Buch lesen: "Paginas Archeologicas III - Situação conjectural de Talabriga"
Félix Alves Pereira
Paginas Archeologicas III - Situação conjectural de Talabriga

Publicado pela Editora Good Press, 2022
EAN 4064066409838
Índice de conteúdo
I
II
III
IV
V
VI
VII
VIII
IX
X
XI
XII
XIII
DO AUTOR
ESTUDOS DO ALTO-MINHO (SERIE 1.ª)
PAGINAS ARCHEOLOGICAS (SERIE 2.ª)
Summario
1. Estado da questão.—2. Autores antigos—3. Itinerario—4. Exame do mappa—5. Topographia e onomastico da região—6. Os castros do trajecto da Via—7. Região mineira—8. Localização de Talabriga—9. Opinião de Gaspar Barreiros—10. Geographia arabica—11. Strata maurisca—12. Ria de Aveiro e o Vouga—13. Historia de Talabriga.
I
Índice de conteúdo
Algum tanto sem o presentir, ao fazer o estudo da ara de Estorãos, (Arch. Port., XII, 36) encontrei-me no limiar de um problema que, de modo definitivo, não se resolverá senão com a verificação in loco de vestigios archeologicos incontrastaveis.
É o problema da trajectoria exacta da via romana entre Aeminium e Calem, da qual não se conhecem milliarios decisivos e sufficientes, especialmente da sua passagem por Talabriga.
O assunto, parcialmente considerado, tem sido alvo das principaes referencias na pugna litteraria em que os paladinos de Agueda, de Aveiro e de Coimbra patrioticamente articulavam preeminencias genealogicas, que é da praxe mencionarem-se em monographias locaes, mas que hoje, quanto a Coimbra (e Condeixa-a-Velha) estão sentenciadas, em prejuizo até heraldico de Agueda[1].{8}
Propositadamente, porém, o problema não foi ainda estudado debaixo do seu aspecto geral; apenas por incidente tem sido versada a localização de Talabriga. Não venho com o proposito de o dar como resolvido, é certo; mas desejo englobar neste estudo um certo numero de considerações, que podem preparar o desenlace d'este ponto controvertido da geographia protohistorica da Lusitania, no campo adequado, e quiçá orientar pesquisas.
Onde foi Talabriga? Até hoje nenhum d'estes indices peremptorios que marcam inilludivelmente a situação das antigas cidades, como para Conimbriga (Condeixa-a-Velha), Aeminium (Coimbra), Bracara Augusta (Braga), Olisippo (Lisboa), Pax Julia (Beja), etc., se nos antolha para dar resposta nitida áquella pergunta.
Guiados pelas indicações geographicas do Itinerario e de Plinio, os nossos escritores teem querido alternadamente que Aveiro, Cacia, Esgueira occupem hoje o logar que outrora se chamou Talabriga. De facto, o Itinerario, ao contar as milhas que de Aeminium vão a Calem (Gaia ou Porto?) pela via militar, devia ter especial valor para este problema; mas a comprehensão da necessidade de verificar rigorosamente as indicações d'aquelle documento, a consulta de edições criticas, tomando-se por base a decisão do problema de Aeminium, e talvez o desaffecto de uma ou outra solução é que teem, no meu humilde entender, faltado a todos os autores que mais modernamente do assunto se teem abeirado[2].
II
Índice de conteúdo
A geographia classica não é de todo omissa a respeito d'esta antiga povoação. O testimunho de Plinio, que é o A. mais expresso, vem a ser o seguinte: A Durio Lusitania incipit. Turduli veteres, Paesuri, flumen Vagia[3], Oppidum Talabrica, Oppidum et flumen Aeminium, Oppida Coniumbrica,{9} Collippo, Eburobritium. (C. Plinii Secundi, Nat. Hist., ed. de Detlefsen, IIII, 113). Isto tem o ar de uma sêca enumeração chorographica, que se desdoba do norte para o sul, a contar do Douro, e que, restringida ao nosso caso, nos dá esta sequencia:
a) rio Vouga;
b) cidade de Talabrica;
c) cidade e rio de Aeminio (Coimbra);
d) e as cidades de Conimbrica (Condeixa),
e) Collippo (Leiria) e
f) Eburobricio (Obidos, Vejam-se Relig. da Lusit., II, 31).
Se não fôr certo, como não me parece, que Vouga é ao norte de Talabriga e este oppido ao sul do mesmo rio, pelo menos conclue-se que Talabriga vizinha de um lado ou outro aquelle estuario.
Não trago nenhum outro autor antigo, porque elles não adeantam o problema chorographico. Na Cosmografia de Ravennate (ed. de Pinder & Parthey, p. 307) Talabrica apparece transformada em Terebrica e fica na seguinte localização relativa: Olisipona—Terebrica—Langobrica—Cenoopido—Calo...
III
Índice de conteúdo
Vamos pois ao Itinerario[4] e á discussão das suas indicações. Encontra-se nelle, que nos sirva:
| Eminio | mp. X | |
| Talabriga | mp. XL | (= 59:240 metros) |
| Langobriga | mp. XVIII | (= 26:658 » ) |
| Calem | mp. XIII | (= 19:253 » ) |
| 105:151 » |
A equivalencia que sigo é a de 1 milha = 1:481 metros (Saglio & Daremberg, s. v. Milliarium).
A trajectoria d'esta via desde Coimbra (Aeminium) a Gaia (Calem) deixaria de ser ponto controverso se, como succede noutras estradas romanas, alguns milliarios sobreviventes escalonassem os seus vestigios.{10}
Não ha porém, neste particular, mais que isto:
1.º Um fragmento de milliario com 2m,04 de alto X 1m,40 de circuito, que appareceu na Mealhada ao norte de Coimbra e só tem M.XII.
2.º Outro que foi encontrado mesmo em Coimbra e aponta M.IIII.
Nem aquelle nem muito menos este servem ao meu intento; o traçado litigioso no nosso caso é para norte da Mealhada e Anadia, e não entre Mealhada e Coimbra. (Vid. Borges de Figueiredo, Oppida restituta, p. 82; Hübner, Notas archeologicas sobre Portugal, p. 67, trad. cit.: Catalogo dos objectos existentes no Museu de Archeologia do Instituto de Coimbra, p. 6; A. Filipe Simões, Escritos diversos, 1883).
3.º Um pretenso milliario descrito por Fr. Bernardo de Brito na Monarchia Lusitana, II, V, p. 3. Este vicio de origem obriga-me a pôr ainda de parte este monumento como comprobativo da directriz; Hübner fulmina-o com a sua desconfiança (Corpus, II, 55 a *) dizendo que Brito queria demonstrar com elle a existencia de Vacua. Não lhe darei porém eu maior valor que o proprio monge, que, como por prevenção, confessa que as letras da pedra eram «mal distinctas e muy quebradas». Assim a sua interpretação deve desinteressar-nos, visto que não ha meio de contraprovar a leitura de Fr. Bernardo de Brito, duvidosa para elle proprio. Para este, a lapide era porém um padrão de estrada, o que pouco vale por entretanto para nós; mas provinha do Castello de S. Gião, ao que parece, castro rico em ruinas de muros, etc. Isto, cuja importancia só modernamente se aprecia, é que não se inventa e dá visos de que com effeito alguma cousa lá pudera ter apparecido. Mas Brito, com o dizer que a lapide era padrão de estrada, contrariava sem o advertir a propria crença de que a via romana seguia pela beiramar e Talabriga era em Aveiro. (Mon. Lusit., id., p. 130).
Não obstante, ponha-se de parte a exactidão da epigraphe do supposto, mas rehabilitavel, milliario do castro de S. Gião, e fique, provisoriamente, apenas um facto—o achado de um padrão de via romana num castro das margens do Caima.
A opinião de que Aveiro fôra o assento da antiga estação do Itinerario tinha ainda por si, alem do mappa de Abr.ão Ortelius (Theatrum orbis terrarum, Antuerpia, CIC.IC.CIII) o pensar de Florez (España Sagrada, tomo XIV, p. 73), que lêra Plinio e uma edição antiga do Itinerario romano. E póde dizer-se que foi essa a corrente que dominou até hoje, se com Aveiro abrangermos o aro circunjacente. (Vejam-se Adolfo Loureiro. Os portos maritimos de Portugal, II, p. 3; Marques Gomes, Districto de Aveiro, onde restringe[5] a Cacia o ubi de Talabriga;{11} Borges de Figueiredo, Oppida restituta, 1885; Pinho Leal, Portugal Antigo e Moderno, s. v. Aveiro; Gaspar Barreiros, Chorographia de alguns lugares; D. Nunes de Leão, Descripção do reino de Portugal; Francisco do Nascimento Silveira, Mappa breve da Lusitania antiga, etc.)[6].
Regressemos porém ao Itinerario, e vejamos se será possivel concluir algo que um dia a pesquisa e exploração persistente do archeologo possa contraprovar. É o meu sonho.
Que a medição total do Itinerario relativa á via ab Aeminio Calem está notavelmente exacta, demonstra-o esta verificação facil: a somma das milhas que se contaram de Eminio a Gaia, reduzida a kilometros, (unidade mais pratica e mais exacta que a de leguas, até agora adoptada) era de 105:151 metros, como vimos; a distancia computada actualmente na Carta do Estado Maior d'esta região pela directriz da estrada real é de 105:100 metros[7]. Não podendo ser mais breve a distancia d'esta estrada, como se verifica olhando os traçados rectificados ao lado do mappa junto, em que a distancia em linha recta e a rectificação exacta da extensão effectiva da estrada fazem pequena differença, o que mostra que os desniveis ou as inflexões do traçado são assaz reduzidos, conclue-se que a via romana, desde que marca igual extensão kilometrica, não poderia seguir caminho mais longo que ella, nem portanto muito distanciado d'ella.
Esta coincidencia de medições é suggestiva e não permittiria, só por si, que a trajectoria da via romana e da actual estrada real divergissem{12} muito. Se esta desenhasse uma inflexão pronunciada no seu trajecto de Coimbra a Gaia, claro é que era possivel, sem exceder a mesma extensão, encontrar outra curva symetrica que tocasse em pontos intermedios diversos e afastados, e coincidisse apenas nos respectivos extremos, o que nada util me seria; mas nas circunstancias que se dão e já salientei, e que me permittiram estudar sobre uma carta este problema, a coincidencia effectiva das duas vias de communicação deve em grande parte quasi corresponder á coincidencia theorica, agora expendida.
Isto oppõe-se a que a via romana passasse em Aveiro, ponto muito afastado e divergente do trajecto theorico[8].
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