Buch lesen: "Flirts"
Henrique de Vasconcellos
Flirts

Publicado pela Editora Good Press, 2022
EAN 4064066411671
Índice de conteúdo
A ESCOLA DE FLIRT
A ESCOLA DE F LIRT
F LIRTS
LOGICA
L OGICA
ROMANTICO
R OMANTICO
A BISANTINA
A Bisantina
MÁ-LINGUA
M Á-LINGUA
A RAINHA DE SABÁ
A R AINHA DE S ABÁ
CHIARA LILIAM
C HIARA L ILIAM
A MARCIA
A M ARCIA
O CEGO
O C EGO
A GLORIA
A G LORIA
A FESTA DE MAIO
A F ESTA DE M AIO
TIBIDABO
T IBIDABO
A PRINCEZA PERDIDA
A P RINCEZA P ERDIDA
NOITE DE FESTA
N OITE DE F ESTA
CLARA
C LARA
IDILIO TRISTE
I DILIO TRISTE
PERFIL D'AVENTUREIRO
P ERFIL D' A VENTUREIRO
FUMO
F UMO
L'art et la science sont independants. La morale ne doit avoir aucune prise sur eux; jamais l'artiste, avant de faire une statue, jamais le philosophe avant de faire une loi, ne doivent se demander si cette statue sera utile aux mœurs, si cette loi portera les hommes à la vertu. L'artiste n'a pour but que de produire le beau, le savant n'a pour but que de trouver le vrai. Les changer en predicateurs, c'est les detruire. Il n'y a plus de science ni art dès que l'art et la science devienent des instruments de pedagogie et de gouvernement.
H. TAINE.
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A ESCOLA DE FLIRT
Índice de conteúdo
AO CONDE DE FIGUEIRÓ
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A ESCOLA DE FLIRT
Índice de conteúdo
O PROFESSOR.—Sem edade, 25 ou 40, tudo lhe convém. Uma mocidade que envelheceu, ou mocidade que dura quand même, «je meurs où je m'attache». Toda a pelle do rosto é sulcada por imperceptiveis rugas finissimas; a boca tem um sorriso de cético, mas os olhos ainda brilham. Parece ter conhecido tudo ou advinhado tudo. Se se olha para a boca, sente-se que conheceu, para os olhos, pensa-se que adivinhou.
Elegante, uma ponta de preciosismo,—muito pouco!—apenas presentida na maneira como olha para as mãos deliciosamente cuidadas, como as d'uma senhora, viajou por toda a parte, indo mais ás festas mundanas do que aos museus, leu mais jornaes do que livros.
A DISCIPULA.—Uma ingenuidade, que quer conhecer tudo, ignorando tudo. Vestida um pouco à la diable, seria positivamente fagotée sem a elegancia do corpo fino e leve e o brilho e o riso dos olhos e dos labios côr de rosa.
A discipula vae procurar o professor da Escola de Flirt, discretamente annunciada por meio de circulares em papel lilaz com dois corações em chamas estilisados à maneira moderna. É n'um minusculo jardim seculo XVIII portuguez, com um delgado repuxo a partir-se n'um pequeno tanque sem lavores e canteiros bordados por buxeiros. No centro d'um, uma anagua forma uma copa verde-clara de onde pendem as campanulas brancas que perfumam.
O PROFESSOR—É v. ex.ª que...
A DISCIPULA—Sim, senhor... Venho aqui tomar algumas lições. Fiz a minha educação{12} no convento; não tive occasião de aprender os rendimentos do Flirt. Casei sem amor, sem noivado, sem lua de mel... Um casamento de conveniencia... para o meu tutor. Escusou de prestar contas. Vim ha pouco para Lisboa. Aqui, toda a gente flirtea um pouco. Troçam do meu acanhamento, chamam-me Pires, até Possidonia, dizem que sou «old style», do tempo da rainha Anna... Recommendaram-me esta escola. Se não ensinam aqui as cortezias, dança, diversas maneiras de trazer as mouches, como no tempo de Moliére, mostram-nos como se conduz um flirt com a pericia com que o Jeronymo Condeixa guiava four-in-hands.
O PROFESSOR—V. ex.ª é intelligente?
A DISCIPULA—(Modestamente)—Sou.
O PROFESSOR—Formosa, vejo que é. (A discipula agradece) Gosta de toilettes?
A DISCIPULA—Fagotée durante a minha interminavel mocidade—vinte annos na provincia!—não possuo a complicada arte da fanfreluche.
O PROFESSOR—Mas tem tendencias?
A DISCIPULA—Enormes! Passo horas ao espelho a compor o meu pobre cabello, a pôr uma fita...
O PROFESSOR—Mais tout ça c'est l'affaire de la femme de chambre!
A DISCIPULA—(Indignada) Entregar-me a mãos mercenarias?!{13}
O PROFESSOR—Mas minha senhora! Deve v. ex.ª fazer... permitta-me a expressão—as proprias meias? Passar as noites em compridos serões a alinhavar os corpetes com essas mãos que adivinho lindas sob a pellica da luva? (A discipula agradece.) Com certeza que não. Bem o vejo nos seus olhos que são, deixe-me dizer-lhe, d'um brilho incomparavel. (A discipula torna a agradecer.) Todos esses cuidados pertencem aos fornecedores. É por acaso a propria rosa que póda a roseira? Não! Ha jardineiros de mãos calosas e almas rudimentares que preparam a eclosão das orgulhosas flores que são o pasmo e o encantamento dos jardins. Ha creaturas que se dobram dias inteiros sobre sedas e rendas, pensando em cosinhadas e roes de roupa suja, e constroem fantasticas teias em que nos vamos prender, as deliciosas toilettes dos Redfern e dos Rouff... Porque se não deixa preparar por ellas? Ha cabelleireiras habeis que ageitam deliciosos penteados. Seja paciente, consinta que ellas a penteiem.
A DISCIPULA—É absolutamente preciso? Não poderei prescindir?
O PROFESSOR—Absolutamente... absolutamente... não... A formosura de v. ex.ª suppre muito... tudo... Mas é util.
A DISCIPULA—Bem... E depois?
O PROFESSOR—Sabe conversar?{14}
A DISCIPULA—Meu Deus! No convento, no que conversavamos mais era nas Irmãs... para dizer mal d'ellas.
O PROFESSOR—Dizer mal... é bom... mas de quando em quando... Senão cae-se nas soirées do Sporting.—Lê?
A DISCIPULA—O Diario Illustrado, todas as manhãs...
O PROFESSOR—É pouco. Bourget—fala do coração. É um bom tema. Tudo o que se disser é verdadeiro e falso, de fórma que uma opinião é voltada do avesso com a maior facilidade. Falla de mulheres, toilettes e almas, pezares e córtes tailleurs, amores e rendas de corpetes...—uma macedoine que, para a conversação, tem o encanto da variedade.
A DISCIPULA—Tenho o Larousse.
O PROFESSOR—Bah! O Larousse é muito comprido. Não se pode falar em sociedade, como se não deve falar no diabo e em outras coisas do uso diario. Outro: Theuriet—é sentimental, cheio de lamurias; no campo, um chorão, n'uma sala, um piano. É optimo para as noites de luar, na praia, emquanto se faz a digestão.
A DISCIPULA—Uma pastilha de Vichy em trezentas paginas.
O PROFESSOR—Pouco mais ou menos. É um filho de Lamartine... Olhe, este é preciso cital-o... ás vezes... a troçar... Depois, todos os vient-de-paraitre. O Figaro assignala-os.{15} A proposito: são muitos. Leia dez paginas no começo, vinte no meio e as tres ultimas. Terá assim um verniz literario... completo.
A DISCIPULA—Tenho entendido.
O PROFESSOR—Mas isto é longo. Prefere entrar? Quer a primeira lição aqui ou na aula? Aqui?
A DISCIPULA—Sim. Acho melhor. Sob as arvores, junto ás flores, a ouvir o murmurio dolente da agua que corre.
O PROFESSOR—É poetica?
A DISCIPULA—Quasi, ás vezes.
O PROFESSOR—Não fica mal um pouco de poesia... Falar do mar e do estremecimento da lua sobre as aguas inquietas, comparar-se á agua movediça e infiel... Emfim são coisas para mais tarde. Vamos aos preliminares. Ah! Antes de mais nada: o nome de v. ex.ª?
A DISCIPULA—Carmo... Maria do Carmo. As minhas amigas chamam-me a Carminho.
O PROFESSOR—Um nome lindo...
A DISCIPULA—Não se presta a madrigaes.
O PROFESSOR—Um nome sabendo a flores silvestres...
A DISCIPULA—Pires...
O PROFESSOR—(Vae tomando calor)—Pelo contrario. Um nome que se desfaz na boca como um fondant, nome para murmurar nas horas perturbantes, nome que finalisa n'um franzir de labios, como para um beijo... Delicioso!{16}
A DISCIPULA—Muito obrigada.
O PROFESSOR—Bem. Bem. Passemos á lição. (Toma um falso ar amavel, faz brilhar na boca um sorriso, retorce o bigode loiro.)
A DISCIPULA—Ouvil-o-hei com toda a attenção.
O PROFESSOR—(Agradece com um gesto largo). Flirt é uma palavra ingleza que deriva do francez. Já tem fóros de portugueza: Garrett empregou-a. É como uma batalha de flores entre duas pessoas de diferente sexo.
A DISCIPULA—Com os espinhos?
O PROFESSOR—Conforme: ha varias especies de flirt. Ha um em que as rosas são quasi todas guardadas por numerosos regimentos de espinhos: é o flirt agressivo, feito de recriminações. Ha quem lhe encontre encanto. Pff! Não lh'o aconselho. É bom para velhas de sessenta annos com os vieux beaux que foram seus namoros. Ha o flirt sentimental, aquelle a quem me referi ha pouco, com clair-de-lune e regatos prateados, o flirt com Theuriet e Alfred de Musset dos proverbios, um assucareiro em que caiu agua e vae entornando calda que pinga e lambusa. Horrivel! Mas tem os seus adoradores, misses sur le retour, tias, meninas da Baixa espremidas nos espartilhos de baleia e aço—crosta d'um peixe que a ichtyologia ignora; é muito usado lá para os lados excentricos da Estefania. Ha—tome toda a attenção, pois{17} é o que convem ao seu genero de belleza...
A DISCIPULA—V. Ex.ª confunde-me...
O PROFESSOR—O que ha de mais sincero!... Ha um genero, o meu predilecto... (Ageita-se no banco, torna a retorcer o bigode, olha amorosamente para as unhas rosadas). É o flirt perfumado e finissimo, o fumo das cassoletas com perfumes leves, como se queimassem flores, petalas tremulas d'anemonas...
A DISCIPULA—Como V. Ex.ª é eloquente!
O PROFESSOR (Baboso)—É V. Ex.ª que me inspira!
A DISCIPULA—Os seus olhos sublinham com tal calor as frases!
O PROFESSOR—Um pouco de luz que vem dos seus!... Um reflexo do seu admiravel olhar! É por isso que falo assim. (Approxima-se d'ella). É o flirt em que o coração apenas perfuma... O que tem de bom uma flor? A propria materia? Não, que essa é unica, a mesma na couve lombarda e no lyrio. É o perfume e a côr. Do coração, tambem, só devemos permutar o perfume. Ora imagine: entregar um coração cheio de sangue, a palpitar como um peixe quando acaba de ser pescado!
A DISCIPULA—Até mete medo!
O PROFESSOR—Tem razão. Até mete medo. V. Ex.ª tem sempre razão.
A DISCIPULA—Muito obrigada.
O PROFESSOR—As pessoas formosas—e V.{18} Ex.ª é divinamente formosa—teem sempre razão.
A DISCIPULA—V. Ex.ª é muito lisonjeiro.
O PROFESSOR—A lisonja é o aroma da verdade. V. Ex.ª merece tudo.
A DISCIPULA—V. Ex.ª é extraordinariamente amavel.
O PROFESSOR—Podesse eu ser amavel para que todas as senhoras bonitas me amassem!
A DISCIPULA—Todas?
O PROFESSOR—Quando digo todas... V. Ex.ª comprehende que me refiro a uma só.
A DISCIPULA—Feliz aquella...
O PROFESSOR—Acha feliz?
A DISCIPULA—Deve sentir o peito em festa...
O PROFESSOR—Oh minha senhora!
A DISCIPULA—Lembrar-me-hei de si. Nas noites infindaveis, quando me sento ao piano e os meus dedos correm sem fito sobre o teclado...
O PROFESSOR—Como nardos que andassem...
A DISCIPULA—Como póde dizer isso, se nunca as viu?
O PROFESSOR—Adivinho-as. Mas gostaria de as vêr (Toma-lhe a mão). Estas luvas são de Paris?
A DISCIPULA—Não senhor: são dos Gatos.
O PROFESSOR—(Um pouco desapontado). Não importa. As mãos são lindas. (Vae desabotoando uma das luvas).{19}
A DISCIPULA—(Consentindo). O que faz?
O PROFESSOR—Estes botões são feios. Mas a pelle é finissima.
A DISCIPULA—A da luva?
O PROFESSOR—Não, a da mão.
A DISCIPULA—Agradecida.
O PROFESSOR—(Curva mais a cabeça approximando-se mais, assim, da mão).
A DISCIPULA—(Sem a retirar). O que faz?
O PROFESSOR—Nada, minha senhora... ia vêr melhor o grão da pelle.
A DISCIPULA—(Ligeiramente desapontada). Ah! julguei...
O PROFESSOR—Oh minha senhora! Pensar tal a meu respeito! Não sabe que o flirt é o amor sem desejo, a sombra do Amor? Eu não podia dar-lhe um beijo!{20}
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FLIRTS
Índice de conteúdo
A ANTONIO BANDEIRA
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FLIRTS
Índice de conteúdo
Maria do Carmo, curvada sobre a meza, folheia os ultimos envois de Paquin e Redfern. Um candieiro com um largo quebra-luz de seda e rendas lança-lhe sobre o cabello uma aureola de oiro. O corpo está mergulhado na penumbra. Na sala, os moveis tomam aspectos fantasticos. Os espelhos teem um brilho pallido. Gonçalo, ao entrar, beija a mão que Maria do Carmo lhe estende, sem levantar os olhos dos papeis.
MARIA DO CARMO—trinta annos, com dez de casamento. Sem filhos. A vida passa-se-lhe em visitas, raouts, recéções e bailes. Alguns livros da moda, recommendados por Marcel Ballot, no Figaro, e Jean Lorrain, por curiosidade. Interessante como um enigma, ás vezes perversa. Não se lhe conhece um amante, mas indicam-se muitos. Não toca piano.
GONÇALO—não tem uma branca, mas no meio da animação, ficticia, vê-se um grande cançaço de viver, como se tivesse experimentado tudo. Procura por toda a parte, como um gourmet, o manjar fino. Epicurista, delicadamente depravado, como um roué da Restauração, ou um elegante do fim da republica romana.
—Ainda bem que veiu!... Preciso do seu bom conselho...
—Como sempre, depois de ter feito alguma tolice?...
—Impertinente!
—É sempre assim. Pede-me o conselho depois de não precisar d'elle! De resto, dá na mesma: ninguem segue conselhos.{24}
—Não. Tenho aqui estes dois albuns. De Paquin... De Redfern... São as ultimas creações. Estou tentada a escolher quasi tudo e a não escolher nenhum... Quer acreditar que tenho dias vazios na minha vida? Dias sem vontade, d'uma grande lassidão, em que nem sequer tenho forças para fingir que sorrío!...
—Ame um pouco...
—É coisa que se encommende? Acordo um dia, com a resolução de amar. É logo. O primeiro que me apparece na Avenida, aquelle que melhor dorme em S. Carlos, o caixeiro que me vende as fitas no Martins! Vê-se bem que nunca amou!
—Não amei! Mas eu não sou, eu amo. É a minha maneira de existir. Um nasce cego; nasci amoroso...
—Calle-se! Diga lá, qual d'estes vestidos prefere?
—Sabe que é muito difficil escolher um vestido pelos desenhos feitos d'après os manequins? O mesmo vestido toma aspectos differentes conforme as pessoas...
—Não faça filosofia. Olhe este de Paquin: ligeiro, todo em rendas, em coisas leves, parece feito com flôres; o Redfern é mais hieratico; mesmo nos vestidos de baile conserva a raideur dos córtes tailleur. São vestidos para a Bouro, que parece ameaçar-nos constantemente com a sua corôa de marqueza. Este?{25}
—Não lhe irá bem, talvez... O talhe da saia engrossa a sua figura, a que não vão bem...
—O senhor treslê... Tudo me vae bem... Deixe lá os figurinos... Não sabe nada de vestidos... É como do coração. Aconselha-me a que ame...
—E dou-lhe um bom conselho. Nem parece que sou seu amigo.
—Trouxe hoje a alma de cinico?
—Era a que tinha mais á mão. Estava ao cimo da gaveta...
—Continuo a dizer: não percebe nada dos negocios do coração...
—Não ha negocios do coração. O coração dá-se...
—Não; troca-se...
—Para quê? Não é preciso, no amor, ser-se correspondido. Basta amar. É possivel que para a felicidade seja necessaria a permuta...
—O amor é o choque...
—Muitas vezes o cheque.
—Que jeu de mots tão velho! É o choque de duas almas. É preciso que girem bem, no encontro. São duas electricidades que se combinam. Conhece a theoria das duas metades da maçã?
—Conheço: é uma figura de rétorica...
—Não é. Andam duas creaturas por esse mundo, ignorando o seu futuro, achando a vida sem rasão, idiota...{26}
—Escolhe uma mentira vital, como diz Ibsen. Conheço-lhe o charabia...
—Deixe-me acabar. Corre mundos, faz tolices, fecha-se dias em casa, até vae ao circo ver as focas... E nada! Um dia, sem saber como nem porquê, uns olhos encontram-se com os seus, numa multidão. Ha a faisca... Pode ser um santo ou um bandido, lindo como o Rubempré, estupido como um tenor, candidato á grilheta ou futil como um janota. Fica-se presa; somos d'elle para toda a vida, ficamos amarradas a elle, como uma sombra... É assim o Amor, é feito de imprevistos... Não tem rasão alguma de ser, mas é.
—Uma coisa fatal? Tem que ser?
—Sim.
—Permite-me que discorde?
—É teimoso.
—Sou. Já viu alguma discussão dar resultado? O amor é sempre creado por nós. Não amamos senão a pessoa que queremos amar. É, como tudo, um acto voluntario. Ha escolha. Vemos uma mulher, vinte, trinta vezes, sem nos fazer impressão alguma. Um dia ella repara em nós. Se é bonita, elegante, calça no Chapelle e veste na Lippman, pelo menos, a nossa vaidade sente-se satisfeita e começamos a descobrir-lhe encantos, a crear alguns, a afeiçoal-a ao nosso geito. Ao conversar com ella, pomos intensão nas frases ôcas que diz, vemos mysterio{27} no seu sorriso... Estamos presos.—Um bello dia, porém, por qualquer motivo, torna-se util acabar com o pesadello da mulher que aparece em toda a parte: sae das brasas do fogão, a que nos aquecemos, da pagina que lemos, do fumo do cigarro, do papel em branco em que vamos escrever ao nosso procurador. Repara-se um pouco nella. Descobre-se o primeiro defeito. Exageramol-o para o grotesco. E da deusa perfeita tambem as flores e fica uma caração que faz rir.
—Uma theoria...
—Não é, creia. Acontece-me isso duas ou tres vezes por anno. Sabe que ando sempre com uma paixoneta... ou mais. Levo oito dias a fazel-as cair do peito.
—E vive feliz?
—Inteiramente feliz. Saber contentar-se não é a suprema sabedoria? Para que se inventou o flirt?
—O flirt? Que horrivel coisa? É a «sombra chineza» do Amor...
—É melhor. É o perfume. Os delicados contentam-se. É preciso comer uma flor? Não, basta respirar-lhe o aroma. Ora essas conversas, meio sentimentaes, a um canto, ditas em voz baixa, sublinhadas pelos olhos que toda a alma illumina, são como o roçar de azas que fossem flores. Ha o ligeiro premir dos dedos, sob os leques, certos tremores de labios, como se os beijos n'elles esvoaçassem, uma concentração{28} de todo o ser, que parece boiar no ether, leve... As phrases não se arrastam, n'um espasmo. Teem palpitações, lançam-se n'uma curva larga, até desapparecer em estrella. Não conhece o flirt. Todo o ser é livre e vae entregar-se, rendido... Cada palavra toma um sentido misterioso... Vou-lhe contar um flirt... Estava na Suissa.
—Internacional?
—Cosmopolita. N'um d'esses cantos, que ultimamente o Cook estraga, na Engadine. Paisagem de gelo, hotel de gente podre...
—De chic?
—De chic. Conheci uma americana, deliciosa como um fructo acre, que vivia fora da coterie swell. O americano vae-se tornando terrivelmente rasta. Trinta annos? Talvez... Mas trinta annos frescos, sem rugas, viuva depois de dois mezes de escasso matrimonio com um formidavel brasseur d'affaires de New-York, cerebro em ebulição permanente que acabou n'uma neurasthenia aguda. Iamos passear sós, pelo gelo. Sentavamo-nos nos pontos de vista que o Bœdeker não indica, paisagens tristes de tanta brancura, sem uma mancha. Fugiamos dos five-ó-clock, das parties bulhentas em complicada companhia. Comecei a amal-a. Tinhamos lido os mesmos livros, sobre elles fallavamos: gostavamos das mesmas musicas, d'esse Schumann cheio de côr, dolente e envenenado;{29} preferiamos aos flamengos gordurosos e aos hespanhoes sombrios, o delicado misterio dos Vinci, a graça fina e brilhante de Raphael.
A fallar de quadros e de romances, as nossas almas tocavam-se, porque um sentido novo brilhava em cada palavra; e parecia que cada frase terminava n'um beijo. Ás vezes, levemente, as nossas mãos tocavam-se. Era rapido e delicioso. D'esse contacto ficava uma lembrança, como d'um perfume. Amor platonico? Não. Um flirt. Sem arroubamentos. Sempre a Alma livre, sempre o beijo a tremer na bocca, sem cair... Uma ou outra vez, comprehende, por esquecimento...
—Comprehendo. Sem malicia...
—Essa mulher tinha realisado todo o meu sonho! De resto acontece-me isto muitas vezes. O sonho varía com as mulheres que nos interessam. Mas essa parecia realisar tudo. No seu corpo ambiguo, de egipcia, parecia conservar-se, como um fructo no gelo, uma adolescencia eterna. As suas mãos finas, pesadas de tantos anneis em que Vever pozera todo o seu genio estranho, floriam gestos d'uma caricia delicada e terna. A sua alma, que parecia ter visto tudo, ainda sentia a vida com frescura. As horas que passei junto d'ella! O perfume, uma mistura sabia d'Houbigants, então dernier bateau, perturbava... Longe d'ella, não pensava n'outra coisa. Recordava-me dos gestos, os pequenos{30} detalhes da toilette e da conversa, um rosar de pelle sob as rendas, uma palavra, um grain de beauté, que tinha na nuca. Sabe como acabou? Ella propoz-me casar. Fechei-me no quarto, horrorisado. Casar, eu? Uma mulher que me julgava capaz d'isso! Era preciso abater esse amor orgulhoso, que crescia no meu peito. Que defeito tinha ella? A principio não vi nenhum... Fui procurando. Tinha, ás vezes, quando fallavamos em francez, erros de grammatica deliciosos. Comecei a achar ridiculo essa ignorancia. D'ahi passou para os vestidos, para o corpo, o peito chato, sem ancas... Tudo caiu. Essa mulher pareceu-me horrorosa... Comecei a troçar d'ella, do seu bas-bleuismo... Por fim ella resolveu partir. Lembro-me perfeitamente. O gerente do hotel levou-lhe um enorme ramo de bluets, os raros amigos tambem lhe levaram flôres. Todo o carro estava cheio de flôres. Sentou-se entre ellas, afagava-as, cortára algumas para cheirar. Chorára. Ainda me deitou um molho, que tinha beijado. O carro partiu, como se fosse um açafate. E a sua face branca era como uma flôr triste... Não tive pena. O amor já caira. A gente ou gosta ou não gosta, conforme quer.—Vamos fazer um flirt para experimentar?{31}