Buch lesen: "Escândalo na realeza"

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Editado por Harlequin Ibérica.

Uma divisão de HarperCollins Ibérica, S.A.

Núñez de Balboa, 56

28001 Madrid

© 2019 Caitlin Crews

© 2021 Harlequin Ibérica, uma divisão de HarperCollins Ibérica, S.A.

Escândalo na realeza, n.º 111 - março 2021

Título original: His Two Royal Secrets

Publicado originalmente por Harlequin Enterprises, Ltd

Reservados todos os direitos de acordo com a legislação em vigor, incluindo os de reprodução, total ou parcial.

Esta edição foi publicada com a autorização de Harlequin Books S.A.

Esta é uma obra de ficção. Nomes, carateres, lugares e situações são produto da imaginação do autor ou são utilizados ficticiamente, e qualquer semelhança com pessoas, vivas ou mortas, estabelecimentos de negócios (comerciais), feitos ou situações são pura coincidência.

® Harlequin, Sabrina e logótipo Harlequin são marcas registadas propriedades de Harlequin Enterprises Limited.

® e ™ são marcas registadas por Harlequin Enterprises Limited e suas filiais, utilizadas com licença.

As marcas em que aparece ® estão registadas na Oficina Española de Patentes y Marcas e noutros países.

Imagem de portada utilizada com a permissão de Harlequin Enterprises Limited.

Todos os direitos estão reservados.

I.S.B.N.: 978-84-1375-253-2

Conversão ebook: MT Color & Diseño, S.L.

Sumário

Créditos

Capítulo 1

Capítulo 2

Capítulo 3

Capítulo 4

Capítulo 5

Capítulo 6

Capítulo 7

Capítulo 8

Capítulo 9

Capítulo 10

Capítulo 11

Capítulo 12

Capítulo 13

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Capítulo 1

«A única coisa que importa é a linha de sangue, a linhagem.»

Era o que o pai intimidante do príncipe herdeiro Ares dizia ao filho quando tinha pouco mais de cinco anos.

Com essa idade, Ares não sabia o que o pai queria dizer, não sabia a que se referia nem como podia afetá-lo. Com cinco anos, o que mais importava era as vezes que conseguia fugir da sua ama, que estava sempre a dizer-lhe que tinha de se comportar como um cavalheiro, para correr pelos terrenos do palácio. No entanto, tinha aprendido, dolorosamente, que não podia contrariar o pai.

O rei tinha sempre razão. Se o rei se enganasse, alguém se enganava.

Com dez anos, o príncipe Ares sabia muito bem a que o pai se referia e já estava farto de ouvir falar do seu sangue.

Era apenas sangue. Ninguém se importava se esfolava os joelhos, mas era muito importante que ouvisse as conversas sobre o propósito desse sangue, sobre a sua dignidade e transcendência, quando era o mesmo sangue que brotava quando se magoava a fazer alguma coisa que não devia ter feito, coisas que, segundo a ama idosa, eram as responsáveis pelos seus cabelos brancos.

– Tu não contas – dizia o pai, durante as reuniões periódicas que tinha com ele. – És apenas um elo na cadeia! Mais nada!

O rei estava sempre a atirar copos de brande ou diferentes garrafas contra as paredes dos seus aposentos enquanto o mau feitio ia subindo de intensidade. Ares não gostava desses encontros, embora nunca ninguém lhe perguntasse.

Além disso, tinham-no ensinado a não se mexer quando o pai gritava. Tinha de se sentar muito direito, olhar para outro lado e não se alterar. Com dez anos, isso parecia-lhe uma tortura.

– Gosta de alvos em movimento – avisava a mãe, num tom trémulo e com olhos amáveis. – Tens de aprender a manter a posição perfeita e a não transmitir os teus sentimentos, nem com um piscar de olhos.

– O que aconteceria se eu atirasse alguma coisa contra a parede?

– Não o faças, Ares. – A rainha sorria sempre com tristeza. – Por favor.

Começara a vê-lo como um jogo. Fingia que era uma estátua como a que fariam algum dia para ser incluída no Museu Real que havia na sala principal do palácio do norte desde que as ilhas que formavam o reino de Atilia tinham surgido do mar ou, pelo menos, era o que a história dizia.

– A nossa linhagem usa a coroa de Atilia há séculos! – gritava o pai, enquanto ele pensava que tinha de ser de pedra. – Agora, descansa plenamente nas tuas mãos, num adoentado que não consigo acreditar que tenha saído das minhas… entranhas.

Ares repetia-se que tinha de continuar a ser de pedra enquanto olhava pela janela.

Quando se tornou adolescente, já aperfeiçoara a arte de ficar imóvel na presença do pai. Aperfeiçoara-a, mas também a complicara, visto que cada dia estava mais certo de que não podia ter nenhuma gota do mesmo sangue que o rei idoso. Odiava-o tanto que não podiam ser familiares.

– Não podes dizer isso em voz alta – pedia a mãe, num tom cansado e com um olhar sério. – Não podes permitir que alguém da corte duvide da sua paternidade, Ares. Promete-me.

Naturalmente, prometera, teria prometido tudo à mãe.

No entanto, havia vezes em que o príncipe herdeiro não estava de humor para brincar às estátuas, algumas vezes preferia olhar para o pai com toda a insolência que conseguia reunir, desafiá-lo em silêncio para que atirasse alguma coisa contra ele e não contra as paredes do palácio, como o rei idoso e cada vez mais doente costumava fazer.

– És uma desilusão! – bramava o rei, cada vez que se viam, ainda que, felizmente, ele estivesse em internatos da Europa e isso só acontecesse algumas vezes por ano. – O que fiz para ser amaldiçoado com um herdeiro tão fraco e insolente?

Isso, naturalmente, estimulava-o para que cumprisse as piores expectativas do pai. Desfrutava disso temerária e desaforadamente.

A Europa era um campo de jogos muito grande e fizera amigos em todos os internatos exclusivos de que acabavam por o expulsar. Os amigos ricos e decadentes e ele percorriam a Europa de uma ponta à outra, dos Alpes às praias, dos clubes alternativos de Berlim às festas em iates no mediterrâneo.

– Já és um homem – comunicou o pai, quando fez vinte e um anos. – Nominalmente.

Segundo as leis do reino, com vinte e um anos, tornava-se príncipe herdeiro. A sua investidura afiançava o seu lugar e o dos seus herdeiros na linha sucessória.

Continuava a ser esse disparate da linhagem e, naquele momento, importava-se ainda menos do que quando tinha cinco anos. Naquele momento, interessava-se mais pela sua vida social e por tudo o que podia fazer com a fortuna considerável que lhe correspondia.

– Não receie, pai – replicou ele, depois da cerimónia. – Não tencionava horrorizá-lo e ainda menos agora que sou o seu herdeiro oficial.

– Já tiveste demasiadas farras… – resmungou o rei.

Ares não se incomodou em contradizê-lo. Primeiro, porque era verdade e, segundo, porque poderia engasgar-se com tanta hipocrisia. O rei Damascus fora muito famoso pelas suas farras e, ao contrário dele, estivera noivo da mãe desde que ela nascera… E era mais um motivo para que o odiasse.

– Diz isso como se fosse algo mau – replicou.

Já não brincava às estátuas à frente do pai. Já era um homem adulto. Segundo todos, era o herdeiro do reino e teria de levar tarefas a cabo em nome da coroa que usaria algum dia. Ficou junto da janela dos aposentos do pai e olhou para as colinas e para o mar azul cristalino.

Para ele, Atilia seria sempre assim. O murmúrio das ondas do mar, o cheiro delicado das flores, a extensão do mar Jónico à frente dele… Não o rei e a sua inclinação por destruir coisas e causar desassossego com a mínima provocação.

– Chegou a hora de te casares – concluiu o rei.

Ares virou-se entre gargalhadas, mas riu-se ainda mais quando viu que o pai estava sério.

– Não pensa que vou fazê-lo, pois não?

– Não tenho vontade de sofrer o suplício a que submeterias este reino e a mim.

– Mesmo assim, terá de o sofrer porque não tenciono casar-me – insistiu Ares, num tom ameaçador que era o que mais se parecia com tentar dar um murro ao seu pai… e ao seu rei.

Naquele dia, o pai partiu uma garrafa que era da família desde o século XVIII. Partiu-a um pouco à esquerda de Ares, embora ele não pestanejasse e se limitasse a olhar fixamente para ele.

No entanto, partira mais alguma coisa. Não eram os mil pedaços de vidro de um valor incalculável nem era o mau do pai, que já começava a aborrecê-lo.

Era o conjunto: Os títulos, a terra, a linhagem… Nunca significara nem a milésima parte de tudo isso para o pai. Não fora criado pelos pais, fora tutelado por uma série de empregados que o tinham levado a ver o pai de vez em quando e apenas quando tinham a certeza de que ia portar-se bem.

Não conseguia deixar de pensar que, na verdade, preferia não ser príncipe ou, se não houvesse outro remédio, preferia não ter de entregar a substituição da linhagem e todas essas tolices à geração seguinte. Não tencionava casar-se, não tinha o mínimo interesse e, além disso, opunha-se categoricamente a ter filhos.

Também não conseguia evitar pensar que o pai era um monstro precisamente por causa da linhagem e da coroa… e, sobretudo, era um monstro com o filho. Era frio com a mãe de Ares, mas era Ares que suportava as garrafas partidas e os arrebatamentos de fúria e não estava disposto a transmitir essa fúria aos seus próprios filhos.

– Não devias exasperar tanto o teu pai – comentou a mãe, anos depois, quando já tinha vinte e seis anos e voltara a ter outra conversa com o pai sobre o casamento. – Vamos ter de começar a trazer garrafas do palácio do sul.

Atilia era um conjunto de ilhas que formava um reino muito antigo no mar Jónico. A ilha do norte era onde se concentrava a atividade económica do país e, em consequência, o palácio do norte era a residência mais majestosa da família real. O palácio do sul, no extremo mais a sul do reino, era para relaxar e esquecer os assuntos de estado. Havia praias, tranquilidade e todo o desafogo de que podia precisar um homem que tinha o peso do reino às costas.

Ares não tencionava carregar esse peso, mas, mesmo assim, preferia o sul e fora lá que passara umas semanas antes de o pai o chamar.

– Não posso controlar o que o exaspera – replicou Ares, com ironia. – Se pudesse, os últimos vinte e seis anos teriam sido muito diferentes e ainda restariam muitos objetos frágeis no palácio.

A mãe teve de sorrir, como sempre, com delicadeza e tristeza. Supunha que fosse porque não podia protegê-lo do pai, não conseguia fazer com que o rei o tratasse como a tratava, com um desinteresse gélido.

– O facto de começares a pensar na próxima geração não é o pior que pode acontecer.

– Não posso.

Era uma convicção que se afiançara nele ao longo dos anos. Ares olhou com atenção para o rosto querido e gasto da mãe.

– Se és um exemplo do casamento ou do que temos de suportar para ser a rainha destas ilhas, não posso dizer que me estimule muito endossar esse prazer duvidoso a alguém.

Era verdade, mas ainda mais verdade era que Ares desfrutava da sua vida. Residia em Saracen House, um edifício palaciano dentro do complexo do palácio do norte, mas preferia a intensidade de Berlim, o bulício de Londres e a energia desenfreada de Nova Iorque.

Na verdade, preferia qualquer lugar onde o pai não estivesse.

Além disso, ainda tinha de conhecer a mulher com quem quisesse estar durante mais do que algumas noites, já para não falar de linhagens, tradições, pompa e solenidade para toda a vida. Duvidava muito que existisse uma mulher que o fizesse mudar de ideias e também não se importava muito.

– Sei como estás a olhar para mim e não sou suficientemente velha para não me lembrar das emoções da juventude e da certeza de que poderia prever as mudanças da minha vida – repreendeu-o a mãe.

Estava sentada, erguida e elegante, como sempre, na chaise-longue do seu quarto favorito do palácio, onde entrava a luz do sol para lhe dar alegria ou, pelo menos, fora o que ele sempre pensara.

– Espero que não vás contar-me com pormenores as emoções da tua juventude, sobretudo, quando achava que tinhas passado a maior parte dela num convento.

O sorriso da rainha deu a entender que havia algum segredo e isso alegrou Ares. Gostava de pensar que, na vida da mãe, havia mais do que o pai e esse casamento gélido.

– Tens de encontrar uma esposa com origens parecidas – comentou a mãe, sem se alterar. – Vais ser o rei, Ares. Seja como for o teu casamento, independentemente do que estipulem, tem de ser uma rainha sem mácula e o teu… «assunto» também tem de ser impecável. Entendes o que quero dizer?

Entendia, mas isso não queria dizer que tencionasse obedecer.

– Que tenho de adiar o casamento o máximo que possa – replicou Ares, com um sorriso. – Será um prazer obedecer.

Ares já tinha trinta e tal anos quando a mãe morrera de repente de um cancro fulminante que achara que era uma gripe. Continuava a chorá-la quando o pai o chamara ao palácio do norte alguns meses depois do enterro.

– Tens de saber que o que a tua mãe mais desejava era que te casasses – resmungou o pai, agarrando num copo de cristal como se fosse uma arma. – A descendência, a linhagem, é o teu dever mais sagrado, Ares. Já acabaram os jogos.

No entanto, a linhagem era algo de que gostava ainda menos, mesmo que pudesse parecer impossível.

A mãe deixara-lhe todos os seus documentos e os diários que escrevera desde criança estavam entre eles. Ares, durante os meses desoladores que tinham decorrido desde a morte dela, perdera-se nesses diários, pois quisera entesourar todas as lembranças que tinha dela, quisera voltar a senti-la perto.

No entanto, descobrira a verdade sobre os pais, sobre o pai, melhor dizendo, e o casamento real. Depois de ele nascer, tinham tentado ter outro filho, pelo sim pelo não, até os médicos deixarem muito claro que ela não poderia ter mais filhos. O rei não perdera um segundo e gabara-se abertamente da sua amante. Todas essas mulheres que o tinham mimado quando era pequeno, todas essas nobres com quem não pudera falar em privado… Como podia não ter adivinhado o seu verdadeiro papel?

O pai partira o coração da mãe várias vezes, cada vez que ia para a cama com uma mulher diferente.

Nunca gostara especialmente do rei, mas aquilo piorava tudo. Odiava o pai profunda e irrevogavelmente.

– Traiu a minha mãe constantemente e com toda a tranquilidade – acusou ele, com os punhos cerrados. – Mesmo assim, acha que pode falar do que mais desejava depois de falecer? Atreve-se?

O rei revirou os olhos.

– Estou cansado de te mimar e de te ver a recusar-te a cumprir as tuas obrigações.

– Se está tão interessado na sua linhagem, convido-o a tratar disso, visto que já parecia predisposto a fazê-lo. Vou deixá-lo muito claro, não tenciono fazê-lo.

– Bela surpresa – murmurou o rei. – Eras um pusilânime quando nasceste e sempre serás assim. Até estás disposto a renunciar ao trono.

No entanto, não lhe parecia que estivesse a renunciar ao trono porque nunca o quisera. Não só estava a garantir a liberdade, como também estava a garantir a de qualquer filho que pudesse ter. Estava a certificar-se de que nenhum filho dele seria criado naquele palácio de mentiras.

Além disso, recusava-se a tratar uma mulher como o pai tratara a mãe.

O pai voltou a casar-se com uma mulher mais jovem do que Ares e Ares provocou um escândalo quando não foi ao casamento. O reino estava com problemas e os assessores reais não sabiam o que fazer.

– O trono está manchado! – exclamou sir Bartholomew, o assessor mais veterano, que fora até Nova Iorque porque Ares se recusara a estar onde o pai também estivesse. – O reino perde a força. O seu pai casou-se com a amante e atreve-se a chamar-lhe rainha. Além disso, afirmou que se… acontecer alguma coisa, vai substituí-lo no trono. Não pode consenti-lo, alteza!

– O que posso fazer para o impedir? – perguntou Ares.

Vivia na outra ponta do mundo, passava o tempo a dedicar-se às suas obrigações reais, a gerir a organização de beneficência que criara com o nome da mãe e a desfrutar da vida o melhor que podia. A imprensa sensacionalista adorava-o. Quando mais odiavam o seu pai, mais adoravam a pessoa que fora considerada defeituosa quando era jovem.

Não tinha a mínima intenção de participar na corte do pai ou de jogar esse jogo da realeza.

– Tem de voltar para Atilia – declarou sir Bartholomew, na suíte do hotel que Ares considerava a sua casa em Manhattan. – Tem de se casar e constituir uma família imediatamente. O povo considera-se preso às suas decisões terríveis porque o seu pai não para de lhe chamar o príncipe playboy. Se voltasse e demonstrasse…

– Não sou o rei que procuras – interrompeu Ares, com delicadeza, embora o idoso empalidecesse. – Nunca serei um rei assim. Não tenciono fazer com que esta linhagem corrompida perdure mais além da minha vida. Se o meu pai quiser transmiti-la a outros filhos incautos, só poderei dar-lhes as minhas condolências quando forem maiores de idade.

Pensou na mãe, como fazia muitas vezes, depois de os assessores se terem ido embora. Daria tudo para poder estar um instante com ela para que o aconselhasse com esse sorriso triste e o seu contacto delicado. Conseguia ouvi-la a dizer-lhe que tinha de se casar como se continuasse sentada à frente dele com essa elegância e distinção.

No entanto, não tencionava seguir o mesmo caminho que os pais, morreria primeiro.

O telemóvel tocou no bolso e soube que seria algum convite para uma daquelas festas a que gostava de ir como se fosse um homem normal, não o herdeiro de toda essa dor e sofrimento. Olhou-se ao espelho e, embora odiasse, tinha de reconhecer que essa cara o fazia pensar mais no rei do que na mãe.

Endireitou-se para adotar a posição de que a mãe gostaria, para o caso de conseguir vê-lo. Depois, saiu para se perder na noite de Manhattan.

Capítulo 2

Cinco meses depois

– Grávida?

Pia Alexandrina San Giacomo Combe olhou para Matteo, o irmão mais velho, com toda a falta de paixão que pôde. Ensaiara esse olhar durante alguns meses, mas ainda não sabia se o fazia bem.

– Foi o que disse, Matteo – confirmou ela, tentando parecer imperturbável, como também ensaiara.

– Não podes estar a falar a sério – queixou-se o irmão, com uma expressão de espanto absoluto no rosto.

No entanto, Pia estava à frente da mesa ampla da biblioteca da mansão que pertencia à família do pai desde que aquele antepassado Combe valente abrira caminho entre as fábricas têxteis e a construíra. Pelo menos, era o que ela achava, visto que nunca prestara muita atenção às conversas sobre as histórias grandiosas de ambas as partes da sua família. Os pais sempre tinham adorado falar das suas famílias, como se as suas histórias pugnassem pela supremacia.

Efetivamente, ali estava, à frente do irmão, com um vestido mais apertado do que teria gostado e que a incomodou mais ainda quando o olhar de incredulidade de Matteo se fixou na sua barriga. Um vestido preto por causa do luto rigoroso que cumpria há seis semanas, desde que a mãe morrera, e que não conseguia disfarçar o vulto leve da barriga.

Não podia mudar aquilo.

A mãe apercebera-se, uma semana antes da sua morte, de que Pia estava a ficar… gordinha e Pia sabia há muitíssimo tempo o que tinha de fazer para evitar a língua afiada da mãe. A mãe vira imediatamente que aumentara de peso, como via quando a filha era uma jovem tímida e com a cara redonda.

– Só as pobres sem perspetivas são gordas.

A lendária Alexandrina San Giacomo dissera aquilo à filha abatida de doze anos sem alterar a expressão, o que piorara tudo.

– És uma San Giacomo e os San Giacomo não têm bochechas. Aconselho-te a largar os doces.

Depois, Pia tentara por todos os meios evitar os desprezos da mãe, já que nunca poderia estar à altura dos seus critérios de beleza e elegância naturais.

Estivera de dieta durante toda a adolescência, mas as bochechas tinham-se mantido obstinadamente no seu lugar. Até, uma manhã, com vinte e dois anos, acordar e terem desaparecido.

Pouco depois, e infelizmente, fizera a viagem fatídica a Nova Iorque e Pia não sabia porque a mãe fizera aquilo.

Não podia afirmar categoricamente que fora porque descobrira que a filha solteira estava grávida e prestes a protagonizar um escândalo dos que a mãe achava que eram exclusivos dela. Não passara a infância a pôr-lhe na cabeça que tinha de andar direita, que tinha de ser incomparável e permanecer sem máculas? Tinha de ser, acima de tudo, a Branca de Neve, tinha de ser pura como a neve virgem ou ela, Alexandrina, saberia o motivo.

A verdade era que Alexandrina não gostara do motivo.

Não podia garantir que a mãe a mimara mais do que o habitual, como fizera e com esse resultado trágico, por causa da notícia de já não ser virgem e, além disso, de estar grávida de um desconhecido que não sabia como se chamava. No entanto, também não podia garantir que não fora o motivo.

Seis semanas depois, Alexandrina morrera e deixara a pequena família desolada, assim como a sua legião imensa de admiradores. Então, há três dias, o pai, o insolente e incombustível Eddie Combe, que ela considerava imortal, sofrera um ataque de coração e morrera nessa mesma noite… e ela já tinha a certeza. Fora tudo por causa dela.

– Falas a sério – comentou Matteo, num tom sombrio.

Tentou manter o rosto inexpressivo como a mãe fazia sempre, sobretudo, quando a situação era mais grave.

– Receio que sim.

– Saberás que o enterro do nosso pai é dentro de uns minutos?

Pia decidiu que não era uma pergunta real e esperou com as mãos cruzadas à frente dela, como se pudesse ficar assim todo o dia. Olhou para trás do irmão para observar as colinas verdes de Yorkshire por baixo do céu plúmbeo. Matteo observou-a com uns olhos cinzentos e mais escuros do que esse céu.

– Pareces grávida, Pia – continuou Matteo, como se ela não se tivesse apercebido.

– Estou.

– Haverá imprensa e fotógrafos por todos os lados. Não conseguimos evitá-los há seis semanas e, hoje, será ainda pior. Consegues imaginar o choque que uma gravidez evidente causará.

Tinha de reconhecer, em sua honra, que estava a tentar falar sem cerrar muito os dentes.

– O que propões que faça?

Pia perguntou-o sem se alterar, como se não estivesse acordada desde a noite em que o pai morrera. Seria pior se não fosse ao enterro?

– Pode saber-se como aconteceu? – resmungou Matteo.

Pia sempre se considerara unida ao irmão. Ao fim e ao cabo, tinham estado os dois sozinhos, com uma diferença de dez anos, no meio da história de amor tempestuosa e exagerada dos pais.

Eddie Combe fora famoso por ser implacável com os seus adversários e pela sua própria empresa, a Indústrias Combe, que era o fruto desses Combe aguerridos que tinham saído das fábricas têxteis.

Alexandrina San Giacomo, pelo contrário, fora a mulher mais bonita do mundo. Fora o que tinham dito dela desde que fizera dezoito anos. Estrelas da pop tinham cantado louvores no seu enterro e todos tinham visto a transmissão na televisão. Era raro haver um dia em que Pia não encontrasse alguma biografia onde lhe chamavam «a bela» ou «o anjo do nosso tempo» e isso quando eram moderados.

A história de amor dos pais fascinara uma geração e ela também se vira transportada, sobretudo, quando o que conhecera do seu amor fora os gritos, a louça partida, esses… barulhos atrás das portas fechadas à chave e a fixação absoluta um com outro, independentemente de quem estivesse no quarto.

Matteo, com uma beleza sombria e intensa, dedicava-se ao seu papel como herdeiro dos San Giacomo e como sucessor da empresa familiar do pai e era o tipo de filho que podia esperar-se de uma união assim.

Pia, pelo contrário, fora protegida durante quase toda a sua vida e atribuíra-o sempre às suas bochechas. Tinham-na mandado para um convento e para uma escola para refinar as meninas e toda a família chegara a limites inconcebíveis para que não fosse vista em público.

Todos diziam que era para a proteger e para o seu próprio bem, mas ela sabia que era porque era pouco elegante e gordinha. A mulher mais bonita do mundo não podia ter uma filha assim, pois não?

Alexandrina fora um verdadeiro cisne e ela, em comparação, continuava a ser o patinho feio e já se resignara… ou tentara com todas as suas forças.

– Perguntaste-me como aconteceu?

Olhou fixamente para Matteo e teve vontade de se rir, mas conteve-se devido à mais do que provável reação do irmão.

– Não quero dizer que o grites aos quatro ventos, mas tinha quase a certeza de que já… sabias como.

– Obrigado por brincares com o assunto, Pia – replicou Matteo, num tom cortante. – Alegro-me por tudo isto ser uma piada para ti. O enterro do nosso pai começa dentro de uma hora. Não achas que podias ter-me avisado – o irmão olhou para ela de cima a baixo e ela sentiu que as faces coravam –, disto?

– Pareceu-me que tinha de o fazer cara a cara e estiveste em Londres desde… – Não queria falar da morte da mãe. – Sabia que virias ao enterro e pensei que podia esperar até te ver.

Já tinha quase vinte e três anos e, efetivamente, tinham-na protegido desmesuradamente durante toda a vida, mas era uma mulher adulta e não entendia porque se sentia como uma criança quando o seu irmão mais velho a observava com o sobrolho franzido.

– Isto é um desastre – resmungou Matteo, como se ela não soubesse. – Não é uma brincadeira.

– Matteo, não és tu que não podes usar quase nada do que tens no armário – replicou Pia, com desenvoltura, porque não podia fazer outra coisa. – Acho que não é preciso dizeres como tudo isto é real.

Olhou fixamente para ela e abanou a cabeça. Ela tentou fazer boa cara, mas estava envergonhada e sentia que lhe ardiam as faces, como o resto do corpo. Doía-lhe que Matteo olhasse para ela como se estivesse dececionado e receava continuar envergonhada para o resto da sua vida.

– Lamento muito…

– Quem é o pai?

Isso fez com que se sentisse ainda mais envergonhada e com que quase sentisse náuseas.

– O pai perguntou-me o mesmo – disse ela, em vez de responder à pergunta.

A resposta era… sórdida e humilhante. Embora lhe tivesse parecido maravilhoso antes. Finalmente, tinha um segredo! Finalmente, era uma mulher moderna como todas as que conhecia! Entrara no seu próprio futuro, deixara de se preservar como uma donzela virgem numa montra só porque, por algum motivo, a família escandalosa se unira e quisera que não cometesse os mesmos erros que eles tinham cometido. Verificara como era divertido até chegarem as náuseas de manhã.

Matteo franziu mais o sobrolho, algo que parecia impossível.

– O pai sabia?

– A mãe e o pai sabiam – corrigiu, num tom fraco.

Na verdade, a vida que estava a gerar-se dentro dela era o que lhe parecia menos incrível. Não entendia como o mundo poderia girar sem os pais nele. A mãe fora como o céu infinito e propenso a tempestades repentinas, mesmo que fosse na quietude da sua sala. O pai fora como um vulcão. Enorme, imponente e sempre à beira da erupção.

Como era possível que ambos tivessem desaparecido? Como podia viver com a certeza de que fora ela que os matara de uma forma ou de outra?

Levou uma mão à barriga e começou a acariciá-la, mas ficou imóvel quando viu que o olhar sombrio de Matteo seguia esse movimento. Outra onda de vergonha apoderou-se dela.

– O que…? – Matteo abanou a cabeça como se não conseguisse assimilar a informação. – O que disseram?

– Mais ou menos, o que podia esperar-se. A mãe quis certificar-se de que sabia que era melhor ter um filho, porque as filhas acabavam por nos roubar a beleza.

Pia preferiu não lhe contar o momento de tensão que tinham vivido quando a mãe e ela se tinham entreolhado e nenhuma das duas comentara o evidente, que ela não fizera algo parecido. Matteo pestanejou e ela continuou.

– O pai disse e cito textualmente: «Devia ter sabido que acabarias por te tornar uma ordinária.»

Matteo e ela entreolharam-se por um instante.

Pia sentiu um nó no estômago e não por causa das náuseas daquela manhã, mas por deslealdade. Os pais sempre tinham sido atrozes. Os arrebatamentos de fúria eram uma das suas formas de se comunicar mais habituais. Sempre tinham sido capazes de dizer coisas terríveis e costumavam dizê-las e, depois, fazer alguma coisa para as compensar. Normalmente, não diziam nada diretamente, mas levavam-na de viagem a sítios remotos ou tinham ataques repentinos de carinho e doçura.

Sabia que os dececionara, mas se estivessem vivos, a fúria teria dado lugar a algo mais delicado, independentemente do que pudessem ter-lhe dito no ardor das suas reações. Ela também devia tê-lo dito, devia ter deixado claro que sabia que ambos se teriam suavizado.

Mas já era tarde. Para eles, certamente… e para ela, a filha que sempre os dececionara. Conseguia ouvir movimentos na casa, fora da biblioteca. Os empregados estavam a preparar a receção que haveria depois do enterro e do velório, quando os colaboradores e colegas da indústria, porque Eddie Combe não fizera amigos, se reuniriam para fingir que sentiam a falta dele. Além disso, os chefes de estado da Europa mandariam os seus emissários. Efetivamente, Eddie Combe saíra das fábricas escuras de Yorkshire, mas casara-se com uma San Giacomo e os San Giacomo tinham sido da realeza veneziana. Um dos seus antepassados fora príncipe e isso significava que a flor e a nata da Europa tinha de apresentar as suas condolências, mesmo que não tivessem feito caso a Eddie.

Pia não queria participar nisso e não só por causa do medo de causar um choque quando aparecesse no seu… estado. Não queria porque continuava sem conseguir acreditar que os pais tinham falecido quando não tivera tempo de descobrir se se retificariam, quando já não chegaria a saber se, daquela vez, os dececionara demasiado ou se se suavizariam como costumavam fazer.

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