Buch lesen: "Nova Sapho: Tragedia Extranha"

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Bento de Oliveira Cardoso Visconde de Villa-Moura

Nova Sapho: Tragedia Extranha


Publicado pela Editora Good Press, 2022

goodpress@okpublishing.info

EAN 4064066408329

Índice de conteúdo

I

MARIA PEREGRINA

II

III

IV

V

VI

VII

VIII

IX

X

XI

XII

XIII

XIV

XV

XVI

ADVERTENCIA

ELEGIA DA MORTE

POEMA RELIGIOSO

I
MARIA PEREGRINA

Índice de conteúdo

Encontrei-a indolente, distrahida, em viagem pelo Minho.

Estou a vê-la!—mulher de trinta annos, cabellos negros, olhar ennevoado, sombrio, sobrancelhas luzentes, labios finos, mostrando a espaço os dentes brancos, rosto moreno, talhado em linhas puras, modelo de bronze precioso de casa antiga, com ademanes de adolescente e artista. Acompanhava-a uma extrangeira mais nova, de cabellos e olhos castanhos, muito branca, boca pequena, duma belleza vulgar, que abria em riso ingenuo, ar aventureiro de quem segue por um mundo de acaso, ao capricho doutra, da companheira, que a envolvia, ás vezes, num largo olhar complacente e tenebroso.

Percebi entre as duas a mais esquisita intimidade, a que a segunda parecia dar-se passivamente, mas alegre, por comprazer, numa generosidade estulta de pessima lassidão. Iam quasi á vontade na carruagem, indifferentes á observação extranha, longe do mundo em que viviam, trocando olhares perversos, duma sensualidade doentia, ali, á face de desconhecidos, que só excepcionalmente podiam acceitar com benevolencia a vida que denunciavam.

Maria Peregrina pareceu-me uma esgotada, figura confusa, a contas com desequilibrios intimos, que lhe reflectiam fadiga e exotismo.

Eu sentára-me em frente da mais nova—a extrangeira de olhos côr de burel, muito apertada num costume de viagem, exaggeradamente cingido, de geito a denunciar-lhe as formas regulares, irreprehensiveis.

Quando entrei tinha ella sobre o logar que eu devia occupar uma caixa de couro negro, a que prendiam duas correias, unidas por uma fivela. Era a caixa do binoculo de tartaruga com lavrados de oiro que Peregrina tinha na mão.

Á minha chegada, a extrangeira levantou a caixa. E, como não visse melhor logar, lançou-a ao hombro esquerdo, com a correia.

Maria Peregrina interveiu:

—Deixa ver, Violet!

E, mexendo na correia:

—Apertaste a fivela ao contrario, vou compô-la...

A inglesa inclinou-se para ella. Olhou em volta, derramando uma luz suave e quedou a olhar, agradecida, para a companheira. Depois, desviou a attenção para as arvores, que faziam a escolta da linha ferrea, a seguir para as pessoas da carruagem, que viu indifferente, como vira as arvores; disse a Peregrina palavras ingenuas de disfarce, ácerca do caminho, das horas da jornada; e acabou por tamborilar, a mêdo, nos vidros da janella.

Eu observava, interessado, aquellas figuras, que me pareciam tão differentes e que, no entretanto, se bemqueriam, mercê duma qualquer razão de fatalidade.

Maria Peregrina usava uma toilette roxo indeciso, sem enfeites, muito casada ás linhas do corpo, obra de qualquer costureiro de Paris ou Londres, que quizera honrar a mulher excepcional que fôra chamado a vestir, não lhe sacrificando o corpo magnifico, agora flexuoso de doença e cansaço.

Adivinhava-se nella a mulher de gosto que não discute preço e superioriza a toilette, elegendo os objectos de uso. Trahia-lhe levemente a gentileza um certo desmancho.

Estendeu a mão anemica, duma finura aristocratica, para as mãos vulgares de Violet, que, indolentemente, lhe palpava os diamantes de dois aneis antigos que lhe calçavam os dedos morenos. Usava um terceiro anel em que abria um escudo minusculo de signaes heraldicos, que eu não podia ler pela distancia, e me parecia dispensavel como inculca de raça, pois que Maria Peregrina a revelava por si.

Tinha quedas bruscas, lassidões que reflectia num grande abandono. E foi num desses momentos que a vi sumida nas almofadas da carruagem, falando em surdina á companheira.

Percebi que se tratava duma pequena ordem, disfarçada em pedido.

De facto, Violet levantou-se, abriu um saco de camurça-creme, escolheu dentre outros um estojo pequeno de metal e offereceu-o a Peregrina.

Esta buscou um tubo comprido de lenticulas, tomou duas e entregou o estojo a Violet, que voltou a collocá-lo no saco de camurça. Pude ver o rotulo collado ao vidro-víoleta. Indicava um excitante invulgar.

—Não vaes bem? perguntou Violet, ao sentar-se, rente á companheira.

E mirando-a, com attenção:

—Estás doente? Tão pallida!

Na verdade, ella lembrava uma daquellas figuras em que o talento, a tristeza e a espiritualidade se fundem numa affirmação de decadencia.

Era um busto fim-de-raça o de Peregrina, sombria, extenuada numa indolente indignidade, abandonando-se aos nervos, vencida, e pedindo á Chimica o emprestimo de excitantes, sophismas ruinosos da mocidade em desbarato. E, no entanto, só pude vê-la com piedade.

Era inferior julgar segundo a minha saude moral o caso infeliz da mulher extranha, que parecia reflectir nos seus quebramentos o drama lento duma vida exotica.

E, como quer que percebesse que pela primeira vez olhava para os passageiros que formavam a ala fronteira á sua, numa expressão de inquerito e vago pedido de soccorro, vendo o seu desassossego, lembrei-me de que podia este ser da posição que tomara e offereci-lhe o meu logar.

—Provavelmente, disse, ella ia mal no sentido da machina; que o meu logar era melhor e lho dispensaria.

Attentou-me com surpresa, e, depois de alguma hesitação:

—É verdade, supponho que me tem feito mal a posição que escolhi. Mas não desejo o sacrificio de v.

Levantei-me.

Por sua vez levantou-se; volveu a fitar-me, reconhecida, sorriu forçadamente, e sentou-se.

Percebi que o pequeno esforço lhe aumentara a fadiga; transfigurou-se.

Os largos olhos escuros, habitualmente serenos, indecisos, moveram-se numa agitação de labareda intima, para logo quedarem, vagos.

Depois de curta hesitação, encostou-se ás almofadas e adormeceu.

Dormiu um somno pequeno, de tres quartos de hora.

Naquelle estado de abatimento, pareceu-me a unica maneira de sossegar.

De repente, o comboio estremeceu, galgando numa velocidade imprevista. Peregrina, que acordou aos primeiros solavancos, dirigiu-se-me:

—Fez-me bem mudar de logar. Estou melhor e muito reconhecida á gentileza de v. Dormi não sei por quanto tempo, o tempo bastante a cobrar forças que, de subito, me faltaram.

E eu, solicito e curioso:

—Mas V. Ex.ª soffre ainda? Talvez fatigada pela viagem...

—É certo, respondeu, animada pela minha curiosidade, estou fatigadissima. Venho de longe, de muito longe. Sabe v.?—ha um facto que se dá semelhantemente em todos os paizes. É a impotencia, a impostura da medicina em face da doença. Todo o seu empenho é encobrir as deficiencias do mister, illudir, mystificar os pobres doentes.

—Emfim, sublinhou com um riso amargo, não podemos querer-lhe mal!

A despeito de todos os epigrammas com que temos flagellado os medicos—á menor coisa os procuramos. Não occorre chamar qualquer artifice... Na maioria dos casos valeria o mesmo.

Pergunta-me v. o que tenho? Sei lá o que tenho! Tenho o mal-de-viver—uma doença longe da medicina, que me lassa os nervos, cria desejos e sensações inconsumiveis, que me irrita e alheia das coisas consagradas e me afina a sensibilidade para coisas pequenissimas—as minhas futilezas preciosas. Sou indifferente ás trovoadas, e irrita-me o zunir duma abelha. Tenho o maior desprezo pela moral de toda a gente; faço do avesso dessa moral uma verdadeira religião, um culto fervorosissimo.

Envenenei-me outro dia com um ramo de flores de madre-silva. Tive um prazer doloroso na aspiração desse aroma, que sorvi cheia de sensualidade, até cahir sobre uma banqueta, tonteada, numa syncope que foi o espanto do medico que me tratou.

Quando cobrei animo e lhe expliquei o que se passára, suppoz-me doida; sobretudo quando lhe falei em envenenamento. Affirmou que a flor da madre-silva não era veneno catalogado. E, como o convidasse a explicar as minhas perturbações—a syncope, a garganta em fogo, a sêde, os espasmos, o arrefecimento,—todo o cortejo da intoxicação violenta, pareceu resolver-se pelo diagnostico que aventei; fingiu tratar-me, e arrimou-se, em materia de explicação, ao velho bordão—de que eu era uma hysterica; que o meu caso, devia signalar, era curioso; que cada hysterica tinha, de facto, as suas particularidades, perturbações, exigencias, um tratamento proprio. E com isso me calou...

Que lucrava em amesquinhá-lo? Se nunca amesquinhara, conscientemente, alguem, menos me occorria maltratar quem, afinal, reflectia, segundo o rito da sciencia, uma trapaça intelligente que podia ter satisfeito outros, menos exigentes do que eu.

Maria Peregrina falava com enthusiasmo, mas de repente abrandou-se para dizer, quasi indolente:

—Agora reparo, estou a incommodá-lo. Que pode interessar-lhe a historia das minhas fraquezas?

Ainda na hypothese de que me ouça com vagar, os factos que illustram o meu caso, se lhe interessassem, magoá-lo-iam. E não tenho o direito de pagar a gentileza de ha pouco, lamuriando-lhe a minha vida, desagradavel. Mas esta não pode, não deve mesmo interessá-lo.

Protestei, e fí-lo de forma que me pareceu conquistar-lhe a confiança.

Enquanto conversavamos, Peregrina mal se distrahia de Violet, para quem olhava a miudo, e que, a meu lado, deante della, seguia a conversa com meia attenção.

É quasi tão difficil encontrar quem ouça bem como quem fale bem. Violet abria clareiras de indifferença na historia da companheira, uma historia exotica, singularmente complicada, em que li todo um indice de miseria.

Pareceu-me que Violet, talvez pouco conhecedora de português, não podia ouvir bem. A maior parte dos esclarecimentos de Peregrina devia escapar á sua percepção; mas um não sei que de affinidade dava o traço de união entre aquellas almas, que eu suppunha fundamentalmente diversas.

O comboio parou.

—Estamos na Trofa, informou um passageiro.

Violet desceu da rêde o saco de camurça-creme, preparando-se para sahir.

—Já?!—perguntou Peregrina, esquecida dos trabalhos da viagem, ou na previsão de peores horas.

E, buscando um bilhete, entregou-me o nome lithographado e esclareceu:

—Vou para Lares, a quatro leguas de Guimarães. Tenho lá sombras e silencio. Venho fugida á esturdia civilizada, ás grandes illuminações com que a cidade estraga a Noite. São as pragas que mais temo—o barulho e a muita luz!

Emfim, se algum dia quizer descansar, visitar a toupeira de Lares...

—Tambem desço, vou para Guimarães. Muito obrigado.

Sahimos rapidamente, e foi já no tramway de Guimarães que paguei a amabilidade de Maria Peregrina, dizendo o nome e explicando que passeava pelo Minho e ia áquella cidade tirar impressões novas das coisas velhas, visto andar muito ao avesso das glorias contemporaneas.

Fez-se silencio sobre a minha informação. Lemos a um tempo os nomes trocados. Verificamos que nos conheciamos. Ella lera um livro meu, com que sympathizara, disse, mercê das suas rebeldias. Por minha parte, esclareci, tinha lido os seus volumes—Nova Sapho e Emparedada. Este era um livro em que ella ampliára, segundo o seu caso, os desgostos dum poeta brasileiro—o Poeta Negro.

Este luctára contra o preconceito de côr, soffrera todo o desprezo geralmente votado á sua casta e fizera deste desprezo um capitulo de Evocações, doloroso.

Maria Peregrina Alvares de Lorena e Villa-Verde, que eu conhecia pelas revistas e por aquelles livros urdira a Emparedada—a sua obra prima, para editar dores intimas.

As paredes que mostrava ao publico—a um pequeno publico, eram os preconceitos de toda a ordem que lhe entravavam a acção.

Soffrera más vontades, vexames e desabafára em paginas notaveis, mau grado serem decadentes, doentias. Para toda a parte para que voltava o espirito encontrava paredes, escuras e espessas, tatuadas de obscenidades, allusivas a predilecções suas.

A sociedade destinára-lhe uma cella estreita, quando a natureza lhe dera um talento largo e uma sensibilidade enorme, caldeados dum certo fatalismo sensual, que lhe abarcava e impopularizava a obra.

Assentava, plena de orgulho, que essa impopularidade era o contraste do seu genio aventuroso. Mas a sensibilidade abria conflicto com a moral média; e dahi as torturas. Não pretendia que a seguissem e admirassem nos seus delirios; aspirava a que a respeitassem em homenagem ao genio dos seus defeitos, que amava acima da sua obra.

Ora este conflicto, os vôos, as quedas bruscas, tudo o que no temperamento pode haver de grande, e tudo o que a carne pode dar de vil—taes eram os themas dos seus versos geniaes, enfiados naquelle dizer extranho.

No fundo, o livro era a sua historia—uma autobiographia.

Alludi, com enthusiasmo, aos Sonetos, prêsos num lindo aro, a uma titulação leal e exacta:—Procurando alguem...

Expliquei que a unica superioridade que me arrogava sobre o grande numero de confrades era a de acompanhar a propria Belleza que eu não sentia.

Tinha uma concepção de Belleza que prendia ao meu temperamento—era a que naturalmente mais exteriorizava. Mas não me era difficil descer ao intimo duma alma exotica, para viver tempestades alheias.

Conversamos até Guimarães.

Seguiu os dados que incidentemente lhe forneci, e inquiriu, amavel, da minha orientação não esclarecida pelo livro que lêra.

Falamos do debate intellectual do momento. Vieram a proposito velhos cultos.

Cada um de nós tinha concertado um Ceu para os seus santos—um Ceu de Arte, limitado, que mal encheria duas paginas de Folhinha...

Falei da obra revolucionaria de Dostoïewsky, D'Annunzio, da cruzada de Anatole, Maeterlinck, Nietzsche, Wilde e outros; confrontei a aspiração dos recem-cruzados da idéa-nova com o positivismo estreito dos ultimos cincoenta annos.

—Que os novos, affirmei, se propunham esbandalhar os diques, mal cimentados, do bolorento realismo; que a grande obra do homem, era, afinal a alma do homem, utilizada, praticada, alem-fronteiras do vulgar.

Que Zola, por exemplo, apontára todas as grossarias, os aleijões do corpo, mas não comprehendera os delicados aleijões da Alma, excessos do sentido; materializára o talento numa causa rude. A sua alma não déra a expressão duma Arte superior e exacta segundo o espirito.

Assim tambem Eça, entre nós, negativista e bolandeiro, bizarro e dispersivo: no fundo um homem de letras, com technica extrangeirada, cortada á feição dos seus fraques, segundo os modelos de Paris, terra incaracteristica, cosmopolita, transportada a Portugal em amostras da sua prosa de contrastes, duma rhythmica forçada.

Por isso o genio de Camillo, mais o de Fialho haviam batido o seu talento relativo, que liquidou numa reduzida memoria, concebida com macula do peccado original de Teixeira Lopes—o doloroso artista.

Que a pelle da geração passada—a que vestira o realismo—era uma pelle espessa, escamosa e aspera como a do crocodilo.

A missão nova era outra.

O nosso empenho devia ser, parecia-me, archivar todas as descobertas que vão além do commum, tomá-las como factos, fazer da duvida uma força, caminhar sobre a idéa conquistada, formular novas theses, acceitar o bem e o mal, a vida creada e latente, tomar os proprios devaneios como factos, pois que a imaginação é tambem um facto e primordial, notavel.

Assim, á Belleza do sentimento succedera na ordem critica, a escola do motivo averiguado. Para nós,—sentimento, os dados positivos, segundo a escola anterior, toda a elementação, creada ou latente, vão dar a uma escola nova, religiosa, universal, compativel com todas as razões e servindo a concepção da Vida, segundo os processos mais largos e alevantados. Primeiro a Literatura da Belleza, medida a compasso, feita precisão; a esta seguiu-se uma Arte exclusivamente sentimental; nós assistimos ao exaggero inverso, que quasi nos deu a negação do sentimento. O papel dos escriptores de hoje, apostolava eu—quasi ao findar da viagem—era apagar os preconceitos, aproveitando tudo e partindo da Literatura das idéas e dos factos para a Literatura das imagens, caminhando, confiadamente, sem exclusivismo e sem pressas.

—Sim, é verdade, confirmou Peregrina, o que perdeu os passados foi pretenderem fazer girar a terra em volta delles.

—Veja V. Ex.ª, continuei, os nossos liliputianos do Positivismo.

Theophilo Braga, por exemplo, deixa este mundo com a idéa de que esgotou a especulação mental; escreveu, suppõe, a ultima palavra da grande synthese poetica e philosophica da Nacionalidade; e a sua morte, parece-lhe, porá ponto na vida de Portugal, enchendo e fechando o Pantheon...

—Guimarães! gritou o empregado.

Chegáramos.

Maria Peregrina, ao despedir-se, insistiu:

—Que fosse a Lares, passar algumas horas ou dias, consoante a minha disposição.

E tão interessadamente o fez que prometti visitá-la, apenas me desobrigasse de Guimarães.

—Pois veja se tira tempo para mim, e vá com vagar. Se fôr com tempo e na disposição de ouvir-me, prometto contar-lhe episodios, que até agora tenho calado.

E sabe? disse com tristeza, talvez que estes episodios—o romance dos meus erros e amarguras—valham a Historia, que prende ao bandoleirismo dos Affonsos.

Liga-o á minha sensibilidade, a philosophia serena que usa, mau grado ser austera. Prometto fazer-lhe as minhas confissões, que marcam mais ousio, verá, do que as celebradas confissões de Rousseau.

Quero mesmo que tome commigo o compromisso de dizer um dia, em publico, o que lhe communicar. Reproduzirá religiosamente o que souber de mim, isto é, tudo o que lhe contar ou tenha por verdadeiro a meu respeito. Quero que os que estão por vir apprendam no meu caso a coragem da verdade.

Saberá, então, quem fui e sou.

Até Lares!

II

Índice de conteúdo

Foi por uma tarde de junho, quente e avermelhada, que tomei pacientemente um carro, indicando ao boleeiro o nosso destino—a Casa de Lares, mais de legua para além das Taipas.

De Guimarães ás Taipas viajámos com dia. Anesthesiavam-me dos tratos da jornada a tarde e a paisagem.

Ao lado havia milheiraes espessos; perto, alas de giesta, florindo as curvas mal lançadas da estrada; na borda dos campos—choupos nodosos, a apoiarem vides grossas, de cachos verdes, cerrados; mais para além, nos panos altos—renques de pinheiros bravos, que pareciam tocar o ceu, fogo e madre-perola.

Nas Taipas demorámo-nos. Quando seguimos era noite; recolhiam os aquistas aos hoteis, na mira das dansas e da intimidade dos salões. A estrada, a partir dahi muito guardada pela ramaria das carvalheiras, que bracejavam fóra das divisorias, era pouco passeada á hora em que a percorriamos. O carro seguia extenuado, vagaroso, denunciando a má rodagem; ouviam-se os arreios folgados, de encontro ao corpo magro dos garranos, o estalejar do chicote, as pragas do cocheiro, teares abrindo falsete na toada crepitosa da noite.

A uma legua das Taipas o carro inclinou para a direita; os solavancos multiplicaram-se. Interroguei, receoso, o boleeiro:

—Que rumo levamos?

E, dando por um pontão, que pouco mais dava ao carro do que uma tarja de palmo—pedia-lhe cuidado, aconselhando-o a parar, pois me não convinha ir ter ao leito do ribeiro, muito cavado e pedregoso.

—Que eu era um dorido, commentou o homem, sereno; que aquelle era o caminho velho, o mais curto, e dahi por doze minutos estariamos em Lares.

Seriam nove horas, proximamente, quando chegamos.

Exultei; estava, pois, em Lares, a bem dizer na Terra Santa...

Apurei a vista, e, enquanto o cocheiro batia á porta-fronha, espionava eu, fóra do carro, a cerca alta do solar, com ameias de metro, alternadamente rectas e recurvas, sobrias de desenho.

Cortava o muro, a meio, um enorme frontal, inserindo um escudo ramalhado de signaes heraldicos, a que um capacete fidalgo punha fecho.

Projectava-se no chão lizo, que circuitava o muro, uma sombra de renda.

Era a silhueta das ameias e frontal.

Passados minutos, abriu-se uma das folhas da porta-fronha. Appareceu a cabeça grisalha dum minhoto authentico, a inquirir quem eramos, e o que queriamos.

Expliquei a chegada, e fui introduzido no primeiro salão de Lares, e, a seguir, abraçado por Maria Peregrina, muito admirada da temeridade, por ter ido sem a avisar.

—Que me teria mandado a carruagem, informou, e para o atalho a liteira;—que eu suppuzera as estradas do Minho similares em arranjo ás grandes avenidas do Rio de Janeiro—uma amabilidade para Lares, que me sahira cara...

E eu, desmanchado, confirmava—que era pouco cauteloso, embora muito experimentado em desenganos; que devia contar com a sua generosidade, evitando aquelle desastre. E, deprimido, sumia-me numa cadeira larga, commodissima, e um pouco de geito a reparar as torturas mais reparaveis da jornada.

Estive assim dois quartos de hora, succumbido, deante de Maria Peregrina,—que me lamentava, maldizendo o caminho e a minha idéa de jornadear á doida.

Dentro, na sala proxima, conversava-se em surdina.

Levantei-me quando me senti reanimado a despir-me da poeira, voltando, em seguida, ao salão donde fui com a Artista para a casa interior—a das visitas, onde conversavam as duas pessoas que ouvira antes e Peregrina me apresentou:—o prior do Mosteiro e uma senhora de edade, a Morgada de Soutello.

O prior, homem de meia edade, usava batina preta muito cingida, caseada a roxo a dizer com a volta e faixa larga de seda, e um anel de amethysta, em oiro simples. Tinha o nariz adunco e estreito, sobre que assentavam uns oculos quadrados de lentes grossas a inculcarem pronunciada myopia, que não prejudicava o seu olhar resignado, vasando um espirito intelligente e manso.

Usava o cabello quasi rente. Era um pouco curvado, franzino e distincto. De resto muito sombrio, e, no dizer de Peregrina, em tudo avesso ao typo classico do abbade minhoto—no geral bonacheirão e grosseiro.

—Que lhe parecia um santo monsenhor José d'Andrada, explicava á puridade. Conhecia-o desde pouco, visto que o prior chegára ao Mosteiro depois della ter sahido: havia annos que não entrava em Lares. Tinha com o padre relações duma semana, meras relações de cortezia; mas destas aferira já uma especial delicadeza, que o extremava dos collegas.

E acrescentou:

—É um apostolo de rara valia. Ao menos assim o inculca a fama. Foi regular de S. Vicente; no entretanto, parece que a communidade abriu condições aos seus talentos, pois que se oppôs ao beneficio da Parochia, e ao titulo que lhe deram.

A morgada de Soutello, D. Maria Helena Alvares Moniz e Sá de Pamplona, tinha sessenta anos, gastos em viagens pias, devoções e os maiores cuidados com a saude e instrucção duma filha, rapariga interessante, segundo Peregrina.

A velha fidalga era senhora de poucas letras, conforme o uso antigo nas pessoas da sua prosapia. Tinha, contudo, maneiras distinctas, que a absolviam das poucas letras.

Offereceu-me uma cadeira junto de si, apenas lhe beijei a mão, ao ser-lhe apresentado, e ficamos a conversar.

—A Tia, começou Peregrina, é uma das pessoas que se condoe da minha soledade e me visita com mais affecto. Presumi, ao recolher a Lares, que tinha de contar, sómente, com as sombras da quinta. Mas Deus começa a transigir commigo; nem sempre me sinto só.

—Sabes, Maria, commentou a senhora de Soutello, que fui condiscipula de tua mãe no convento de S. Lazaro no Porto; foste minha filha adoptiva nos primeiros annos de educação; teu pae foi o mais querido dos meus irmãos; que desde creança te estimo...

Tua mãe, já no collegio, era uma santa. E assim a veneram os lavradores do Mosteiro. O carneiro que a guarda é uma casa de milagres. Ah! como hãode doer-lhe no Ceu as tristezas em que ainda hontem nos falavas!

Sempre triste, nem pareces a creança que vi cabriolar ha vinte annos. Emfim, creio que este sossego, quando melhor o comprehendas, hade trazer-te alegrias.

Ha tempos o monsenhor, quando estavas na Italia, disse-me que eras infeliz. Perguntei-lhe os motivos da tua infelicidade, mas fez-se desentendido; limitou-se a affirmar que havia temperamentos felizes e desafortunados e tu eras dos ultimos; que só Deus sabia ao certo as razões das desditas deste mundo, e nós tinhamos obrigação de respeitá-las, as grandes, sobretudo.

Na occasião, magoou-me tal noticia. Depois, lembrei-me de que tambem o monsenhor é homem para exaggerar desgostos, vendo os dos outros, como vê os seus, com amargura serena—a que mais impressiona.

E voltando-se para mim:

—Dei razão á Salomé, que ainda ha dias repetia que Peregrina tem o prazer do soffrimento. Vou crendo que seja assim. Como ella nota, Maria Peregrina não póde com o bem!

—Ah! a Salomé suppõe então que eu faço luxo em ser triste? perguntou Peregrina.

—Pois que duvida?! insistiu a Morgada, olhando para mim de geito a alliciar-me para a opinião da filha:—rica, rapariga de talento, representante da primeira fidalguia de Entre Douro-e-Minho, que mais póde desejar? Deus nos não castigue!

Que, a falar verdade, disse, descendo a voz, e encarando-me, ha um facto que me entristece. Não nos falta prosapia na ascendencia, nem bens, nem honras de toda a ordem; e, no entanto, não temos ascendentes felizes: que immenso drama podemos ler nos pergaminhos de familia!

Não sei se sabe, disse, que no brasão de Lares ha uma linha negra que tarja um dos esquartelados do escudo, separando os appellidos que inculcam a razão fidalga desta Casa.

—Informei que tinha reparado no traço, mas lhe desconhecia a origem.

—É uma historia triste, informou D. Maria Helena. Haverá trezentos annos que um antepassado nosso varou com um tiro numa caçada, em Granada, por desastre, um principe da Hespanha. Dahi o ter sido ordenado que no brasão ficasse perpetuado o lucto pela memoria do Principe e desgosto desse nosso ascendente—D. Arnaldo Affonso Duarte de Biscaia Alvares Moniz e Sá, que depois morreu no mosteiro de Ancêde, em Portugal, frade exemplar, com honras de justo e suspeitas de santo.

Lembro-me de que aquella fatalidade, expressa no brasão de familia, depois de trezentos annos—domine ainda a historia duma descendencia tão illustre como a desta Casa.

Mas deixemos agoiros... É preciso não tentarmos a Deus, conciliou.

E voltando-se para Peregrina:

—Entrega-te a Deus absolutamente. A tua philosophia, no fundo, vale tanto como os meus agoiros:—nada. O que vale neste e no outro mundo é a grande Lei. Não é assim, monsenhor?

E pedia o reforço do prior, que ouvira de pé a ultima parte das considerações de D. Maria Helena.

—É verdade, senhora Fidalga, assentiu. Mas, accentuou, sibyllino, cada um tem de servir a Deus segundo os meritos, os talentos, o temperamento que elle distribue... Ora, o serviço de Deus torna-se muito complicado para os espiritos complicados. Não culpe V. Ex.ª a sr.ª D. Maria Peregrina pelas suas especulações sombrias. Peça a Deus que a alegre, e lhe transforme a vontade e os nervos, sem prejuizo dos talentos.

—Deus pode tudo, monsenhor, disse a Morgada, forte de fé. Mas só Elle sabe a opportunidade de intervir.

Seguia a conversa, animada, quando correu o reposteiro da esquerda, entrando na sala uma linda rapariga de 25 annos, proximamente, loira, olhos azues, rosto branco, ligeira e graciosa.

E a Morgada, interrompendo-se:

—Que tens feito? Estava a ver que tinhas ido só para Soutello.

E voltando-se para mim:

Era capaz disso. Não imagina a coragem desta rapariga. Sae ao lado dos Pamplonas, que não temiam coisa alguma.

—Não, minha mãe, disse com simplicidade Salomé, vinho do jardim. Está luar, o jardim é um encanto. Não imagina o effeito do luar sobre os cravos côr de enxofre. E as dahlias? Oh Peregrina, hasde dar-me dos teus craveiros, dahlias e aparas de roseira. O jardim de Soutello é tão pobre!

—Sim, Salomé, concedeu Peregrina, tudo o que ahi houver e te agrade. Pena tenho de não poder mandar-te o jardim em tabuleiros. O que ahi ha é obra do José Lourenço. Coitado! como sabe quanto gosto de flores, tem o maior cuidado nesse rendimento sagrado da quinta.

Mas, a falar verdade, desde que vim, mal attentei nos canteiros; tenho a impressão de que tambem as flores começam a ver-me mal.

Manda buscar o que quizeres.

—Sempre boa, observou a senhora de Soutello.

—Vou ver, interrompeu Salomé. Tenho ainda um pedido a fazer. Sabes qual é?

—Não sei, disse Peregrina, fitando-a.

—Nem presumes o que seja?

—Não, confirmou Peregrina.

—Queria ouvir tocar. Ha annos que te não ouço. E os violinos dos outros parecem-me instrumentos differentes.

Peregrina teve uma contracção de desgosto:

—Se tens caridade não me peças tal sacrificio.

Não tóco ha muito tempo. Ha annos que faço por esquecer o violino. Desde o collegio...

E apontando-me, e retrahindo-se num sorriso que mais lhe accendia a contrariedade:

—Este meu amigo deu-se á travessia de Guimarães até aqui num carro do Tocaio! É das maiores penas que conheço. Pois proponho-me repetir a heroicidade, se me dispensares do violino; nem sabes que desgostos me recorda...

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0+
Veröffentlichungsdatum auf Litres:
15 Januar 2025
Umfang:
180 S. 1 Illustration
ISBN:
4064066408329
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Rechteinhaber:
Bookwire
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