Buch lesen: "Da Loucura e das Manias em Portugal"
Júlio César Machado
Da Loucura e das Manias em Portugal

Publicado pela Editora Good Press, 2022
EAN 4064066411374
Índice de conteúdo
RILHAFOLES
I
Os doidos
II
As doidas
III
Os idiotas
IV
Os furiosos
V
Telha
VI
Enguiços
VII
Agouros
VIII
Feitiços
IX
Encantos
X
Sonhos
XI
Sinas
XII
Coisa má
XIII
As mulheres de virtude
RILHAFOLES
Índice de conteúdo
I
Os doidos
Índice de conteúdo
Tudo é alegre, á entrada: flores e arvores. D'ali a nada,—da porta para dentro parece já que passou o outomno por cima da primavera d'aquelle jardim!... Apagam-se as côres, escurece o céo, ouve-se estalar a casca das arvores... Principiam as physionomias a transtornar-se; já os olhos não são outra cousa{6} senão buracos luzidios; cavam-se as faces, parecem caretas os sorrisos, não teem os gestos significação, as feições são vagas, a fórma tem contornos indecisos; tudo são personalidades phantasticas, existencias ficticias; linguagem que não se entende; gente estranha, que dá idéa dos habitantes da lua!...
Alguns dançam, e cantam; e passa a tristeza n'aquella alegria, e transpõem-se effeitos de claro escuro na musica e na voz delles, envolvendo-lhes a idéa como n'um crepusculo!... Parece que se estão avistando ali as visões de Swedenborg, aquelles espiritos do ar que conversavam uns com os outros e que se entendiam pelo piscar dos{7} olhos... Como essas taes conversas no fundo das nuvens, assim é desusado e insolito quanto por lá se ouve!
Ás vezes chega a parecer-nos que é natural tudo aquillo; que o ser como nós somos e portar-se como nos portamos—é ser affectado, é ser pedante; que assim como na natureza tanto ha sensitivas como ha cevada e centeio, assim deve haver nas creaturas sentimentos complexos que a linguagem vulgar não poderia dar; que são elles quem tem juizo; melhor do que juizo, talento: a finura, o guindado, a quinta essencia do espirito; que em nós ha simplesmente mudança de convenções; que elles estão mais perto do{8} estado natural; que tudo vae da maneira de ver as cousas e de as julgar; da opinião dos homens e do genio e moda dos tempos; que tambem o amor já foi outro quando inspirava as filhas dos patriarchas a dar de beber aos pastores; e depois, na Illiada, quando levava Helena ao leito nupcial de Páris; na Grecia, creança a quem ensinavam gracinhas anacreonticas; ébrio, nas orgias de Roma; na idade media, fada, estrella, anjo; mais tarde tendo azas como os desejos; e sendo hoje um casamento commercial, um dote de noiva, cem contos de réis em inscripções!...
Assim chega a pensar-se ali, que a vida, que é um entrudo, tambem{9} varíe de mascaras, de modas, de elegancia e de fallas; e que o estylo dos pobresinhos doidos, comquanto diverso do dos tempos em que vamos de tanto tino e conceito, seja talvez mais subtil, mais colorido, e mais exacto!...
Ha ali, hoje, quinhentos e onze d'esses infelizes; duzentas e cincoenta e sete mulheres, duzentos e cincoenta e quatro homens; tres creanças idiotas. Quando o marechal Saldanha fundou este hospital em 1850 o numero dos alienados era de trezentos; ultimamente tem crescido por fórma que foi preciso augmental-o, acrescentar um pavimento, e annexar o edificio de recolhidas na travessa de S. Bernardino, onde vão{10} pernoitar cem dos tranquillos e invalidos. Ha pensionistas e indigentes. Os pensionistas dividem-se em quatro classes: e pagam, conforme as commodidades e o numero de enfermeiros que requerem, 800 réis, 480 réis, ou 240 réis por dia, tendo os seus quartos em repartição separada; os da 1.ª, 2.ª e 3.ª no mesmo pavimento; os da 4.ª em sala commum.
Os doentes entram ali por ordem da auctoridade publica, ou a requerimento de particular,—com attestado do medico, auto de investigação, e, se são pobres, certidão do parocho,—e ficam quinze dias em observação; findos elles, ou a doença não se verifica e são immediatamente{11} despedidos, ou, verificada a alienação, colloca-se o doente na repartição que o director lhe destina, e segue o tratamento.
O tratamento! Isto é,—o estudo, a observação constante, as experiencias, mil tentativas, o diligenciar permanente de chamar á razão e ao sentimento das cousas aquellas pobres cabeças cançadas de sonhos, de lutas, de prazer ás vezes, de amarguras, de esperanças, de enganos!... Vêl-os como medico, como philosopho, e como moralista,—unica maneira de poder assenhorear-se-lhe dos segredos. São doidos; mas de onde provém cada uma d'aquellas loucuras,—a de um, que nunca perde a pista do caracter{12} que tem, e em tudo que diz e no que faz vae de accordo sempre com a sua mania; a do outro que não póde juntar idéas; a d'aquelle, que conserva a lembrança do que fez durante os accessos, e pede depois desculpa brandamente, humildemente; a d'este, que perdeu de todo a memoria; a d'aquell'outro, que a conserva de tudo, excepto de logares, ou de datas!?
Ah! É preciso vêl-os, por aquelles corredores interminaveis e singularmente alegres, em que a luz entra por todos os lados, e a cada passo por alguma janella se avistam campos e se descobre a cidade; é preciso vêl-os nos vae-vens de uma carreira e de uma fallacia,{13} que não cança nunca, para um lado, para o outro, d'aqui, d'além, accionando, gritando, fallando—este a si mesmo, aquelle a ninguem, um á parede, outro ao céo!... Reis, sabios, escriptores, millionarios, todas as ambições, todos os orgulhos, todas as preoccupações, todas as vaidades. Lá vi um poeta; mostrou-me os seus ultimos versos, que se intitulam:
«Elogio
á ex.ma sr.a D. L. de S. F. no dia natalicio de seu nascimento dividido em tres partes. Passado, presente e futuro.»
Um jornalista deu-me o programma do seu jornal novo:{14}
«Grande globo do Grande enredo
Jornal das mentiras purificadas
e saidas do funil
estampadas calligraphicamente em
papel, respeitando
as dignissimas auctoridades.»
Alguns têem grande habilidade, habilidade util e séria, são pintores, trabalham nas officinas, e fazem os differentes serviços do hospital, dos banhos, e da quinta. Á entrada, entre o gabinete do director e a secretaria, está logo a primeira aptidão aproveitada,—o continuo, que é um doido! Leva papeis, traz papeis,{15} dá recados; está ali a toda a hora, desempenha perfeitamente, e não ganha nada.—Que lição... a continuos!...
Por isso, quando se chega ali e a gente o vê, aquelle curioso porteiro, homem forte e sizudo, com o seu fatinho de briche,—todo grave, cortez, benevolo—não deixa de vir á idéa que, se lhe der na vineta, elle póde abrir a porta para se entrar... e não a querer abrir depois para se sair; e vae uma pessoa lembrando-se mesmo sem querer do caso do carvoeiro... O carvoeiro tinha lá ido para tratar de negocio, e foi entrando por ali dentro até o apanhar um guarda que o tomou por hospede novo, a{16} quem se devia dar um banho, como é costume quando para ali entram.
—Vamos ao banho, vamos! dizia o guarda.
—Qual banho?! retorquia o carvoeiro pasmado.
—É muito bom. Para se ficar limpinho. Vá, vá!
—Num quero, dizia o carvoeiro. Leba de xalaxas! Nunca tomei banhos na minha bida! Arreda para lá!
—É uma ceremonia, replicava o guarda; só uma ceremonia. É optimo para a saude, e de grande aceio.
O carvoeiro, como viu que instavam tanto, consentiu por fim em tomar o seu banhosito n'uma d'aquellas{17} magnificas tinas de marmore, admirado ao mesmo tempo de tantas attenções que tinham com elle n'este estabelecimento do estado.
Vestiu-se depois outra vez, muito fresco, e quiz sair. Mas, sair querem elles todos e não se ouve por lá outra cousa.
—Ámanhã, disse-lhe o guarda.
—Ámanhã!?! redarguiu o homem.
—Sim proseguiu o guarda! habituado áquellas exigencias e provido sempre de paciencia e de fallas dôces para se entender com os enfermos. Ámanhã, quando o sr. director passar a visita, provavelmente dá-lhe alta, e vae vocemecê passear.{18}
—Paxar a bixita! uivou o carvoeiro. Eu n'um estou doido, démo!
E ahi se zangava, e ahi gritava, e quanto mais se agitava mais o tomavam pelo... que não era,—até que chegou o fiscal que esclareceu o caso e o mandou para a rua, mudado tambem—como aquelles seus compatriotas do poço, de quem já de uma vez contei a historia,—porque tambem tinha... lavado a cara!
A casa é triste; não poderia deixar de sêl-o, porque a imaginação vê sempre em Rilhafolles o lasciate ogni speranza, um beco sem saida, o mais fatal dos carceres, e cuida sempre ouvir os gritos dos furiosos e o chicote dos enfermeiros... Entretanto{19} ella é o menos triste que uma casa d'essas póde ser, pelas condições especiaes em que está collocada, o ar e a luz, e tambem pela dedicação notavel do director o sr. Guilherme Abranches, e pela escrupulosa diligencia dos empregados. É preciso ver com que methodo, com que bondade affavel, com que resignado carinho são ali tratados aquelles infelizes; conhecem-o quasi todos elles, dizem-o, disseram-m'o a mim uns poucos.
E todavia que balburdia, que capharnaum! Em todo o comprimento de um corredor gira impaciente um ambicioso que quer ser deputado, que se propõe em todas as legislaturas, e anda constantemente{20} a ensaiar discursos.—Um, que nos diz que é coronel, e d'ali a nada que é marechal, e um instante depois que é elle o proprio marechal Saldanha, conta-nos os seus feitos d'armas da vespera e do dia.—Um piloto da barra, que entrou esta semana, mergulha nas lembranças do mar e cae n'uma melancolia profunda.—Um, que foi porteiro do sr. barão de Santos, conta como foi que endoideceu, e é a verdade: indo a Loures enterrar junto de uma arvore duzentos mil réis de economias, e achando-se depois roubado.—Um moço, filho de gente pobre, entretem-se em cobrir cartões do chamado jogo da gloria, e manda ao pae o dinheiro que ganha{21} n'isso. Um mathematico, bom latinista, que tem o curso do seminario de Santarem, enche o quarto de papelada e a papelada de calculos:—«Diga-me, pergunta-lhe o director, o senhor já prégava lá no seminario?»—«Pois está visto, responde elle; como prégo aqui; a mesma coisa.»—Um, alegre e risonho, philosopho sem o cuidar, coração que ainda não saiu da infancia, nascido para ser alvo de qualquer ajuntamento, mostra-nos por uma janella os campos, os cabeços virentes, os seus palacios, e algum particular gracioso e ainda não observado d'aquelles sitios que todos lhe pertencem.—Outro vae-se comsigo só pousar a um canto.—O famoso{22} Bertholo do Cadaval, que uma noite com uma faca na mão poz em susto a villa inteira, conserva-se de collete de forças, pallido e sinistro, com vontade sempre de matar alguem.
E riem-se uns dos outros; e uns dos outros me dizem ao ouvido de passagem, quando me vêem tomar apontamentos:
—Não faça caso, não escreva o que elles dizem; são doidos!...{23}
II
As doidas
Índice de conteúdo
N'um comprido corredor com quartos de um lado e outro encontram-se primeiro as que ainda têem alguem n'este mundo; as que não estão abandonadas de todo pela sorte á hediondez da sua desgraça, e a quem a familia, ou algum parente, paga o quarto em que vivem. Essas são as felizes; ainda têem lá{24} de vez em quando quem as visite, quem lhes leve algum presentinho, quem lhes dê um dinheirito qualquer para apetites—comprar marmelada quasi sempre. São as felizes, essas; são as fidalgas,—as fidalgas de Rilhafolles!...
Passam n'aquelle corredor enorme—que o espectaculo monstruoso d'ellas torna maior ainda, correndo; umas gritando, apostrophando, outras fallando ás enfermeiras, outras encolhendo-se de receio ao vel-as, entrando nos quartos, saindo, entrando, dirigindo a palavra ás visitas ou passando-lhes ao lado orgulhosamente, desdenhosamente.
Esta, olha para nós com serenidade e indifferença, e parece dizer{25} com a vista que tudo é sempre o mesmo n'este mundo e que não ha ver n'elle nada de novo—grito melancholico, que tem atravessado as edades; idéa triste e fria.
Aquella, que viveu de um sonho e encadeiou todos os seus desejos a uma chimera,—coração ardente, alma profunda e vasta para quem o amor foi tudo,—odeia os homens, indigna-se, enfurece-se em os vendo, e mergulha nas sombras escuras da loucura, nos abysmos tenebrosos da sua idéa fixa, como se procurasse de cada vez segredos novos que a tornem senhora das forças ignoradas da natureza e lhe dêem voz e mando no mundo dos espiritos.{26}
Essa, d'ali, conta uma historia. Uma historinha galante. Gostou de alguem. É moça e bonita; o alguem era bonito e moço. Até aqui tudo é risonho, e ella sorri. Depois, veem as nuvens; quizeram affastal-a d'elle, para a levar a outro; o outro era um senhor: o alguem não tinha outra riqueza senão ella gostar d'elle; o outro era poderoso, o alguem era ninguem; casaram-a com o outro. E o resto? O resto não quer ella dizel-o; e é como se o haja deitado ao mar n'uma d'aquellas caixinhas,—tão fechadas que ninguem as podia abrir,—que os pescadores das Mil e uma noites achavam ás vezes e de que sahia fumo escuro pelas fendas!{27}
A d'além, n'aquelle quarto, estirada sobre um colxão: levantando-se, deitando-se, vindo á porta, estorcendo-se, caindo prostrada: reerguendo-se mais sonhadora, mais desejosa da felicidade e da vida, pensando no amor, sempre no amor e nas venturas ineffaveis: rasgando-se, compondo-se, suspirando, anceiando, é uma mulata; tem duzentos contos de réis de fortuna. N'um dos seus quartos ha um piano, onde vi outras tocando, em quanto ella arredada de tudo e de todos estava entregue apenas á sua inquieta phantasia. É uma mulher esbelta, opulenta de fórmas, lembrando as feiticeiras do Oriente; uma d'essas organisações colossaes{28} como as que a terra produzia quando era nova e que absorviam em si umas poucas de existencias!...
As enfermeiras tratam de a tranquillisar, quando observam que com o ver visitas principie a agitar-se; encostam mais a porta do quarto: e continuam caminhando gravemente, com o seu ar impenetravel; impenetravel ao ponto de se estar sempre em duvida ao ver o olhar vago d'ellas se tambem serão...—se as doentes tambem serão enfermeiras?
Vão andando de chave na mão, e apresentam ao director uma ou outra doente que precise ser examinada. Em geral teem ar de boas creaturas essas empregadas, e corrigem{29} um pouco pela sua presença a impressão penosa que se experimenta ao atravessar aquelle triste captiveiro.
As doidas cercam-as, pucham por ellas, pedem-lhes para alcançar do director ordem de saida: que já é tempo, que é de mais, que não podem já...
—Ámanhã! respondem ellas sempre. Ámanhã.
E as pobres doidas ficam-se sorrindo áquella palavra:—Ámanhã!
Uma, aqui, sem fazer caso do delirio que vae em roda d'ella não faz senão costurar; coser, coser, coser; e gritam, e pulam, e dançam, e ralham, e atropelam-a, e ella vae costurando, cosendo, cosendo, tranquillamente,{30} prudentemente, como se fôra o sol no meio da noite, a acção no meio da idéa, a rasão no meio da loucura!
Outra falla sósinha, e ri. De que está a fallar sempre? De que está sempre a rir? Está a rir das coisas, e a fallar de um certo, por causa de quem veiu a observar que a maior parte dos amantes ficariam contrariados com o possuir para sempre e sem partilhas o objecto da sua adoração; e que, se se dirigem mais homenagens ás casadas do que ás solteiras, é porque o marido é um obstaculo que ninguem supprime, e dá, por isso mesmo, a melhor latitude a protestos de dedicação. Está á janella a olhar para os campos{31} e a farejar tormenta em tudo—no voejar dos passaros, na pressa das formigas... Queixa-se de ter conhecido a vida, á sua custa;—a peor maneira de conhecer as coisas. Ás vezes não é segura, e quando se exalta vae dando bofetadas em quem apanha; previnem-me disto.
Ai! a tafula! a tafula! Lá armou o seu chapeu com bocados de chita e papel de todas as côres; duas rolhas, uma penna de rama, e o badalo da campainha. É a catita! É a janota! Pobre e desgraçada elegante, que tem a mania das modas, préga uma saia ao meio da outra para figurar vestido de cauda grande, quer ver-se nos espelhos,{32} quer que a achem galante, que a admirem, que digam nos jornaes que estava deliciosa no baile de tal, que tambem deu uma soirée onde estava a primeira sociedade, que a sua toilette era primorosa, que está já em vesperas de partir para o campo, que toda a Lisboa vae ficar saudosa d'ella... E conversa comnosco, e dá ao leque, e coqueteia, e mostra-nos as pulseiras, os anneis fingidos, a sombrinha improvisada; e toda se requebra, e compõe a manga, e pucha a camisinha, e, cuidando ás vezes que se está dançando os Lanceiros, faz-nos a cortezia.
Uma menina, que deve ter vinte annos, apparece á porta de um{33} quarto onde estão algumas mais tranquillas a costurar e a fazer crochet. Olha para mim fixamente e como esperando que eu lhe falle. O director vendo isso, pergunta-lhe se me conhece.
—Parece-me que conheço, responde ella.
O director diz-lhe o meu nome.
—É isso mesmo; já vi o retrato n'um livro.
É da Ericeira, esta menina; muitas das leitoras se lembram talvez d'ella, e toda a gente que ali tem ido a banhos lhe conheceu o pae,—o chamado Ericeira, o capitão Ericeira, que morreu ha poucos mezes. Nos fins do ultimo outomno procurou-me uma manhã um homem{34} baixo, vermelho, atochado, de cabeça grande, sobrancelhas fartas, perna curta, tronco forte, especie de Han de Islandia em velho; trazia uma carta do meu amigo Augusto Tallone, que m'o apresentava dizendo que por ter lido um folhetim meu a respeito da Ericeira elle quizera conhecer-me;—era o pobre capitão. Conversámos um pouco de tempo; elle fallava com difficuldade. Agradeci-lhe o favor da sua visita e despedimo-nos até o verão, na idéa de que eu fosse á Ericeira este anno; morreu tres mezes depois, coitado, e agora fui encontrar a filha em Rilhafolles!...
A pobre menina tem um parecer agradavel; não alegre, mas suave{35} e resignado. As poucas coisas que disse ao director nada tinham de tresvariado nem de demente; o aspecto mesmo é natural, assim no olhar como nos modos. Tem por entretenimento a mania de fazer versos, e cedeu-me uns que estava compondo e que lhe pedi; são versos certos, euphonicos, mas em que não se percebe nunca a idéa e em que as palavras baralham tudo:
Amei, infanta e leda como a aurora
Dos sonhos d'esse infante adormecido;
Ao rei o teu gemido, o teu trovar,
Ao throno o teu sondar encanecido.
Harpejo d'alma, lhana, feiticeira,
Gotejo em teu rollar mil alegrias,
E colho em cada nota que desfiro
Insomnias do porvir, crueis magias.{36}
Felizmente ellas não teem a consciencia da miseria humana que as esmaga; e vão vivendo, vivendo até chegarem a velhas, algumas.
A que, de todas, me produziu mais viva impressão foi uma formosa rapariga que não quer fallar, e que tem levado a teima por diante atravez de todas as diligencias. Estava n'uma das salas, agachada a um canto; parecendo não reparar no que se passava em redor d'ella, de olhos no chão, com a cabeça encostada ás mãos, ar de recolhimento profundo e invencivel. É o primeiro exemplo de mutismo por teima que tenho visto; e irreflectidamente, insensivelmente, disse-lhe não sei o quê na esperança de que{37} ella responderia. O director, que se prestou com a mais amavel paciencia a todas as minhas curiosidades, disse-lhe:
—Vamos; levante-se; estão fallando comsigo!
Ella poz-se de pé. É uma rapariga alta, bem feita, de cabeça lindissima, a mais bonita cabeça de mulher que se póde vêr, brilhante, inspirada, olhos grandes e melancholicos resguardados por longas pestanas, cabello negro e farto, feições accentuadas, expressão dominadora; certa graça aspera; o que quer que seja de caça brava; a bellesa crua, como fructa verde; uma formosura dos montes e das serras, ardente e pittoresca!{38}
Teem sido baldadas quantas tentativas se teem feito para alcançar d'ella que se resolva a fallar. Ultimamente o director recorreu aos banhos fortes; e havia já conseguido, na vespera exactamente do dia em que lá estive, que, ao sobresaltar-se com o calor da agua, ella dissesse: «Ai Jesus»! Taes são as duas unicas palavras que essa pobre creatura tem dado desde que ha uns poucos de mezes para ali entrou; um «ai», e o nome por excellencia, o nome divino, que diz todas as agonias e todas as esperanças, emblema da humanidade e symbolo de todos os emblemas que a alumiam: = Jesus!...
Havia já tres horas que andavamos{39} por aquelles corredores e por aquellas salas; e, ao descer uma das escadas, suppondo que iamos sair não pude deixar de dizer ao sr. dr. Abranches:
—Emfim!
Mas o director sorriu-se, e retrocou:
—Falta-lhe ver os idiotas.{40}
{41}
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