Buch lesen: "A volta do sedutor"
A Volta do Sedutor
Barbara Cartland
Barbara Cartland Ebooks Ltd
Esta Edição © 2017
Título Original: “Love comes to the Castle“
Direitos Reservados - Cartland Promotions 2017
Capa & Design Gráfico M-Y Books
m-ybooks.co.uk
NOTA DA AUTORA
Na maioria dos Castelos e em casas ancestrais inglesas, encontram-se passagens secretas, calabouços sinistros e cômodos secretos que serviam de esconderijo para padres e religiosos.
Lembro-me de que o primeiro esconderijo para religiosos perseguidos que eu vi foi em Madresfiel Court, a casa ancestral do Conde de Beauchamp. Uma passagem abriu-se inesperadamente bem no centro do soalho de uma das salas, onde ninguém imaginava que ela pudesse existir.
Em um quarto secreto de Longleat, a linda mansão do marquês de Bath, operários que trabalhavam na reforma da casa encontraram ossos de um dos ancestrais do aristocrata, que séculos atrás fora misteriosamente encerrado entre quatro paredes maciças.
Durante o reinado de Elizabeth I, os padres celebravam missas nesses cômodos secretos; os monarquistas também usaram tais esconderijos e viram-se forçados a construir mais lugares secretos para se esconderem das tropas de Cromwell.
Atualmente as crianças se sentem fascinadas por tais lugares cheios de histórias e mistérios; adoram fazer perguntas, interessadas em saber quantas vidas foram salvas graças ao que para elas seria uma espécie de brincadeira de esconde-esconde.
CAPÍTULO I ~ 1885
«O que devo fazer?», Janet perguntou a si mesma.
Caminhando pelo jardim da villa, repleto de buganvílias, hibiscos floridos e lírios em botão, ela lembrou-se de que estes últimos eram as flores prediletas de seu pai.
Tal pensamento ocasionou-lhe uma dolorida pontada no coração. O pai, que nos últimos anos lhe enchera a vida de felicidade, agora estava morto.
Aos dezessete anos Janet perdera a mãe. Na ocasião o pai, que jamais gozara de muita saúde, passara a encontrar apoio e conforto na única filha.
Lorde Compton de Mellor fora um dos mais eminentes ministros da Justiça que a Inglaterra conhecera. Ocupara os cargos de conselheiro da rainha e de juiz e ficara conhecido por seus discursos brilhantes, julgamentos sábios e palavras ponderadas, os quais, no passado, costumavam ser motivos de júbilo para a imprensa que raramente passava um dia sem qualquer referência a tão ilustre personalidade.
Amando profundamente o pai e lhe reconhecendo a inteligência privilegiada e a agudeza de espírito, Janet sentia um prazer imenso em estar ao lado dele.
Dotado também de extraordinário bom humor e de um encanto nato, lorde Compton sempre mereceu o respeito não só dos amigos, mas até mesmo dos criminosos que ele mandava para a prisão.
Devido à saúde precária, viu-se forçado a afastar-se de seu cargo e deixar a Inglaterra, indo viver no sul da Itália, o que foi considerado uma perda para seu país, porém motivo de grande alegria para sua esposa.
A Villa das Flores, comprada por lorde Compton, situava-se entre Nápoles e Sorrento, e ali a família Compton viveu gloriosamente feliz. Janet foi mandada para um colégio em Nápoles.
Foi então que, inesperadamente, lady Compton contraiu um tipo de febre maligna que de tempos em tempos grassava em Nápoles, vindo a falecer, mal tendo o marido e a filha tido tempo de se darem conta da gravidade da moléstia.
Mesmo sem consultar o pai, Janet deixou o colégio para ficar na villa o tempo todo, fazendo-lhe companhia. Felizmente, com a orientação da diretora do colégio, conseguiu contratar os melhores professores particulares, que passaram a vir à villa todas as manhãs para lhe ministrarem aulas de literatura, música e história.
Dessa forma Janet recebia as aulas enquanto o pai descansava, e tinha o resto do dia para ficar ao lado dele, o que também não deixava de ser um meio de instruir-se, pois, como ela própria costumava dizer-lhe, lorde Compton era uma enciclopédia viva.
Não se cansava de dizer a si mesma o quanto era excepcionalmente feliz por ter um homem tão brilhante para ensiná-la, orientá-la e, sem dúvida, inspirá-la.
—Sabe, papai— ela costumava dizer ao pai em tom de brincadeira—, creio que só me restará a alternativa de me tornar uma solteirona, pois jamais encontrarei uma marido que tenha uma inteligência brilhante como a sua!
Rindo daquela simplicidade, lorde Compton respondia:
—Ora, minha querida filha, você se apaixonará com seu coração e não com seu cérebro!
—Isso é absurdo!— a filha discordava—, eu jamais serei capaz de amar um homem tolo que não tenha capacidade de manter comigo uma conversa do mesmo nível que mantenho com você.
—Agora está me assustando. Vou providenciar sua ida para a Inglaterra no próximo ano. Será apresentada à Rainha e conhecerá pessoas jovens como você.
Janet preferiu não dar qualquer resposta e ficou dizendo a si mesma que jamais se separaria de seu pai, pois os médicos já a haviam advertido de que sua saúde era bastante delicada. Seu coração poderia parar a qualquer momento, e ele precisava poupar-se ao máximo.
Dessa forma Janet sentia-se plenamente feliz de poder sentar-se com ele na sacada da villa ou de caminhar ao seu lado, muito vagarosamente, pelo jardim ensolarado.
Contrariando os conselhos médicos, Janet insistia com o pai para deixarem a villa durante o inverno, atravessarem o Mediterrâneo, indo para Argel, onde era mais quente e não havia os traiçoeiros ventos noturnos, vindos direto das montanhas cujos picos eram cobertos de neve.
Há um mês esses ventos haviam atingido a Villa das Flores, exatamente quando ela se sentia feliz por ver o pai tão bem. Porém, certa manhã, quando menos esperava, ao entrar no quarto de lorde Compton, encontrou-o morto, com um leve sorriso no belo rosto, o que a fez ter certeza de que ele havia morrido pensando na esposa. Naturalmente já se achava ao seu lado.
«Eles devem estar muito felizes juntos», era o que Janet dizia a si mesma naquele instante, passeando pelo jardim. «Mas e eu? O que farei?»
Ocorreu-lhe que o mais sensato seria voltar à Inglaterra. Embora seus avós estivessem mortos, tinha muitas tias e primas que se sentiriam felizes e honradas em servir-lhe de chaperon por ocasião do seu um tanto atrasado début.
No momento, porém, estava de luto. Não usava roupas pretas por saber que o pai ironizava o exagero quanto aos “crepes negros e lágrimas”. É que as mulheres seguiam o exemplo da, Rainha e faziam o que a sociedade esperava delas. Na Inglaterra e o mesmo aconteceria com Janet, especialmente tendo lorde Compton sido um homem tão ilustre.
Nos jornais ingleses foram publicados longos necrológios sobre o ex-Ministro, e jos jornais italianos seguiram-lhes o exemplo, uma vez que lorde Compton também vivera na Itália.
«O que devo fazer?», era a pergunta que ainda não deixara a mente de Janet, que, no momento, se aproximava do chafariz de pedras.
Enquanto admirava os jatos de água que eram lançados rumo ao céu para voltarem transformados em milhares de gotículas iridescentes, ela pensava que se permanecesse na Villa das Flores, como era sua intenção, deveria providenciar uma chaperon.
A simples ideia pareceu-lhe inviável, uma vez que não iria suportar uma conversa banal com uma mulher, dia após dia, estando acostumada a manter com o pai uma conversação inteligente, quando se sentia embevecida diante da sabedoria e agudeza de espírito de lorde Compton.
Como ela gostava de discordar do pai e apresentar-lhe argumentos que eram rebatidos com a maior eloqüência e racionalidade! Então, levada mais pelo prazer de ouvi-lo derrotá-la com o habitual brilhantismo, Janet se empenhava em alimentar discussões que acabavam se tornando verdadeiros duelos verbais.
«Oh, papai, como pôde me deixar, se vivíamos tão felizes juntos?», ela se lamentava, lutando para esconder as lágrimas.
—Se há algo que detesto é ver uma mulher chorando, simplesmente porque espera, por meio das lágrimas, conseguir o que deseja— lorde Compton dissera certa vez—, mas não ignoro, minha querida, que o belo sexo frequentemente vê as lágrimas como uma arma.
—As mulheres se valem dessa arma para deixar os homens se sentirem fortes, másculos e, naturalmente, muito superiores a elas— fora a resposta zombeteira de Janet.
—É aí que se engana— o pai a contradisse.
Janet lembrou-se de que uma discussão acalorada recomeçara. Os argumentos apresentados por lorde Compton deixaram a filha maravilhada, e ambos terminaram o assunto rindo prazerosamente.
Mas agora não havia com quem rir; tudo se tornara calmo e silencioso.
Era quase hora do almoço, e Janet caminhou vagarosamente para a sacada onde costumava sentar-se com o pai. O sol incidia em seus cabelos tornando-os cor de ouro. Não era um ouro de tom suave como o sol da Inglaterra, mas de um tom queimado, o mesmo usado por Botticelli ao pintar os cabelos de Simonetta. A partir de então essa tonalidade passou a ser buscada desesperadamente pelos fabricantes e misturadores de tintas.
Os cabelos de Janet, ao sol, pareciam arder em chamas e conferiam-lhe à pele alvor e brilho invejáveis.
Os olhos, que lhe dominavam o rosto delicado, tinham o mesmo azul profundo do Mediterrâneo em dia tempestuoso.
—Não consigo entender de quem você herdou esses olhos, minha querida— o pai já lhe havia dito mais de uma vez—, os olhos de sua mãe eram azuis como o céu e quando os fitei pela primeira vez achei que nada no mundo poderia ser mais belo.
—Seus olhos são cinzentos, papai, porém se tornam quase pretos quando se zanga!— Janet respondera.
—Suponho que tenha razão— concordara lorde Compton, depois de ter achado graça da observação da filha—, mas o que quero dizer é que seus olhos têm uma cor tão diferente e rara, minha filha, que me sinto impossibilitado de descrever-lhes a beleza, só mesmo um poeta, e não eu, seria capaz de fazê-lo.
Depois desse elogio, assim que teve oportunidade Janet examinara seus olhos detidamente e compreendera o que o pai quisera dizer.
Ao espelho, vira um par de grandes olhos azuis, muito escuros, e às vezes com um toque de verde. Porém, o humor mudava- lhes a coloração para matizes de violeta e eles adquiriam uma nuança difícil de ser descrita.
Naquele instante Janet chegava à sacada, onde um cavalheiro a esperava. Ao vê-la aproximar-se, ele não pôde deixar de dizer a si mesmo que outra jovem dificilmente reuniria tanta beleza. Parecia, na verdade, uma figura descida do Monte Olimpo, desejosa de viver entre os humanos.
—Dr. Pirelli!— a jovem exclamou assim que subiu os degraus de acesso à sacada—, que enorme prazer vê-lo aqui!
O médico estendeu a mão e perguntou num inglês correto porém com sotaque italiano:
—Como vai, minha cara?
—Estou bem, embora sentindo enormemente a falta de papai, como pode imaginar.
—Compreendo como se sente. Também sinto falta de lorde Compton. Eu sempre esperava, ansioso, uma oportunidade de vir até a villa para ver seu pai, e você, naturalmente.
Janet sorriu.
—Sempre achei que você e papai tinham tanto para dizer um ao outro que nem se lembravam de minha existência.
—Ora, isto não é verdade!— exclamou o Dr. Pirelli, rindo— obviamente está se fazendo de modesta para receber elogios!
Um criado, já familiarizado com as visitas do médico, trouxe uma garrafa de vinho da preferência do visitante e serviu-lhe um copo.
Aceitando a bebida, o Dr. Pirelli sentou-se em uma das confortáveis poltronas. Assim que o criado retirou-se, ele expôs a Janet a razão de sua visita:
—Tenho uma sugestão a lhe fazer e creio que ficará surpresa ao ouvi-la.
—Uma sugestão?
—Tem sido muito grande minha preocupação por você, Janet, e sei que tem consciência de que não pode ficar sozinha nesta villa.
—Sim, já pensei muito nisso e talvez a solução seja arranjar uma dama de companhia. Confesso, porém, que não me atrai a ideia de empregar uma senhora de idade; creio que seria um tanto deprimente.
—É o que supus que fosse me dizer. Minha sugestão é que deve voltar para a Inglaterra.
Janet manteve-se calada, apenas suspirou, e o médico prosseguiu:
—Pensei num modo de tornar sua viagem de volta à pátria menos monótona e cansativa.
Notando o olhar indagativo que a jovem lhe dirigiu, o Dr. Pirelli foi direto ao assunto:
—Creio que já ouviu falar sobre a Condessa di Agnolo.
—Sim, naturalmente. Ela mora numa villa belíssima, nas proximidades de Pompeia. Confesso que sempre tive muita vontade de conhecer aquela magnífica propriedade.
—A Condessa sempre pergunta por você, e eu nunca a levei até ela porque já faz um ano que a nobre senhora está sofrendo de turbeculose.
—Papai ficou sabendo do estado de saúde da Condessa e a notícia deixou-o bastante aborrecido.
—Sem dúvida é uma tragédia. A Condessa di Agnolo é ainda tão jovem e uma mulher lindíssima.
—Mas não há esperança de cura?
—Desejaria tanto que houvesse! Mas seus dois pulmões estão infectados. Na verdade ela está morrendo.
—Oh, sinto muito!
Fez-se um instante de silêncio e, quando Janet pensava no que poderia aquilo tudo ter a ver com ela, o Dr. Pirelli retomou a narrativa:
—A Condessa tem uma filha de oito anos, uma criança adorável, muito meiga, de gênio dócil, à qual, naturalmente, a mãe é muito devotada.
Jamais pensei que ela tivesse uma filha. Agora essa criança ficará só com o pai, não?
—É exatamente sobre isso que eu vim conversar com você. É desejo da Condessa que lady Katherine, ou Kathy, como a filha sempre foi chamada, passe a viver com o pai, na Inglaterra.
—Está dizendo que a Condessa é inglesa e que Kathy não é filha do Conde di Agnolo?— Janet perguntou, surpresa.
—Imaginei que lorde Compton já lhe tivesse falado sobre a Condessa.
—Embora algumas vezes papai fizesse referência à villa, não me recordo de ele ter falado sobre a esposa do Conde particularmente.
—Creio que lorde Compton imaginasse que seria um erro deixar você interessada na Condessa— o Dr. Pirelli murmurou, quase como se falasse consigo próprio.
—Por que seria um erro fazer isso?
Seguiu-se um instante de silêncio constrangedor e, depois de algum tempo, tendo procurado as palavras certas, o médico disse finalmente:
—O verdadeiro marido da Condessa, é o Conde de Halesworth!
Janet olhou perplexa para o médico.
—Quer dizer que— ela falou vagarosamente—, ela não é casada com o Conde di Agnolo?
—Infelizmente, não— o Dr. Pirelli respondeu—, quando a trouxe para viver com ele em sua villa, deu-lhe seu próprio nome a fim de evitar um escândalo entre os vizinhos. Dessa forma ninguém sabe quem é a Condessa na verdade e todos ignoram que o Conde tem uma família que mora em Veneza!
—Mas…
durante todo esse tempo você e papai... sabiam de tudo!— Janet exclamou acusadoramente.
—É claro que seu pai conhecia o Conde de Halesworth de nome e já ouvira dizer que sua esposa o deixara poucos anos depois do casamento.
—Ela trouxe a filha consigo para a Itália?
—Na ocasião Kathy estava apenas com dois anos, e a mãe não pôde suportar aideia de deixar a criança para trás.
—Mas… o Conde não protestou?
—Apenas uma vez eu e seu pai falamos sobre o assunto, e o que fiquei sabendo foi que o conde era um homem extremamente orgulhoso. Como inúmeros outros aristocratas ingleses, o Conde de Halesworth preferiu renunciar a tudo a ver o nome da família manchado pelo divórcio, uma vez que, quando este ocorre entre a nobreza, é levado à Câmara dos Lordes.
—Compreendo. Dessa forma o conde preferiu ficar em silêncio e deixar a esposa partir com a filha. No entanto, na minha opinião ele deveria ter tentado ficar com sua única filha.
O médico permaneceu em silêncio, e Janet observou logo depois:
—Imagino que, em se tratando de uma menina, o conde não deu tanta importância ao fato. Se a questão fosse com seu filho e herdeiro, ele se empenharia em tê-lo de volta.
—Suponho que você esteja certa. Mas no momento o que mais me preocupa é o fato de Kathy estar em contato com a mãe, correndo o risco de contagiar-se. Você não ignora o quanto a moléstia é terrível.
—Naturalmente, e tal preocupação deve atormentá-lo— Janet observou, penalizada—, mas o que pensa fazer com a garota?
—Gostaria que ouvisse meu plano. Já discuti cada detalhe com a Condessa, e ela incumbiu-me de lhe pedir encarecidamente que leve Kathy para a Inglaterra e a entregue ao pai. Como você é inglesa, isto facilita as coisas.
—A Condessa quer mesmo que eu faça isso? Mas eu jamais a vi!
—Fique sabendo que ela já ouviu falar muito sobre você!— o médico asseverou com um sorriso—, a Condessa sempre foi uma mulher solitária, durante todos estes anos; mesmo a adorando, o Conde não tem condições de ficar sempre junto dela. Se fosse possível, pode ter certeza de que ficaria aos pés da mulher amada noite e dia.
Ele fez um gesto bem tipicamente italiano.
—Muitas vezes o Conde tem de retornar à família, passa muito tempo fora, e a Condessa sente-se imensamente só.
—Ela não tem amigos?
—Embora pareça estranho dizer, a verdade é que são pouquíssimos seus amigos. Sempre foi difícil para ela fazer amizade com os italianos ou os ingleses, receando que viessem a descobrir que o Conde não era verdadeiramente seu marido. Qualquer lady inglesa a evitaria se soubesse quem ela era e a consideraria uma “mulher de má vida”!
—Oh… compreendo! Só lamento que papai não a tivesse convidado para nos visitar. Eu teria sido muito bondosa para com ela.
—Acredito que lorde Compton tenha pensado apenas em você— o médico observou com simplicidade.
—E agora a Condessa deseja que eu leve sua filha para a Inglaterra.
—Exatamente. Por essa razão, sugiro que depois do almoço me acompanhe até a villa da Condessa e poderá falar com ela pessoalmente. Vai constatar o quanto a pobre mulher está desesperada para encontrar uma pessoa de confiança para acompanhar sua garotinha nessa viagem tão longa.
—Posso imaginar e, se me for possível, é claro que acompanharei Kathy até a Inglaterra— uma súbita lembrança fez Janet hesitar—, meu único receio é ter de ir a Londres ainda de luto; terei de falar com as pessoas sobre o papai, o que me fará... sentir vontade de chorar.
—Nesse caso, o melhor a fazer será ocupar sua mente com outra coisa!— O Dr. Pirelli sugeriu com entusiasmo—, seu pai não gostaria de vê-la em prantos. Lembre-se disso!
—Tem razão. Ao chegar à Inglaterra talvez eu decida ir para nossa casa de campo, que está fechada todo este tempo, aos cuidados de caseiros.
—É uma atitude muito sensata! Faça isso até começar frequentar os círculos sociais, como seu pai sempre desejou que fizesse.
—Não estou bastante segura de que é o que desejo.
—Pela primeira vez a ouço dizer uma tolice! Ora, você é linda, Janet! Quanto antes passar a conviver com pessoas da alta sociedade, como sua mãe planejou para você, melhor.
O modo firme como o médico falou fez Janet pensar, divertida, que aquele discurso fora motivado pelo hábito do Dr. Pirelli de estar sempre tentando provocar uma reação positiva num paciente em convalescença, que, depois de uma longa enfermidade, relutava em enfrentar o mundo.
—Sei exatamente o que quer dizer, caro Dr. Pirelli. Terei de fazer “o que é melhor para mim”. Não foi o que disse quando me convenceu a tomar aquele remédio horrível que me receitou logo que nos conhecemos?
—Sei que você o fará. E agora, se for bastante generosa, me convidará para o almoço, depois a levarei para conhecer a Condessa.
Sentada ao lado do médico, que conduzia sua confortável carruagem por alamedas sinuosas, Janet pensava na villa Agnolo, achando extraordinário que, morando tão perto dessa linda propriedade, jamais estivera ali.
Agora entendia por que o pai sempre tinha tão pouco a dizer cada vez que ela fazia qualquer pergunta sobre aquela villa. Sabia também que todos os seus parentes desaprovariam terminantemente qualquer amizade com uma lady que pudesse ser chamada de “mulher de má vida”.
Não ignorando que as italianas eram notórias mexeriqueiras, Ja- net duvidava que as mesmas não soubessem que a Condessa di Agnolo estivesse levando uma ”vida dupla”.
A carruagem entrou na villa, e Janet pôde constatar que, de perto, aquela propriedade era ainda mais grandiosa do que parecia a distância. Veio-lhe à mente que o Conde desejara cercar a mulher que amava de muita beleza.
Um criado usando libré vistosa e imponente abriu a porta aos visitantes, que foram imediatamente conduzidos por um corredor em cujas paredes pendiam quadros magníficos. Logo Janet encontrou-se em uma das mais lindas salas de estar que já vira.
Ali tudo era branco: as paredes, as cortinas, o revestimento das poltronas e sofás, os tapetes sobre o assoalho bem lustroso.
Quadros pintados por grandes mestres italianos enfeitavam as paredes, suas cores vivas emprestavam alegria ao ambiente. Vasos imensos de cristal estavam repletos de flores.
Janet ficou sozinha na sala enquanto o médico foi por um instante ver sua paciente e saber se realmente se sentia bem e disposta a recebê-los.
Andando pelo aposento, chamou-lhe a atenção uma estante cheia de lindíssimos e raros objetos de arte, os quais, ela não ignorava, valiam uma pequena fortuna.
Mal teve tempo de admirar os valioso objetos, pois o médico voltou com um sorriso nos lábios.
—A Condessa está encantada por você ter atendido seu pedido. Só lhe recomendo que não se demore demais no quarto; ela encontra-se debilitada e não pode se cansar.
—Compreendo.
Os dois subiram pela ampla escadaria, e o Dr. Pirelli abriu uma porta. O quarto em que entraram era tão grande quanto a sala de estar logo abaixo dele e achava-se bem claro, embora as venezianas do lado de fora estivessem abaixadas.
Numa grande cama com baldaquinho, de cujos lados pendiam cortinas de musselina e seda, estava a Condessa, reclinada sobre travesseiros com fronhas enfeitadas com rendas.
Vendo-a, magra de dar pena, e imóvel, os cabelos tão loiros quanto as primeiras luzes da aurora, achou que ali estava uma das mulheres mais lindas que já vira em sua vida.
Impressionaram-na aqueles olhos da enferma, orlados de longos cílios escuros e que, naquele rosto magro, pareciam ainda maiores. Eram olhos de uma tonalidade verde-clara com pequeninos pontos dourados.
A Condessa, ao contrário do que Janet havia imaginado, tinha as maçãs do rosto coradas e não se mostrava abatida, embora a doença a estivesse destruindo.
Janet caminhou até bem perto do leito, e a enfermeira ofereceu- lhe uma cadeira para que se sentasse bem perto da Condessa. Esta estendeu à visitante sua mão que pouco mais era do que pele e osso.
—Você… veio!— a enferma exclamou com voz suave.
—Sim, estou aqui. E, naturalmente, disposta a ajudá-la no que estiver ao meu alcance.
—É muita... bondade de sua parte.
A Condessa fez uma breve pausa antes de prosseguir, como se falar lhe fosse penoso.
—Por favor, leve Kathy até o pai dela. Foi um grande erro trazê-la comigo. Mas eu a amava… tanto!
As palavras saíam com dificuldade de seus lábios.
Janet, que continuava a segurar a mão da enferma, tranquilizou-a:
—Compreendo. Cuidarei de Kathy.
—Ele não deve… ficar zangado com ela.
Percebendo que a Condessa referia-se ao marido, asseverou-lhe num tom confortador:
—Tenho certeza absoluta de que ele ficará imensamente feliz em ter a filha de volta.
A Condessa fechou os olhos e continuou com a mão presa à de Janet. Esta olhou ao redor e notou que o médico e a enfermeira haviam se afastado para deixá-las à vontade.
—Não me arrependo do que fiz— a Condessa estava dizendo—, o amor é algo muito, muito maravilhoso! Mas Stafford… não me amava.
—O que importa é que foi muito feliz aqui! Aqui encontrou o amor.
—Fomos muito felizes— a enferma murmurou—, mas Kathy não pode ser punida por uma culpa que foi… apenas minha.
—Nào! É claro que nào!
—Leve-a de volta para a Inglaterra— a Condessa pediu numa voz sumida e lenta—, ensine-a a ser uma verdadeira inglesa, será melhor para ela se for assim.
—Tentarei, prometo-lhe que tentarei.
Olhando para a Condessa, ela pensou, com dor no coração, que era uma pena ser tão linda e tão jovem e estar tão irremediavelmente enferma. Ansiosa por dar um pouquinho de alegria àquela criatura que definhava, Janet disse novamente:
—Prometo-lhe que cuidarei de Kathy e a levarei para o pai.
—Você é… muito bondosa.
A Condessa tinha os olhos fechados, e sua voz foi quase inaudível. Notando que a mão que segurava tornara-se flácida, Janet compreendeu que a enferma perdia as forças, por essa razão devia deixá-la.
Levantando-se, ela fez uma prece silenciosa para que a Condessa morresse sem sofrer e que a felicidade que ela havia conhecido na terra não se perdesse na outra vida.
Janet atravessou o quarto e viu que o Dr. Pirelli a esperava perto da porta. Ambos deixaram o aposento da enferma, e o médico agradeceu-lhe com voz emocionada:
—Obrigado, minha querida… você foi mesmo muito bondosa, pois nenhuma outra pessoa poderia ter sido mais gentil.
—Sinto imensamente por ela. É de cortar o coração ver uma vida terminada, sendo a pessoa tão jovem.
—Ela viveu estes anos na mais perfeita felicidade, creio que não se pode pedir mais do que isto.
O médico falou com tal sentimento que fez Janet lembrar-se de que ele era viúvo.
Ambos seguiram pelo corredor, também cheio de quadros, obras de mestres, indo para o quarto de Kathy.
Era um cômodo ricamente mobiliado, havia brinquedos por toda parte; uma grande casa de bonecas ficava a um canto, e não muito distante dela via-se um cavalo de balanço.
Sobre o assoalho estavam espalhados inúmeros cubos, blocos e tijolinhos de brinquedo multicoloridos. Uma garotinha, sentada entre eles, tentava construir um Castelo, ajudada pela babá italiana.
Ao ver o médico, a garota deu um grito de alegria e correu até ele.
—Dr. Pirelli! Que bom que o senhor veio! Trouxe aqueles doces gostosos?
—Há uma caixa cheinha deles esperando por você lá em baixo, na minha carruagem. Prometi-lhe esses doces, desde que você fosse uma garota boazinha e não aborecesse sua mãe.
—Fiquei muito comportada— Kathy assegurou-lhe—, não é verdade, Giovanna?
A conversa estava sendo mantida em italiano e a babá confirmou:
—Você foi mesmo muito boazinha e muito comportada.
—Então a caixa de doces é toda sua. Agora quero que conheça esta encantadora lady, que é minha amiga, a Srta. Janet Compton.
Janet abaixou-se para ficar da mesma altura de Kathy.
—Estive admirando sua casa de bonecas. Também já tive uma quando tinha a sua idade, mas era bem menor do que esta.
—A minha é uma beleza. Mas eu gosto mais do cavalo.
—Qual o nome dele? Também tive um cavalo igual ao seu e o montava antes de ter um pônei de verdade.
Kathy não era nem um pouco tímida e olhou para Janet com interesse; esta aproveitou para conquistar-lhe a confiança.
—Creio que, se for para a Inglaterra, conforme sua mãe deseja que você faça, poderá ter um pônei de verdade só seu.
—Posso mesmo? Ah, isso seria maravilhoso! Eu queria um pônei, mas mamãe me disse que no jardim não há lugar suficiente para ele. Mas eu já montei de verdade quando estive do outro lado do mar.
—Montou mesmo? Em um cavalo ou um camelo?
Kathy riu.
—Nos dois! Foi muito divertido, muito engraçado montar no camelo!
—Ah, tenho certeza disso. Você vai me contar como foi. Se quiser ir até minha casa comigo, posso lhe mostrar fotografias dos cavalos que eu tinha quando morava na Inglaterra.
—Eu gostaria muito.
Janet olhou para o médico com uma pergunta tácita no olhar, e ele respondeu com um aceno de cabeça. Em seguida o Dr. Pirelli pediu a Giovanna que arrumasse algumas roupas para Kathy o mais depressa possível.
Tomando a mão da menina, o Dr. Pirelli desceu com ela a grande escadaria, e Janet seguiu-os.
Indo atrás dos dois, Janet notou que, ao deixar seu próprio quarto e passar pelo da mãe, Kathy ficou de repente muito quieta. A jovem sentiu-se comovida diante da atitude da criança: era de admirar que uma garota daquela idade tivesse aprendido a ser tão ponderada.
Só ao chegarem ao hall Kathy falou, em voz baixa, com o Dr. Pirelli:
—Posso subir e ver mamãe antes de ir com vocês?
—Creio que no momento sua mãe está dormindo, mas, se você der apenas uma espiada, acenar para ela e jogar-lhe beijos, poderá fazer isso.
—Prometo que terei muito cuidado e não farei barulho. Vou jogar muitos beijos para mamãe porque sinto tanta falta de beijá-la de verdade!
Janet compreendeu que a filha estava proibida de beijar a mãe devido aos riscos de contágio. Era uma pena ver aquela criança sozinha, tendo apenas a atenção dos criados.
Os três foram até a carruagem do médico, e este deu a Kathy uma caixa de amêndoas glaçadas.
—Obrigada! Muito obrigada!— ela agradeceu com entusiasmo e com muita naturalidade deu um beijo no rosto do Dr. Pirelli,
Abrindo a caixa a garota ofereceu doces ao médico, que não os aceitou, e então voltou-se para Janet, que serviu-se de um.
Kathy sentou-se na carruagem com a caixa de doces no colo e os foi comendo um após o outro.
—Estão deliciosos!— ela exclamou—, Giovanna disse que não devo comer muitos doces para não ficar gorda demais. Acho que mamãe deve comer bastante doces.
—Sua mãe está muito doente e não aprecia doces— o médico explicou-lhe.
—Ora, Dr. Pirelli, o senhor está demorando muito para deixar mamãe boa novamente— Kathy reclamou.
—Tenho feito o que posso— o médico respondeu, como se houvesse necessidade de colocar-se na defensiva.
—Sem poder ficar com mamãe tudo aqui fica tão aborrecido! Eu gostaria de ter um cachorrinho para brincar com ele. Mas o tio Diego sempre diz que um cãozinho iria ser um transtorno na villa.