Buch lesen: "Cidades e Paisagens"
Jaime de Magalhães Lima
Cidades e Paisagens

Publicado pela Editora Good Press, 2022
EAN 4064066407759
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ADVERTENCIA
CIDADES E PAIZAGENS
ADVERTENCIA
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Para repouso do espirito e procurando uma representação exacta de coisas que conhecia só pela leitura e me interessavam, fiz no outono passado uma rapida viagem pelo norte da Europa e da Africa. Nos breves momentos de descanso do meu jornadear impaciente dei conta do que ia vendo e pensando nas cartas que ora enfeixo n'este livro. Accusam-me os amigos e criticos intelligentes de ter sido abstruso, poupando-me a descripções e á narração dos factos e só cuidando de apontar as impressões de natureza moral que ficavam no meu espirito. A accusação é procedente, reconheço-o; mas não tentarei corrigir-me pelo respeito que devo á sinceridade.
Estas cartas são reflexões sobre um limitadissimo numero de factos porque na verdade o meu espirito é d'este molde; prende-se meramente ao que se lhe afigura saliente e caracteristico, e despreza e esquece tudo o mais. Se é boa, se é má, não sei dizel-o; sei apenas que é esta a sua fórma.
Não desprezo o trabalho descriptivo, incomparavel delicia quando é bem feito, unica base dos conhecimentos geraes; mas, além de requerer aptidões litterarias especiaes que não tenho, demanda ao mesmo tempo dotes d'um outro genero de que igualmente careço. A descripção, associada á narrativa e ao dialogo, póde bem aventurar-se no romance sem outro qualquer auxilio: a descripção simples, por mais brilhante que seja, é um anachronismo enfadonho se lhe falta a interpretação do lapis e do carvão que elucida, completa, abrevia e deleita, dando rapidamente uma impressão extensa.
Depois, ha muitos modos de viajar. Ha em primeiro logar o estudo—o conhecimento interno e externo dos povos nas suas instituições e nas suas paizagens, na sua vida moral e na sua vida economica, nas suas qualidades physiologicas e nas suas aptidões artisticas, no seu modo de ser intimo e nas suas relações com o mundo externo. Esses estudos carecem de longo tempo e saber paciente e a descripção é um dos seus elementos; estão feitos para quasi todo o mundo tantas vezes e tão bem que seria vaidade pueril tentar acrescentar-lhes o que quer que fosse.
Um segundo modo é a viagem por curiosidade—vêr muita coisa e coisas differentes das que habitualmente vemos. É o regalo das sensibilidades cansadas ou demasiado cubiçosas e um genero de «sport» hoje muito em voga; o seu valor educativo, porém, é mediocre pela multiplicidade das impressões e falta de connexão entre si.
Entre estes dois modos parece-me haver um terceiro, munido de estudos prévios para dispensar observação demorada e curioso só quanto baste para a elucidação do estudo. Procura a representação directa d'aquillo que já conhece, vendo em movimento os corpos vivos cuja anatomia e physiologia estudou primeiro; vai envolver-se na corrente das cidades para sentir o calor e o palpitar do seu sangue e uma vez alcançada esta impressão abandona-as como um parasita irrequieto.
Isto pelo que diz respeito ao modo de apreciar as viagens. Pelo que se refere propriamente ás minhas impressões nada quero acrescentar e muito pouco tenho que esclarecer.
O que escrevi de Berlim fará crêr que não senti lá outra coisa senão um militarismo brutal absolutamente antipathico ao meu espirito, quando é verdade que ao seu lado vi com intima admiração a força moral d'um regimen de ferro em que tudo é pautado pela lei severa e obedecida. Não sei que haja paiz que possua mais profundamente o fetichismo do dever. Um acto pratica-se porque é obrigação pratical-o e no cumprimento das obrigações não ha hesitar—tal é o primeiro e mais assombroso resultado educativo que a severidade allemã alcançou para aquelle povo.
Nem mesmo direi antipathico o caracter do actual imperador da Allemanha, apesar do seu muito contestavel amor filial e d'uma paixão militar que não deve ficar longe da loucura. Aspirar a constituir uma patria e uma nação «allemãs» é talvez uma especie de egoismo mas largo e generoso; póde ser abominavel mas não perde por isso a admiração devida a todas as coisas grandes. E este é, a meu vêr, o caso do imperador da Allemanha.
Igualmente receio ter ficado obscura a minha discussão com o conde Tolstoï.
D'accordo quanto á medida do progresso, conformes ambos em que devemos aferil-o pelo alargamento e mais profunda penetração da fraternidade ou do amor nas relações sociaes, differiamos no modo pratico da sua realisação. Tolstoï conclue pelo nihilismo, pela abolição da propriedade, do estado, de todos os vinculos e de todas as dependencias, entregando os homens sómente á sua lei divina ou moral; pede uma dissolução onde eu pediria uma organisação, uma ordem, d'onde derivam a familia, a communa, a propriedade, o estado, uma subordinação. Historica e scientificamente está demonstrado, que, abolidos esses laços, a sociedade cae na anarchia, na guerra, na livre soberania da lucta pela vida, negação da fraternidade.
E não se diga que esta maneira de vêr contradiz a igualdade, tendencia evolutiva das sociedades aryanas, historicamente demonstrada. A igualdade entre os homens, que o christianismo e a philosophia reconhecem, traduz-se nas instituições politicas n'uma accessibilidade de estado e de classe e não na abolição de todos os estados sociaes e das classes, orgãos da humanidade. D'esses orgãos deriva a sua fórma e é esta que nos cumpre aperfeiçoar sem a destruirmos.
De resto, quanto ao modo de viver de Tolstoï, só repetirei que me merece a mais illimitada admiração. Comprehende-se e admira-se o homem entregue sem reservas a uma paixão sublime, despindo-se heroicamente de todo o «snobism» com que a fraqueza de todos nós condescende e curvando-se sobre o arado; absorvido n'esse mysterio insondavel e fascinante da terra, aureolado da maior de todas as bençãos divinas—a humildade.
Sobre os demais pontos das minhas cartas creio não haver obscuridade que mereça ser apontada.
CIDADES E PAIZAGENS
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Salamanca, 1 de Setembro.
Novamente em terras estranhas, com as velhas malas tisnadas ao sol de mil combates, isto é, cobertas dos rotulos dos caminhos de ferro e dos hoteis, que lhes abrem no coiro espesso grandes chagas multicôres; com essas fieis companheiras que por mim pisaram todo o calvario dos omnibus e dos wagons e soffreram ás mãos brutaes dos moços de gare, encontro velhas idéas, velhos programmas de viagem. Não mudei: a bagagem é ainda a mesma, exterior e interiormente.
A boa ordem e o methodo exigem um programma, exigem que antecipadamente determinemos um fim e um systema. D'outra forma, a viagem não passa de uma dissipação, de elegancia ou de vaidade, um regabofe, grandes empresas, grandes aventuras, para escancarar de pasmo a boca dos papalvos. Abrenuntio!
Tenho lido e creio que o inglez e o russo viajam de maneira absolutamente diversa; o inglez vendo tudo, seguindo linha a linha o seu guia, minuciosa e escrupulosamente, e o russo passeando livremente, sem guia e sem tutela, correndo cidades e campos, envolvendo n'uma especie particular de indifferença museus e bibliothecas, cathedraes e universidades, monumentos e palacios, toda essa interminavel corda com que é costume enforcar a bolsa e a paciencia do viajante. Emquanto o inglez procura factos e impressões desconnexos, mas em grande numero, o russo procuraria poucas ideas geraes; um attenderia ao numero e á quantidade, outro á grandeza e á qualidade.
Não sei até que ponto será exacta a distincção como attributo caracteristico de raça; é certo porém que em geral a podemos considerar verdadeira. A não ser que viajemos com um fim especial, o estudo de uma cultura, de uma arte, de um novo processo industrial, ou qualquer outro, ha apenas dois systemas de viajar, extremos de um dos quaes todo o caso particular sempre se aproxima: ou procuramos a abundancia e a riqueza de impressões ou um limitado numero de aspectos e idéas geraes, pondo de parte os factos inuteis á sua constituição.
Sobre o valor intellectual dos dois systemas não me parece poder levantar-se duvida; ha toda a distancia que vai da simples curiosidade ao pensamento. Um estampa, grava e guarda, no seu estado primitivo, as percepções recebidas; o outro funde, relaciona, e tira um novo producto unico residuo duradouro e util.
Ora, devo advertir aos que tiveram a paciencia de me acompanhar até aqui que desde longos annos me inscrevi na segunda das categorias que esbocei e não abjurei nem espero abjurar a primeira confissão. Temperamentos! Já vê, pois, o leitor o que póde esperar d'estas breves palestras, escriptas de relogio em punho e sob a respeitavel auctoridade dos horarios do caminho de ferro; nem poderei despertar-lhe transportes de enthusiasmo, em segunda mão, pelos quadros e monumentos notaveis, nem lhe contarei quantos viajantes me acompanhavam, nem como vestiam e dormiam, nem mesmo poderei dizer-lhe, e isso com verdadeira magua, se, realmente, n'esta parte da Europa que vou percorrer, é lei universal de todas as hospedarias deixar á noite os sapatos á porta do quarto de dormir e encontral-os de manhã bem lustrosos de graxa. Nada d'isto terei tempo de dizer-lhe; apenas alguns factos e idéas muito geraes.
Já temos quanto baste de declarações prévias para que possamos entender-nos; passemos pois á viagem.
D_ Porto a Salamanca o caminho é bem conhecido. Atravessa^do _ Minho, nas proximidades de Penafiel, póde observar-se o aspecto bem differente do Minho suburbano e littoral, como a Maia e Rio Tinto, e o Minho interior, aproximando-se das montanhas. N'este, a vegetação nos valles é mais abundante e viçosa, talvez resultado do maior abrigo; os montes circumvisinhos são mais elevados e muito despidos, differentemente do que acontece no littoral onde as eminencias são bem povoadas de pinhal que desce até á margem dos campos. A casa caiada e branca, construida de argamassa e coberta de telha, deu logar á cabana de pedra solta e de colmo, defumada e baixa. São de uma grande belleza as pequenas aldeias do interior do Minho; sombrias pela luz frouxa, pelo verde carregado da vegetação, pela côr terrea dos montes escassamente povoados de urze, e pelo colmo e o granito das habitações; mas ha no quadro uma grande harmonia de tons, deliciosas linhas pittorescas, e, na falta de arte, uma grande expressão, a que resulta da completa communhão do homem e da terra. A aldeia e o homem são pouco, quasi nada, a confundirem-se com os milharaes e com os pampanos.
Do Minho passamos á margem do Douro e ás suas encostas devastadas pela phylloxera.
A meu vêr, a paizagem carece de belleza; a natureza menos consistente dos terrenos schistosos produz a molleza de contornos; e a cultura, fazendo dos montes escadarias, destruiu toda a harmonia natural e substituiu a paizagem, não por outra paizagem mas por cachos d'uvas em prateleiras. Alem d'isto, os valles são demasiado estreitos e falta por isso a distancia necessaria para vêr bem as montanhas.
São de uso e de bom gosto as lamentações sobre a sorte infeliz do Douro; e, de facto, os olhos menos penetrantes vêem alli a miseria e a destruição de uma opulenta riqueza que, nos seus melhores tempos, deu ao lavrador uma vida sumptuosa.
Mas está o Douro perdido para sempre? E as florestas, e a acclimatação de plantas novas e de novos animaes? Assim como a giesta cresce por aquelles montes, não haverá plantas exoticas de maior utilidade que supportem igualmente os rigores d'aquella região? Não têm os lavradores um vasto campo a explorar na criação dos pequenos animaes como as aves e os coelhos? Não seria possivel fazer grandes reservas das aguas que no inverno correm em torrentes pelas montanhas? Se me não illudo, os grandes males da regeneração agricola do Douro não vem da sua natureza physica de que com arte necessariamente poderiamos tirar proveito; o grande embaraço é a falta de instrução e de capitaes. Para restituir á cultura as suas terras agrestes e hoje em completo abandono, é necessario que o lavrador saiba e possa; e, dado que viesse a saber em pouco tempo, quantos mil contos de reis não custaria a empresa?
Subindo sempre, entramos em Hespanha, e pouco depois, vinhas e olivaes e amendoeiras, tudo nos desapparece para nos internarmos em plena região montanhosa. Nenhuma cultura, mas a paizagem é granitica, cheia de grandeza, os contornos nitidos e arrojados. Seguem-se planaltos arenosos, cultivados na maior parte; rarissimas videiras, os cereaes dominam e, parece, formam o tronco, a parte essencial da lavoura, como, de resto, succede nas grandes elevações do nosso clima. As aldeias não são frequentes, mas os campos murados e extremamente subdivididos.
Sobreveio a noite. Pelos campos do Tormes, imagino que a paizagem não muda até Salamanca, pois o que vim encontrar aqui é em tudo semelhante ao que deixei, com a simples differença de que as hortas abundam, consequencia manifesta das proximidades de um mercado urbano.
Resta-me fallar de Salamanca, falta-me o tempo. De Paris conversaremos.
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