tipo de luz que a fazia pensar em fogueiras e no calor do Verão. O seu coração sentiu um rasgo de felicidade.

– És linda, preciosa. És uma mulher maravilhosa e sensacional.

Megan nem queria acreditar no que estava a ouvir.

– Deves estar a brincar – disse ela, mas Cesare negou com a cabeça.

– Não é brincadeira nenhuma – insistiu num tom que deixava claro que estava a falar a sério.

Ergueu uma mão até ao cabelo dela e entrelaçou-lhe os dedos por entre os caracóis avermelhados.

– Tens um cabelo que brilha como a lava de um vulcão na noite…

Para surpresa dela, levou uma madeixa aos lábios e beijou-a com suavidade.

– Tens uns olhos verdes que mais parecem esmeraldas…

Voltou a repetir a carícia, mas dessa vez nos olhos, pressionando suavemente sobre as suas pestanas.

– Uma pele de pêssego, tão suave e delicada que até tenho medo de a magoar…

Com as mãos, acariciou-lhe as faces e, depois, seguiu até ao pescoço.

Tamanha suavidade fê-la tremer por completo.

Mas quando os lábios seguiram as mãos, Megan ficou totalmente paralisada com o prazer sensual que a fez fechar os olhos com força, para melhor desfrutar das fantásticas sensações provocadas.

A boca de Cesare moveu-se sobre a sua pele, beijando-a, acariciando-a até voltar a alcançar-lhe a boca.

– E uma boca… – murmurou contra os seus lábios. – Feita para beijar.

Dessa vez, o beijo foi realmente apaixonado. O tipo de beijo que parecia roubar-lhe a alma e que fazia com que o sangue lhe fervesse nas veias.

Megan sentiu derreter-se, enquanto ele pressionava o seu corpo contra o dela, obrigando-a a sentir a força do desejo. Não era brincadeira nenhuma. Aquilo era uma realidade dura e sólida. A resposta de um homem para com a mulher desejada… impossível de esconder.

E a mesma resposta surgia do seu próprio corpo, derretendo-lhe o coração, retorcendo-lhe os nervos.

Cada fibra latia com o desejo crescente, enviando-lhe sensações pujantes à sua parte mais íntima e feminina.

Suspirou na boca dele, enquanto se movia inquieta contra o corpo dele, sentindo a força da sua erecção.

– Acho que ficaríamos mais cómodos se…

O resto das palavras de Cesare perderam-se noutro beijo. Mas Megan não necessitava de palavras. Tê-lo-ia seguido para qualquer parte e foi o que fez, passo a passo, até ao sofá que havia em frente à lareira.

Ele sentou-se e arrastou-a até ao seu lado. Ela aproximou-se o mais possível e aprisionou-lhe a boca para brincar intimamente com a língua dele.

– Meggie…

Dessa vez, ela não objectou o uso do seu nome de infância. Soou suave e terno e, ao mesmo tempo, sensual. Mas o que mais a excitou foi o tom de rendição total, a declaração de que se tinha abandonado por completo a ela.

Sentiu-se poderosa e atreveu-se a desapertar-lhe o nó da gravata. Assim que a sua pele bronzeada ficou exposta, a jovem atirou-se sobre o pescoço dele para o saborear.

– Meggie!

Era um grunhido de resignação. Um som que significava abandono total. Com um movimento rápido, Cesare deitou-a sobre o sofá e colocou-se sobre ela.

As mãos dele começaram a mover-se de forma impaciente sobre o corpo de Megan. Num instante, puxou-lhe a t-shirt de dentro das calças e ergueu-a para lhe beijar a pele nua.

Megan conteve o alento, derretendo-se de puro prazer, enquanto os seus mamilos se endureciam, pressionando o tecido do soutien.

– Bellissima, squisita…

Cesare começou a falar no seu próprio idioma. As palavras provinham das profundezas da sua garganta e o seu sotaque era cada vez mais musical.

– Megan, sempre foste um encanto, mas agora que és uma verdadeira mulher…

Não soube como continuar, mas não era necessário porque a paixão que sentia reflectia-se nos olhos. Durante uns segundos, os seus olhares ficaram presos um ao outro. Megan sentiu que ele lhe estava a fazer uma pergunta e ela respondeu-lhe, também sem palavras.

Pensava que conseguia adivinhar aquilo que Cesare tinha em mente. Ainda pensava nela como numa menina, a adolescente que não o deixava em paz. E esses pensamentos deviam provocar-lhe certa hesitação, interrogar-se sobre se estaria pronta para continuar, se Megan era mulher suficiente para ele.

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