Buch lesen: "Unidos pela paixão"

Editado por Harlequin Ibérica.
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28001 Madrid
© 2017 Caitlin Crews
© 2020 Harlequin Ibérica, uma divisão de HarperCollins Ibérica, S.A.
Unidos pela paixão, n.º 1833 - setembro 2020
Título original: A Baby to Bind His Bride
Publicado originalmente por Harlequin Enterprises, Ltd.
Reservados todos os direitos de acordo com a legislação em vigor, incluindo os de reprodução, total ou parcial. Esta edição foi publicada com a autorização de Harlequin Books S.A.
Esta é uma obra de ficção. Nomes, carateres, lugares e situações são produto da imaginação do autor ou são utilizados ficticiamente, e qualquer semelhança com pessoas, vivas ou mortas, estabelecimentos de negócios (comerciais), feitos ou situações são pura coincidência.
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Imagem de portada utilizada com a permissão de Harlequin Enterprises Limited. Todos os direitos estão reservados.
I.S.B.N.: 978-84-1348-492-1
Conversão ebook: MT Color & Diseño, S.L.
Sumário
Créditos
Capítulo 1
Capítulo 2
Capítulo 3
Capítulo 4
Capítulo 5
Capítulo 6
Capítulo 7
Capítulo 8
Capítulo 9
Capítulo 10
Capítulo 11
Capítulo 12
Capítulo 13
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Capítulo 1
– Chamam-lhe o Conde – disse o homem, mal-humorado, enquanto entravam cada vez mais profundamente no bosque. – Nunca pelo seu nome, sempre o Conde. Mas tratam-no como um deus.
– Um deus real ou um deus falso? – perguntou Susannah Betancur. Como se aquilo fizesse alguma diferença. Se o Conde era o homem que procurava, certamente, não.
O seu guia lançou-lhe um olhar.
– Não acho que isso seja muito importante na colina, senhora.
Susannah achava que a colina se parecia mais com uma montanha, mas tudo nas Montanhas Rochosas americanas parecia feito a grande escala. A sua impressão do Oeste Selvagem era a de uma expansão interminável de montanhas impressionantes cheias de árvores de folha perene e nomes pitorescos, como se o esplendor que surgia em todas direções pudesse conter-se chamando ao pico mais alto da zona o Pequeno Topo.
– Que estranho – murmurou Susannah, entredentes, enquanto tentava não escorregar para não perder a distância que ganhara a subir.
Além disso, estava com falta de ar. O seu amigo, o guia, levara-a o mais longe que podia no que devia ser uma estrada nos bosques remotos do Idaho. Mas era um caminho poeirento que entrava na montanha. Depois, parou e disse-lhe que tinham que percorrer o resto do caminho a pé, o que menos apetecia a Susannah depois de ter viajado até lá das colinas mais civilizadas do seu lar situadas do outro lado do mundo, em Roma.
Porque, embora Susannah não fosse uma grande caminhante, era a viúva Betancur, quer gostasse, quer não. Não tinha outro remédio senão passar por aquilo.
Concentrou-se em pôr uma bota à frente da outra, consciente de que não tinha a roupa adequada para uma aventura ao ar livre. Ao contrário de todas as pessoas que vira desde que o jato privado dos Betancur aterrara no meio do nada, Susannah vestia-se de preto dos pés à cabeça para anunciar imediatamente o seu estado de luto permanente. Era a sua tradição. Naquele dia, usava um casaco de caxemira por cima de um vestido de inverno de lã de ovelha e botas altas enganadoramente robustas, porque esperava que estivesse frio, mas não esperava ter de subir montanhas com elas.
No entanto, por muito desafiante que fosse, nenhuma montanha podia comparar-se com as intrigas da sua vida complicada e da corporação multinacional Betancur que estivera sob o seu controlo, pelo menos, no papel, durante os últimos anos, porque se recusara a deixar que os outros ganhassem: A família, a família do falecido marido e o conselho da direção. Todos achavam que podiam passar por cima dela como um rolo compressor.
Vestia-se sempre de preto em público desde o funeral, porque, assim, mantinha a distinção duvidosa de ser a jovem viúva de um dos homens mais ricos do mundo. Susannah tinha a impressão de que aquele preto eterno passava a mensagem adequada a respeito da sua intenção de continuar de luto indefinidamente, por muito diferente que fosse a intenção dos seus pais conspiradores e da família do marido.
Tinha a intenção de continuar a ser a viúva Betancur durante muito tempo. Sem nenhum novo marido para pegar nas rédeas e ter o controlo, por muito que a pressionassem para que voltasse a casar-se.
Era a sua prerrogativa vestir-se de preto para sempre, porque ser viúva a mantinha livre.
A menos que Leonidas Cristiano Betancur não tivesse morrido realmente há quatro anos naquele acidente de avião e fora precisamente para descobrir isso que Susannah atravessara o planeta.
Leonidas dirigia-se para um rancho remoto naqueles mesmos bosques para se encontrar com uns potenciais investidores para um dos seus projetos favoritos quando a sua avioneta caíra naquele terreno de milhares de hectares de bosque nacional praticamente impenetrável. Nunca tinham encontrado o corpo, mas as autoridades estavam convencidas de que a explosão fora tão grande que todas as provas tinham ardido.
Susannah não tinha assim tanta certeza. Ou talvez fosse mais apropriado dizer que cada vez estava mais convencida de que o que acontecera ao marido, logo na sua noite de núpcias, não fora um acidente.
Aquilo levara a vários anos de investigações privadas e a ver muitas fotografias imprecisas de homens morenos e sérios que nunca eram Leonidas. Anos a fazer de Penélope com os seus pais conspiradores e os seus sogros igualmente astutos, como se fosse algo saído da Odisseia. A fingir estar tão afetada com a morte de Leonidas que não era capaz de suportar a conversa sobre quem seria o seu próximo marido.
Quando a verdade era que não estava devastada. Mal conhecia o filho mais velho dos amigos da família com quem os pais tinham organizado um noivado quando era muito jovem. Susannah alimentara fantasias adolescentes como qualquer pessoa teria feito com a sua idade, mas Leonidas destruíra-as quando lhe dera uma palmadinha na cabeça no casamento como se fosse um cachorrito e, depois, desaparecera a meio da celebração porque tinha uma chamada de trabalho.
– Não sejas tão autoindulgente, Susannah – queixara-se a mãe, friamente, quando Susannah ficara ali parada naquela noite, abandonada com o vestido de noiva e a tentar não chorar. – As fantasias e os contos de fadas são para as crianças. Agora, és a esposa do herdeiro da fortuna Betancur. Sugiro que aproveites a oportunidade para decidir que tipo de esposa queres ser, uma princesa mimada fechada num dos castelos Betancur ou uma força a ter em conta?
Antes de amanhecer, espalhara-se a notícia de que Leonidas desaparecera. E Susannah decidira ser a força durante aqueles últimos quatro anos. Passou de ser uma jovem protegida e ingénua de dezanove anos a uma mulher que tinham sempre de ter em conta. Decidira ser mais do que uma mulher troféu e demonstrara-o.
E era por isso que estava ali, na ladeira de uma montanha de que só ouvira falar em termos vagos, a seguir a pista de um homem cuja descrição coincidia com a de Leonidas e que se dizia que era o líder de uma seita local.
– Não é exatamente uma seita do dia do juízo final – disse o detetive, nas águas-furtadas de Roma em que Susannah vivia, pois era a mais próxima das propriedades do marido da sede principal europeia da Corporação Betancur e gostava de estar por perto.
– O que é que essa distinção importa? – perguntou, tentando parecer distante e sem se afetar com as fotografias que tinha na mão. Imagens de um homem com o cabelo branco e mais comprido do que Leonidas alguma vez usara, mas com o mesmo olhar desumano e sombrio. A mesma figura atlética, com cicatrizes novas que teriam sentido em alguém que sofrera um acidente de avioneta.
Leonidas Betancur em pessoa. Susannah poderia tê-lo jurado.
E a sua reação apanhou-a de surpresa, onda após onda, enquanto tentava sorrir para o detetive.
– A distinção só importa no sentido em que, se for até lá, seja pouco provável que a raptem ou a matem, signora – explicou o homem.
– Então, ótimo – replicou Susannah, com outro sorriso frio.
No entanto, por dentro, tudo continuava a dar voltas, porque o marido estava vivo. «Vivo.»
Não conseguia evitar pensar que, se Leonidas formara uma seita, contava, sem dúvida, com o melhor exemplo: As águas infetas da Corporação Betancur, o negócio familiar que os tornara tão asquerosamente ricos que pensavam que podiam fazer coisas como derrubar os aviões de herdeiros desobedientes e descontrolados quando lhes desse jeito.
Susannah aprendera muito durante aqueles quatro anos a mexer-se nessas mesmas águas. Sobretudo porque, quando os Betancur queriam alguma coisa, por exemplo, Leonidas fora de jogo num acordo que proporcionaria muito dinheiro à empresa, mas que o seu marido não queria finalizar, então, encontravam uma forma de o conseguir.
Ser a viúva Betancur evitava todas aquelas intrigas a Susannah. Mas havia algo melhor do que ser a viúva de Leonidas Betancur, pensava. E isso era fazer o marido voltar de entre os mortos.
Podia gerir o seu maldito negócio sozinho e Susannah poderia recuperar a vida que não sabia que queria quando tinha dezanove anos. Poderia divorciar-se calmamente e ser livre como o vento no seu vigésimo quarto aniversário, livre de todos os Betancur e muito melhor preparada para enfrentar os pais.
Seria livre. E ponto final.
Atravessar o planeta para entrar nos bosques do Idaho era pagar um preço pequeno pela sua liberdade.
– Que tipo de líder é o Conde? – perguntou Susannah, agora irritada, concentrando-se no terreno abrupto enquanto seguia o seu guia. – Benevolente ou o contrário?
– Não saberia dizer – murmurou o homem, entredentes. – Para mim, é uma seita como qualquer outra.
Como se houvesse dúzias por ali. E talvez fosse assim. Em qualquer caso, não importava, porque tinham chegado ao acampamento que procuravam.
Primeiro, não havia mais do que bosque e, um instante depois, umas portas grandes davam para uma clareira pequena com um portão pouco acolhedor e muitos cartazes a avisar os intrusos de que deviam ir-se embora ou lidar com as consequências.
– Fico aqui – declarou o seu guia.
Susannah nem sequer sabia o seu nome. E desejou que entrasse com ela, já que a levara até ali. Mas aquele não era o acordo.
– Entendo.
– Espero ao lado da carrinha até ter de descer a colina – continuou o homem. – Entraria consigo, mas…
– Entendo – repetiu ela, já lhe explicara tudo antes. – Tenho de fazer o resto sozinha.
Aquela era a parte que mais a assustava, mas todos estavam de acordo. Não era possível que Susannah entrasse num acampamento longínquo rodeada de guardas de segurança dos Betancur quando, certamente, o marido estava a esconder-se do mundo. Não podia entrar com o seu pequeno exército, noutras palavras.
Susannah decidiu não pensar demasiado no que estava a fazer. Lera muitos livros de terror quando estava fechada no internato suíço em que os pais tinham insistido que passasse a adolescência e todos eles estavam a surgir na sua mente naquela tarde.
Contudo, pensar nos riscos não ajudava. A única coisa que queria, a única coisa que sempre quisera, fora descobrir o que acontecera a Leonidas.
Porque a verdade triste era que talvez fosse a única que se importava. E pensou que só se importava porque, se o encontrasse, seria livre.
Susannah dirigiu-se para as portas. Sentia um arrepio na pele com cada passo que dava. Havia câmaras de vídeo a apontar para ela, mas algo a preocupava mais do que a vigilância. Os francoatiradores. Era pouco provável que alguém construísse uma fortaleza no bosque como a que tinha à sua frente e não tivesse a intenção de a defender.
– Não dê nem mais um passo!
Susannah não via de onde saía a voz exatamente, mas parou de qualquer forma. E levantou as mãos.
– Vim ver o Conde – disse, no silêncio frio que a rodeava.
Não aconteceu nada. Durante um instante, Susannah pensou que não ia acontecer nada. Mas, então, abriu-se muito devagar uma porta pequena situada ao lado das portas enormes da entrada.
Susteve a respiração. Um homem saiu pela porta, mas não era Leonidas. Era muito mais baixo do que o marido que ela perdera e tinha uma semiautomática alarmante pendurada ao ombro e uma expressão claramente hostil na cara.
– Tem de sair da nossa montanha – avisou, brandindo a arma para ela.
Observava-a com o sobrolho franzido enquanto falava. Para a roupa. Susannah percebeu, depois de um instante, que não estava vestida para assaltar um acampamento. Nem para andar pelo bosque, de facto.
– Não tenho nenhum desejo em particular de estar nesta montanha – declarou, irritada. – Só quero ver o Conde.
– O Conde vê quem quer ver e nunca porque lho pedem. – A voz do homem tremeu de devoção. E de fúria, como se não conseguisse acreditar na temeridade de Susannah.
Ela inclinou a cabeça na sua direção.
– Vai querer ver-me.
– O Conde é um homem ocupado – murmurou o homem. – Não tem tempo para mulheres desconhecidas que aparecem do nada como se estivessem a suplicar que lhes dessem um tiro.
– Não quero que me deem um tiro – afirmou Susannah, com mais nervosismo do que mostrou. – Mas o Conde vai querer ver-me, tenho a certeza.
Não tinha. O facto de Leonidas se ter fechado naquele lugar e se fazer chamar de forma tão ridícula sugeria que não tinha nenhum desejo de ser localizado. Nunca. Mas não ia falar do assunto com um dos seus seguidores. Portanto, experimentou um sorriso frio.
– Porque não me leva até ele? Poderá dizer-lhe.
– Menina, não vou dizer-lhe outra vez. Vá-se embora. Saia desta colina e nunca mais volte.
– Não vou fazer isso – declarou Susannah, com a firmeza que aprendera a desenvolver nos últimos anos. Como se esperasse que as suas ordens fossem obedecidas sem ser questionadas. Como se fosse o próprio Leonidas em vez da jovem viúva que todos sabiam que nunca devia ter ficado com o controlo de nada e muito menos de toda aquela fortuna.
Porém, Susannah fizera exatamente o que a mãe lhe dissera. Ficara com o apelido de Leonidas e com a sua autoridade. Confundira as pessoas da corporação que o marido deixara para trás utilizando a atitude.
– Tenho de ver o Conde. Isso é inegociável. Faça o que tiver de fazer para isso.
– Oiça, menina…
– Ou pode dar-me um tiro – sugeriu Susannah, com frieza. – Mas essas são as duas únicas opções possíveis.
O homem pestanejou como se não soubesse o que fazer. Susannah não podia culpá-lo. Ela não se acovardara. Não lhe dera nenhuma indicação de que não estivesse completamente tranquila. Limitara-se a ficar onde estava como se estar no meio de uma montanha do Idaho fosse o mais normal do mundo.
Observou fixamente para o homem até ficar claro que era ele que estava incomodado.
– Quem raios é? – perguntou o homem, finalmente.
– Ainda bem que pergunta – disse Susannah. E, dessa vez, o seu sorriso era menos frio. Parecia uma arma que aprendera a disparar durante aqueles últimos quatro anos. – Sou a esposa do Conde.
Capítulo 2
O conde não tinha esposa.
Pelo menos, que ele recordasse. Mas aquele era o problema com tudo, não era? Naqueles dias, incomodava-o mais que houvesse tantas coisas que não recordava.
Havia mais coisas que não conseguia recordar do que o contrário. E todas tinham acontecido nos últimos quatro anos.
Os seus seguidores contavam histórias de como tinham encontrado aquele lugar. Como cada um deles chegara, subindo a montanha e demonstrando que eram dignos de estar ali. Falavam do que tinham deixado para trás. As pessoas, os lugares. Os sonhos e expectativas.
No entanto, a única coisa que o Conde conhecia era aquele acampamento.
A sua primeira lembrança era de quando acordara nos aposentos grandes que ainda ocupava. Estava magoado, quebrado. Demorara muito tempo a recuperar algo parecido com a saúde. Sentar-se e, depois, levantar-se. Mais tarde, começara a andar lenta e dolorosamente. E quando, finalmente, pôde andar sozinho, tinha a sensação de que o seu corpo não era como antes. Embora só pudesse imaginar.
Demorara quase dezoito meses a sentir-se mais ou menos normal. E outros dezoito a perceber que, por muito que tentasse, não sabia realmente o que era «normal».
Porque continuava sem conseguir lembrar-se de nada que não fosse aquele lugar.
As pessoas diziam que estava destinado. Que tudo fazia parte do mesmo plano glorioso. Encontravam-se para rezar e, então, aparecera um líder no mesmo bosque em que viviam. Fim do assunto.
O Conde concordara porque não tinha nenhuma razão para não o fazer.
Certamente, sentia-se como um líder. Sentia-se assim desde que abrira os olhos. Quando dava uma ordem e as pessoas a cumpriam, não era novo para ele, mas profundamente familiar.
Não costumava partilhar com ninguém como gostava quando as coisas lhe eram familiares. Parecia-lhe aproximar-se demasiado de admitir algo que não queria.
Todos os seus desejos eram atendidos. As pessoas reuniam-se para o ouvir falar. Preocupavam-se com a sua saúde. Alimentavam-no, vestiam-no e seguiam-no. O que mais é que um homem podia desejar?
E, no entanto, havia uma mulher no acampamento que garantia ser a sua esposa. O Conde sentia-se como se algo que não soubesse que tinha se abrisse de repente.
– É muito insistente – disse Robert, o seu conselheiro mais próximo. – Diz que está à tua procura há algum tempo.
– Mas não tenho esposa – replicou o Conde. – Não lho disseste desde o começo?
Robert era o único que estava ao seu lado naquele momento a ver a mulher em questão através dos monitores que tinham à sua frente. O Conde esperou para ver se sentia alguma coisa familiar. Esperou para ver se a conhecia, mas, como tudo na sua vida, não havia conhecimento. Não havia lembranças.
Às vezes, dizia às pessoas que agradecia ser uma tela em branco. Mas havia outras vezes, como aquela, em que as coisas que não sabia e não sentia o perseguiam como uma tempestade de inverno.
– Claro que não tens esposa – replicou Robert, escandalizado. – Esse não é o teu caminho. Isso é para homens vulgares.
Aquele era um lugar de pureza. Era uma das poucas coisas que sempre tinham estado claras para o Conde e era muito útil que nunca tivesse sentido a tentação de se desviar do caminho. Homens e mulheres praticavam a mesma pureza radical do que ele, a menos que tivessem dispensa por serem casados, ou iam-se embora.
Porém, durante todo aquele tempo, quando o Conde olhava para uma mulher, não sentira nada senão aquela pureza.
Até agora.
Demorou um instante a perceber o que estava a acontecer-lhe e supôs que devesse sentir-se horrorizado. Mas não foi assim. O desejo atravessou-o como um velho amigo e não soube porquê, mas não houve nenhum alarme de aviso. Pensou que a tentação era boa, como se fosse mais poderoso pelo facto de a vencer. Pensou que aquilo era apenas um teste.
A mulher que ocupava os ecrãs parecia impaciente. Aquilo era a primeira coisa que a diferenciava das mulheres que viviam ali. E mais do que isso, parecia… frágil. Não era curtida como as pessoas dali, nem pronta para qualquer eventualidade. Parecia suave.
O Conde não soube porque queria tocar nela para ver se era tão suave como parecia.
Vestia uma roupa que não tinha sentido para ele no topo da montanha. Não recordava ter estado noutro sítio, é claro, mas sabia que havia um mundo lá fora. Tinham-lhe dito. E aquela vestimenta preta e sedosa fê-lo pensar em cidades.
E, quando o fez, foi como se todas surgissem na sua mente como um catálogo de viagens: Nova Iorque. Londres. Xangai. Nova Deli. Berlim. Cairo. Auckland.
Como se tivesse estado em todas e cada uma delas.
Afastou aquele pensamento e observou a mulher. Tinham-na levado para o interior do acampamento, para uma sala fechada a que nunca tinham chamado calabouço. Mas era. Só tinha um sofá velho, uma casa de banho atrás de um biombo e câmaras nas paredes.
Se a mulher estava tão incomodada como os últimos três agentes que tinham ido visitá-los, não se notava. Estava sentada no sofá como se nada fosse. Tinha o rosto perfeitamente tranquilo e os olhos azuis serenos. Parecia serena e isso chamou-lhe a atenção sobre o facto de ser bonita de um modo quase incompreensível.
Não era que tivesse muitas mulheres com que pudesse compará-la. Mas, de certo modo, o Conde soube que, se pusesse todas as mulheres do mundo que não conseguia recordar em fila, continuaria a achar aquela espetacular.
Tinha as pernas compridas e bem torneadas, mesmo com as botas, e cruzava-as com decoro como se não tivesse percebido que estavam manchadas de lama. Usava um único anel na mão esquerda que captava a luz quando se mexia. A sua boca chamou-lhe a atenção de um modo que não conseguia entender, criando uma espiral de desejo no seu interior que não sabia bem se achava agradável. Para desviar a atenção, concentrou-se no cabelo loiro brilhante que apanhara na nuca de um modo complicado.
«Um coque baixo», pensou.
Era um conceito que não conhecia. Mas era o termo apropriado para descrever como se penteava.
– Trá-la cá – pediu, antes de pensar melhor.
– Não é a tua esposa – repetiu Robert, fazendo uma careta. – Tu não tens esposa. És o Conde, o líder do caminho glorioso e a resposta para todas as perguntas dos crentes.
– Sim, sim. – O Conde abanou a mão. Robert não sabia se aquela mulher era a sua esposa. E ele também não. Porque não era possível que o Conde tivesse surgido do nada no meio de uma labareda, como todos diziam. Sabia isso desde o começo. Se tivesse aparecido um dia num arrebatamento de glória, não teria precisado de tanto tempo para recuperar, pois não?
Contudo, aprendera que era melhor não comentar aqueles mistérios da fé em público. O que sabia era que, se chegara de algum outro lado, isso significava que tinha uma vida anterior. Fosse onde fosse. E, se aquela mulher dizia que o conhecia, talvez pudesse ser uma fonte de informação. O que o Conde mais desejava era informação.
Não esperou para ver se Robert obedecia. Sabia que o faria porque todos o faziam. O Conde saiu da sala de vigilância e dirigiu-se para o acampamento. Conhecia-o perfeitamente, cada sala e cada parede construída com troncos. As lareiras de pedra e os tapetes grossos do chão. Nunca pensara para além daquele lugar, porque tudo o que queria estava ali. A montanha dava e os seguidores recebiam, era assim que funcionava.
Sidney. São Petersburgo. Vancouver. Oslo. Roma.
Porque conseguia «ver» tantos lugares de repente? Lugares não esculpidos em pedra e escondidos naquelas montanhas em que só se viam árvores em todas as direções.
Dirigiu-se para os seus próprios aposentos, que eram separados dos outros quartos onde o resto das pessoas dormia. Manteve uma expressão fechada enquanto andava, como se estivesse a comunicar com o Espírito, tal como pensavam que fazia e, assim, evitou que se aproximassem.
Quando chegou aos seus aposentos, esperou na sala exterior. Quando recuperara os sentidos assim que chegara, rejeitara a austeridade daqueles aposentos. Pareciam-lhe uma prisão, ainda que, de certo modo, soubesse que nunca tinha estado numa. Mas, agora, preferia-os aos quartos relativamente mais acolhedoras do outro lado da porta. Paredes brancas. Mobiliário mínimo. Nada que distraísse um homem do seu propósito.
Na sua consciência, ficava o facto de nunca ter conseguido sentir a determinação que todos presumiam que tinha.
Não teve de esperar muito até lhe trazerem a mulher. E, quando chegou, a austeridade das paredes fez com que o impacto da sua roupa preta fosse muito mais enérgico em comparação. Era tudo branco. A roupa que ele usava, larga e fluida. As paredes, a madeira do chão, até a cadeira em que se sentava, que parecia um trono de marfim.
E ali estava aquela mulher no meio de tudo com roupa preta, olhos azuis e joelhos firmes. Aquela mulher que o observava com os lábios ligeiramente entreabertos e um brilho nos olhos que não era capaz de definir.
Aquela mulher que dizia ser a sua esposa.
– Eu não tenho esposa – declarou, quando os seus seguidores se foram embora e os deixaram sozinhos. – O líder não tem esposa. O seu caminho é puro.
O Conde ocupava a única cadeira da sala. Mas, se a mulher se incomodava de estar ali de pé à frente dele, não se notou. De facto, o seu rosto refletia algo mais parecido com o espanto.
– Estás a brincar, não é?
Foi a única coisa que disse. Foi um sussurro áspero, mais nada. E o Conde deu por si fascinado com os seus olhos. Eram de um azul impressionante que o fazia pensar nos verões da montanha.
– Eu não brinco – disse. Ou, pelo menos, era o que achava. Pelo menos, não ali.
A mulher que tinha à sua frente respirou fundo como se estivesse a fazer um grande esforço físico.
– Durante quanto tempo tencionas esconder-te aqui? – quis saber, como se estivesse zangada.
O Conde não conseguiu pensar em nenhuma razão para que estivesse zangada.
– Em que outro sítio haveria de estar? – Inclinou ligeiramente a cabeça enquanto a observava, tentando encontrar sentido para a emoção que percebia nela. – E não estou a esconder-me. Esta é a minha casa.
Ela deixou escapar uma gargalhada breve, mas carente de humor. O Conde franziu o sobrolho, algo que nunca fazia.
– Tens muitas casas – assegurou ela, num tom que pareceu um pouco rude. – Gosto das águas-furtadas de Roma, mas o vinhedo da Nova Zelândia também não lhes fica atrás. A ilha do Pacífico Sul. A casa de Londres ou a villa grega. Ou todos os hectares de terreno que a tua família tem no Brasil. Tens muitas casas em todos os continentes possíveis, isso é o que quero dizer, e nenhuma delas é um manicómio nas montanhas do Idaho.
– Um manicómio? – repetiu ele. Aquela era outra palavra que não conhecia, mas que lhe pareceu familiar assim que ela a pronunciou.
– Isto é uma espécie de quarto de hospital? – perguntou a mulher, cruzando os braços. – Isto foi um retiro de saúde mental de quatro anos longe das tuas responsabilidades? – fixou o olhar azul no dele. – Se sabias que ias fugir assim, porque te incomodaste em casar-te comigo? Porque não fizeste o teu ato de desaparecimento antes do casamento? Suponho que imagines como tive de lutar durante este tempo. O que te fiz para merecer que me deixasses sozinha no meio de toda aquela confusão?
– Estás a falar comigo como se me conhecesses – disse o Conde, num tom baixo e grave.
– Não te conheço. Por isso é pior. Se querias castigar alguém com a tua empresa e a tua família terrível, porque me escolheste? Tinha dezanove anos. Não devia surpreender-te saber que tentaram comer-me viva.
Havia algo agudo dentro dele, como vidro partido, e cortava-o com cada palavra que aquela mulher dizia. Levantou-se.
– Eu não te escolhi. Não me casei contigo. Não sei quem és, mas eu sou o Conde – assegurou, levando as mãos ao peito.
– Tu não és um conde – contradisse ela. – A tua família sempre gostou da aristocracia, mas não tem nenhum título.
A cabeça do Conde dava voltas e doíam-lhe as têmporas. Não havia nenhuma razão para que atravessasse a divisão com os pés descalços para se abater sobre ela, mas a mulher devia ter-se assustado. Se fosse algum dos seus seguidores, ter-se-ia precipitado para os seus pés, suplicando clemência. Mas ela ergueu o queixo e olhou para ele nos olhos como se não percebesse que era bastante mais alto.
– Se fosse a ti, teria muito cuidado com o modo como falas comigo – avisou.
– Qual é o sentido desta farsa? – quis saber ela. – Sabes que não acredito. Sei perfeitamente quem és e nenhuma ameaça mudará esse facto.
– Isto não foi uma ameaça, mas um aviso. E deves saber que a minha gente não tolerará a tua atitude.
– A tua gente? – A mulher abanou a cabeça como se aquilo não tivesse sentido. – Se te referes à seita que está do outro lado da porta, não acho que penses que são mais do que acessórios de um crime.
– Eu não cometi nenhum crime – defendeu-se, sem saber porquê.
Nada na sua memória o preparara para aquilo. As pessoas não discutiam com ele nem lhe faziam acusações. Todos no acampamento o adoravam. Nunca antes estivera na presença de alguém que não o idolatrasse. E era revigorante em certo sentido. Reconhecia o desejo, mas surpreendia-se com a forma que ganhara. Queria afundar as mãos no seu cabelo bem penteado. Queria saborear aquela boca que se atrevia a dizer semelhantes coisas.
– Segundo parece, desapareceste da cena de um acidente – continuou a mulher, sem indício de medo. – Toda a tua família acha que estás morto. Eu também achava. E, no entanto, aqui estás, bem vivo e vestido de branco. Escondido nas montanhas enquanto a confusão que deixaste para trás se complica mais com cada dia que passa.
O Conde não pôde evitar aproximar-se dela e agarrar-lhe os braços.
– Eu sou o Conde – insistiu, com um certo desespero. – O caminho…
– Eu sou a Susannah Forrester Betancur – interrompeu ela. Em vez de se afastar dos seus braços, aproximou-se mais e pôs-se em bicos dos pés de modo a que a sua cara ficasse muito mais perto da dele. – A tua esposa. Casaste-te comigo há quatro anos e deixaste-me na noite de núpcias. Não és o conde de nada. És o Leonidas Cristiano Betancur, herdeiro da Corporação Betancur. Isso significa que tens tanto dinheiro e és tão poderoso que alguém, certamente, algum membro da tua família, deve ter causado o acidente de avioneta para se livrar de ti.