Buch lesen: "Romanceiro III"

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João Batista da Silva Leitão de Almeida Garrett Visconde de Almeida Garrett

Romanceiro III

Romances Cavalherescos Antigos


Publicado pela Editora Good Press, 2022

goodpress@okpublishing.info

EAN 4064066412951

Índice de conteúdo

ADVERTENCIA DA PRIMEIRA EDIÇÃO

ROMANCEIRO LIVRO SEGUNDO PARTE SEGUNDA

XVII A ROMEIRA

A ROMEIRA

XVIII CONDE NILLO

CONDE NILLO

XIX ALBANINHA

ALBANINHA

XX A PEREGRINA

A PEREGRINA

XXI DOM JOÃO

DOM JOÃO

XXII HELENA

HELENA

XXIII A MORENA

A MORENA

XXIV DONZELLA QUE VAI Á GUERRA

DONZELLA QUE VAI Á GUERRA

XXV O CAPTIVO

O CAPTIVO

XXVI A NAU CATHRINETA

A NAU CATHRINETA

XXVII O CEGADOR

O CEGADOR

XXVIII A NOIVA ARRAIANA

A NOIVA ARRAIANA

XXIX GUIMAR

GUIMAR

XXX DOM DUARDOS

DOM DUARDOS

I VERSÃO CASTELHANA DE GIL-VICENTE

II VERSÃO CASTELHANA DE DURAN

XXXI A AMA

A AMA

XXXII AVALOR

AVALOR

XXXIII CUIDADO E DESEJO

CUIDADO E DESEJO

XXXIV O CORDÃO DE OIRO

O CORDÃO DE OIRO

XXXV O CEGO

O CEGO

XXXVI LINDA-A-PASTORA

LINDA-A-PASTORA

XXXVII O MARQUEZ DE MANTUA

O MARQUEZ DE MANTUA

APPENDICE

THE NIGHT OF ST. JOHN

ROSALINDA

GREEN VINE LEAVES; OR, THE KING’S SLIPPER

GERINELDO

ADVERTENCIA DA PRIMEIRA EDIÇÃO

Índice de conteúdo

Por não fazer demaziado volume, dividiu-se o segundo livro d’esta collecção em duas partes, cada uma das quaes forma um tomo separado.

N’este segundo vão tambem em appendice as traducções inglezas de Sir John Adamson de alguns dos romances do primeiro livro.

O tomo quarto está destinado a conter o terceiro livro, que é o das lendas e prophecias. Se porêm apparecerem no intervallo alguns romances ainda não descubertos que pertençam á classe do segundo livro, accrescentar-se-ha uma terceira parte; e com ella começará, n’esse caso, o seguinte quarto volume.

Lisboa, agosto 9, 1851.

ROMANCEIRO
LIVRO SEGUNDO
PARTE SEGUNDA

Índice de conteúdo

XVII
A ROMEIRA

Índice de conteúdo

Aqui vai outra romeira, e não sei se de Sanctiago tambem; mas creio que não, porque o diria algures o texto do romance: não é orago que deixasse de se nomear.

É lindo, singelo, perfeito exemplar no seu genero. Não me consta que ande por mais terras nossas do que pelas do Minho e Tras-os-montes. So pelas duas versões d’estas provincias o tive de appurar; e sem muito custo, porque é simples de si, e pouco o alteraram na tradição. Tem todo o sabor e ingenuidade antiga, conserva perfeitamente os costumes crus da edade barbara a que se refere. Tambem não occorre nos romanceiros dos nossos vizinhos, e estou seguro que é ésta a primeira vez que se vê escripto e impresso.

As variantes que valem alguma coisa vão notadas á margem, e não são muitas.

A ROMEIRA

Índice de conteúdo

Por aquelles montes verdes

Uma romeira descia;

Tam honesta e formosinha

Não vai outra á romaria.

Sua saia leva baixa

Que nas hervas lhe prendia;

Seu chapelinho cahido

Que lindos olhos cubria!

Cavalleiro vai traz d’ella,

De má tenção que a seguia[1]!

Não a alcança, por mais que ande,

Alcançá-la não podia

Senão juncto a essa oliveira[2]

Que está no adro da ermida.

Á sombra da árvore benta

A romeira se accolhia:

—‘Eu te rogo, cavalleiro,

Por Deus e a Virgem Maria,

Que me deixes ir honrada

Para a sancta romaria.’

Cavalleiro, de malvado,

Nem Deus nem razão ouvia;

Cego no desejo bruto,

De amores a accommettia.

Pegaram de braço a braço:

Lucta de grande porfia![3]

A romeira, por mais fraca,

Emfim rendida cahia...[4]

No cahir, lhe viu á cinta

Um punhal que elle trazia;

Com toda a fôrça lh’o arranca,

No coração lh’o mettia.

O sangue negro saltava,

O negro sangue corria...

—‘Por Deus te peço, romeira[5],

Por Deus e a Virgem Maria,

Que o não digas em tua terra,

Nem te vás gabar á minha

Da vingança que tomaste,

Da affronta que te eu fazia.’

—‘Heide dizê-lo em tu’terra,

Heide me ir gabar á minha,

Que mattei um vil covarde

Co’as armas que elle trazia.’

Tocou a campa da ermida,

A campa que retinia:

—‘Ermitão, por Deus vos peço[6],

Bom ermitão d’esta ermida,

Tenhais dó d’essa má alma

Que inda agora se partia:

Dae terra benta ao seu corpo,

Que Deus lhe perdoaria.’

XVIII
CONDE NILLO

Índice de conteúdo

So se incontrou este bello romancinho do ‘Conde Nillo’ na provincia de Tras-os-montes e nas ilhas dos Açores. Nas collecções castelhanas é ommisso. Não sei porquê, mas sinto que tem o ar francez ou proençal. Ou talvez normando? Da nossa Hespanha é que elle me não parece oriundo. Tudo isto porêm é sentir; julgar não, que não tenho por onde.

Nillo não é nome portuguez, nem sei que fôsse castelhano, leonez ou de Aragão. De donde será? Ou é corrupção, como tantas, de outro nome? Mas de que nome? Series e series de dúvidas e perguntas ás quaes confesso a minha completa inhabilidade de responder.

Seja como for, o romance é bonito, elegante e gracioso, tem todo o cunho antigo verdadeiro, e não parece dos que mais padeceram na sua transmissão até nós.

CONDE NILLO

Índice de conteúdo

Conde Nillo, conde Nillo

Seu cavallo vai banhar;

Em quanto o cavallo bebe,

Armou um lindo cantar.

Com o escuro que fazia

Elrei não o póde avistar.

Mal sabe a pobre da infanta

Se hade rir, se hade chorar.

—‘Calla, minha filha, escuta,

Ouvirás um bel cantar:

Ou são os anjos no ceo[7],

Ou a sereia no mar.’

—‘Não são os anjos no ceo,

Nem a sereia no mar:

É o conde Nillo, meu pae,

Que commigo quer casar.’

—‘Quem falla no conde Nillo,

Quem se atreve a nomear

Esse vassallo rebelde

Que eu mandei desterrar?’

—‘Senhor, a culpa é só minha[8],

A mim deveis castigar:

Não posso viver sem elle...

Fui eu que o mandei chamar.’

—‘Calla-te, filha traidora,

Não te queiras deshonrar.

Antes que o dia amanheça[9]

Ve-lo-has ir a degollar.’

—‘Algoz que o mattar a elle,

A mim me tem de mattar;

Adonde a cova lhe abrirem,

A mim me têem de interrar.’

Por quem dobra aquella campa,

Por quem está a dobrar?

—‘Morto é o conde Nillo,

A infanta ja a expirar[10].

Abertas estão as covas,

Agora os vão interrar:

Elle no adro da egreja[11],

A infanta ao pé do altar.’

De um nascêra um cypreste,

E do outro um laranjal;

Um crescia, outro crescia,

Co’as pontas se iam beijar.

Elrei, apenas tal soube,

Logo os mandára cortar.

Um deitava sangue vivo[12],

O outro sangue real;

De um nascêra uma pomba,

De outro um pombo torquaz.

Senta-se elrei a comer[13],

Na mesa lhe iam poisar:

—‘Mal haja tanto querer,

E mal haja tanto amar!

Nem na vida nem na morte

Nunca os pude separar.’

XIX
ALBANINHA

Índice de conteúdo

Ésta pequena xácara, curta, simples e que mais parece alludir a uma anecdota sabida, do que recontá-la, não a incontrei senão na provincia de Tras-os-montes. Tres differentes, mas pouco differentes, versões d’alli me vieram; e, approveitando de todas, se restituiu o texto como aqui vai. Tem não sei que resaibo á sarcastica ‘sirvente’ do trovador. É mordaz, epigrammatica; e até se permitte fazer o seu calimburgo, quando a donzella requestada responde ao seductor:

‘Pouco tempo são tres horas,

Mas vem depois o contar.’

Onde a graça do equívoco está em que o verbo ‘contar’ tanto significa fazer ‘contas’ como ‘referir o que se passou.’

Não ha variantes que mereçam a pena de se conservar, nem licção castelhana que se ache nos romanceiros.

ALBANINHA

Índice de conteúdo

—‘Albaninha, Albaninha,

A filha do conde Alvar!

Oh! quem te vira Albaninha

Tres horas a meu mandar!’

—‘Pouco tempo são tres horas,

Mas vem depois o contar.’

—‘Usança de maus villões

Nunca a eu soubera usar.

Com ésta espada me cortem,

Com outra de mais cortar,

Donzella que em mim se fie

Se eu d’isso me for gabar.’

Inda bem manhan não era

Ja na praça a passeiar;

Aos tres irmãos de Albaninha

Se foi de braço travar:

—‘Ésta noite, cavalleiros,

Sabereis que fui caçar;

Em minha vida não tive

Noite de tanto folgar.

Era uma lebre tam fina

Que nunca vi tal saltar:

Com tres horas de corrida

Não a cheguei a cançar!’

Disseram uns para os outros:

—‘Bom modo de se gabar!

Será de nossas mulheres?

Das irmans nos quer fallar?’

Responde agora o mais môço

Discreto no seu pensar:

—‘Não vêdes que é de Albaninha,

Que o traidor quer diffamar?’

Foram-se os tres para um canto,

Poseram-se a aconselhar;

Diziam os dois mais velhos:

—‘Vamo’-lo nós a mattar?’

E o mais moço respondia:

—‘Vamo’-la nós a casar?’

—‘Sim! e o dote que ella tem,

Nós o temos de pagar.’

Vão ao quarto de Albaninha,

De voda a foram achar;

Duas aias a vestiam,

Duas a estão a toucar.

—‘Albaninha, Albaninha,

A filha do conde Alvar!

As barbas de teu pae conde

Que bem lh’as soubeste honrar!’

—‘As barbas de meu pae conde

Trattae vós de as honrar,

Pagando-me ja meu dote,

Que agora me vou casar.’

XX
A PEREGRINA

Índice de conteúdo

Não é dos que mais se cantam, nem tem a popularidade de outros muitos, o romance da ‘Peregrina’ que alguns tambem chamam da ‘Princeza’.—A licção que principalmente segui veio-me do Porto, e é a mais completa. Das outras provincias só obtive fragmentos muito interpolados. Comtudo approveitei bastante d’elles para restituir o texto e dar nexo e clareza á narrativa. O que se não utilisou para este fim, vai nas variantes.

O final, sublime e poetica idea que tanta predilecção mereceu aos antigos menestreis, é o mesmo de outros romances. Ja notei[14] que francezes e inglezes o usaram em suas composições. Entre nós apparece repetido muitas vezes. Fez-se um ‘logar commum’ romantico assim como tantas coisas bellas dos poetas gregos e latinos se fizeram, por sua popularidade, logares communs classicos. Que Homero ou que Virgilio da meia-edade foi o original inventor d’este? Não é possivel sabê-lo. E sabemos nós se eguaes bellezas da Iliada ou da Eneada são ou não repettições, reminiscencias de outros poetas mais antigos cujas obras ou cujos nomes não chegaram até nós?

A ‘Peregrina’ tem todos os characteres de antiga e original. É bella e simples e verdadeira. Nos romanceiros castelhanos não vem; nem se incontra nada parecido com a singella historia que ingenuamente narra. Mas d’estas historias houve tantas n’aquelles ditosos tempos da andante cavallaria! Mal haja o damninho talento de Cervantes que as fez acabar n’um Dom Quixote e na sua Dulcinea!

A PEREGRINA

Índice de conteúdo

Peregrina, a peregrina[15]

Andava a peregrinar

Em cata de um cavalleiro

Que lhe fugiu, mal pezar!

A um castello torreado

Pela tarde foi parar:

Signaes certos, que trazia

Do castello, foi achar.

—‘Mora aqui o cavalleiro[16]?

Aqui deve de morar.’

Respondêra-lhe uma dona

Discreta no seu fallar:

—‘O cavalleiro está fóra,

Mas não deve de tardar.

Se tem pressa a peregrina,

Ja lh’o mandarei chamar.’

Palavras não eram dittas,

O cavalleiro a chegar:

—‘Que fazeis porqui, senhora[17],

Quem vos trouxe a este logar?’

—‘O amor de um cavalleiro

Por aqui me faz andar.

Prometteu de voltar cedo,

Nunca mais o vi tornar;

Deixei meu pae, minha casa[18],

Corri por terra e por mar

Em busca do cavalleiro,

Sem nunca o podêr achar.’

—‘Negro fadairo, senhora,

Que tarde vos fez chegar!

Eu de vosso pae fugia

Que me queria mattar;

Corri terras, passei máres,

A este castello vim dar.

Antes que fôsse anno e dia

(Vós me fizestes jurar)

Com outra dama ou donzella

Não me havia desposar.

Anno e dia eram passados

Sem de vós ouvir fallar,

Co’a dona d’esse castello

Eu hontem me fui casar...’

Palavras não eram dittas,

A peregrina a expirar.

—‘Ai penas de minha vida,

Ai vida de meu penar!

Que farei d’esta lindeza

Que em meus braços vem finar?’

Do alto de sua tôrre

A dama estava a raivar:

—‘Levá-la d’ahi, cavalleiro[19],

E que a deitem ao mar.’

—‘Tal não farei eu, senhora,

Que ella é de sangue real...

E amou com tanto extremo

A quem lhe foi desleal.

Oh! quem não sabe ser firme,

Melhor fôra não amar.’

Palavras não eram dittas

O cavalleiro a expirar.

Manda a dona do castello[20]

Que os vão logo interrar

Em duas covas bem fundas

Alli junto á beira-mar.

Na campa do cavalleiro

Nasce um triste pinheiral[21],

E na campa da princesa

Um saudoso canavial.

Manda a dona do castello

Todas as canas cortar;

Mas as canas das raizes

Tornavam a rebentar:

E á noite a castellana[22]

As ouvia suspirar.

XXI
DOM JOÃO

Índice de conteúdo

O assumpto d’este romance é um casamento á hora da morte, uma d’aquellas tardias mas solemnes reparações que a religião, a honra, o amor tantas vezes têem arrancado á consciencia do moribundo.

Os preconceitos de nascimento luctam, poderosos ainda n’esse momento extremo, com os deveres da religião, com os sentimentos d’alma, com os mesmos dictames da verdadeira honra. Oiro é a primeira coisa que o fidalgo expirante se lembra de deixar á infeliz donzella,—infelix virgo!—em compensação da sua honra perdida. ‘Mil cruzados’ lhe deixa: falta ahi villão que a queira, burguez que a requeste e cubra de seu nome vulgar a doirada fragilidade de uma menina tam bem dotada por seu senhor e seductor?

‘Mil cruzados não é nada’: lhe objectam.—‘Pois darei mais duzentos’: regateia a suberba agonizante.—‘A honra não se paga aos cruzados.’—‘Pois, terras, villas, senhorios e castellos a quem casar com ella. Ha tanto escudeiro e cavalleiro pobre! Casar com a manceba de seu senhor, e senhor tam generoso, quem hade recusá-lo? E para o que duvidasse... argumento de rei velho e de republicano novo: Tenha a cabeça cortada!’

Forte é o orgulho que assim lucta, quando ja na beira do sepulchro. Tenaz o preconceito que ainda agora fez mentir villanmente o cavalleiro pundonoroso, quando, n’uma derradeira esperança de vida, falsamente promettia á inganada donzella ‘as bençãos de um arcebispo e a estolla da sancta egreja’. Vivesse elle, e taes promessas se cumpririam tanto como as primeiras que a seduziram. Porêm mais forte é a piedade, a honra verdadeira de quem, até o último, combate esse vão orgulho, esse falso pundonor. Era sua mãe; não a mãe da desgraçada, que o não ousaria se viva era—que por ventura foi morrer de vergonha a um canto.—Não, mas sua propria mãe d’elle, do moribundo. Verdadeira mulher de alma e de coração, tudo o mais lhe esquece e despreza, e não vê na infeliz, que alli está debulhada em lagrymas junto ao leito da agonia, senão uma mulher; uma mulher que é victima de seu amor, que tudo quanto era deu a quem tudo lhe quer pagar com tam pouco.

A mulher triumphou. As últimas palavras do vencido são bellas:

—‘Pois fique ésta mão ja fria

Na ma mão adorada.

De Dom João é viuva,

Condessa será chamada.’

Estes grandes quadros desenhados em poucos traços, vivos só de verdade e natureza, são—não me canço de o fazer notar—os que dão á poesia do romance este vigor que se não acha n’outras, este character que a distingue em todas as nações, em todas as linguas.

Mais adeantada civilização trará poetas que inluminem, que repintem a côres estes simples desenhos a lapis do menestrel. Mas crear não hãode elles nunca, se não fecharem os livros escriptos, para abrirem o do coração, para estudar por elle o homem, a natureza que o cria, e o Deus que o fez.

O presente romance veio-me do Minho; variantes notaveis não me appareceram; nas collecções castelhanas não está; e não o creio—isto é, não o presinto mais antigo do que o seculo XV ou principios do XVI.

DOM JOÃO

Índice de conteúdo

Lá das bandas de Castella

Triste nova era chegada:

Dom João que vem doente,

Mal pezar de sua amada!

São chamados tres doutores

Dos que têem mais nomeada:

Que, se algum lhe désse vida

Teria paga avultada.

Chegaram os dois mais novos,

Dizem que não era nada;

Porfim que chega o mais velho,

Diz com voz desinganada:

—‘Tendes tres horas de vida,

E uma está meia passada;

Essa é para o testamento:

Deixar a alma incommendada!

A outra é para os sacramentos,

Que inda é mais bem impregada.

Na terceira as despedidas

Da vossa dama adorada.’

Estando n’estas conversas,

Dona Isabel que é chegada.

Ergueu os olhos para ella

Com a vista ja turvada:

—‘Ainda bem que vieste,

Minha prenda desejada,

Que tanto queria ver-te

N’esta hora minguada!’

—‘Tenho fe na Virgem sancta,

N’ella venho confiada,

Que me hade ouvir e salvar-te,

Que o teu mal não será nada.’

—‘Oh! que se eu chegar a erguer-me,

Minha rosa namorada,

No vaso d’este meu peito

P’ra sempre serás plantada,

Co’as bençaos de um arcebispo

E de agua benta regada,

Co’a estolla da sancta egreja

Ao meu coração atada.’

Estando n’estas conversas,

Sua mãe que era chegada:

—‘Que tens tu, filho querido

D’esta alma amargurada?’

—‘Tenho, mãe, que estou morrendo,

Que ésta vida está acabada;

Com só tres horas por minhas,

E uma ja meio passada.’

—‘Filho de minhas intranhas,

N’esta hora minguada

Lembra-te se algo deves

A alguma dama honrada.’

—‘Minha mãe, que devo, devo...

E Deus me não peça nada!

Dona Isabel que em má hora

Por mim fica diffamada.

Mas deixo-lhe mil cruzados

Para que seja casada.’

—‘A honra não se paga, filho;

Mil cruzados não é nada.’

—‘Ja lhe deixo mais duzentos

E a cruz de minha espada.’

—‘A honra não se paga, filho;

Os cruzados não são nada.’

—‘Deixo-a a estes tres doutores

Muito bem incommendada;

E a vós, minha mãe, vos peço

Que a tenhais bem guardada.

O que com ella casar

Tem uma villa ganhada;

O que lhe disser que não

Tenha a cabeça cortada,’

—‘A honra não se paga, filho;

Nem com terras é comprada:

Se a essa dama lhe queres,

Não a deixes deshonrada!’

-—‘Pois fique esta mão ja fria

Na sua mão adorada:

De D. João é viuva,

Condessa será chamada.’

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Altersbeschränkung:
0+
Veröffentlichungsdatum auf Litres:
15 Januar 2025
Umfang:
110 S. 1 Illustration
ISBN:
4064066412951
Verleger:
Rechteinhaber:
Bookwire
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